Opinião 2026-04-06 5 min de leitura

Técnico estrangeiro no Brasil: salvação ou ameaça. Nunca análise

Marina Costa
Jornalista Esportiva

Quando Artur Jorge chegou ao Botafogo, a narrativa foi de salvação. Treinador europeu, metodologia diferente, outro nível de exigência. O clube estava construindo algo novo.

Quando Jorge Jesus chegou ao Flamengo em 2019, a narrativa também foi de salvação. E ele entregou. Brasileirão, Libertadores, Supercopa. O melhor futebol que o clube teve em décadas.

Quando Jorge Jesus voltou ao Brasil, ao Flamengo em 2023, a narrativa foi de decepção. O mesmo técnico, resultados diferentes. A salvação virou arrependimento em menos de um ano.

O futebol brasileiro nunca aprendeu a avaliar técnicos estrangeiros com seriedade. Só sabe idolatrá-los ou crucificá-los.

A história que o Brasil repete

O técnico estrangeiro no Brasil segue sempre o mesmo arco narrativo. Chega com cobertura de celebridade. Vence o suficiente para confirmar a narrativa. Encontra resistência quando os resultados oscilam. Vai embora com a análise polarizada: ou foi genial e foi embora cedo demais, ou era superestimado e o futebol brasileiro não precisava dele.

Nunca a análise é: o técnico tinha qualidades específicas, limitações específicas, e o clube usou bem algumas coisas e mal outras.

Essa incapacidade de análise nuançada tem custo real. Significa que o futebol brasileiro não aprende com a experiência. Cada técnico estrangeiro é tratado como fenômeno único, sem que as lições de casos anteriores sejam incorporadas.

O que Jorge Jesus mostrou em 2019 que ninguém quis aprender

A primeira passagem de Jorge Jesus pelo Flamengo foi revolucionária não pelo técnico em si, mas pelo que revelou sobre o elenco do Flamengo. O time tinha jogadores que nunca haviam sido organizados taticamente de forma consistente. Gabigol, Arrascaeta, Everton Ribeiro funcionavam em triângulos que nenhum técnico brasileiro anterior havia montado com essa precisão.

O que Jorge Jesus trouxe foi estrutura e exigência. Os jogadores responderam porque eram bons o suficiente para responder. O crédito é dividido: metade do técnico, metade do elenco.

O futebol brasileiro não aprendeu isso. Aprendeu "técnico português é bom". Resultado: veio uma enxurrada de técnicos portugueses médios para clubes brasileiros, sem que os clubes tivessem o elenco ou a estrutura que o Flamengo de 2019 tinha.

O técnico estrangeiro como produto de marketing

Em vários casos recentes, a contratação de técnico estrangeiro foi mais decisão de marketing do que decisão esportiva. O anúncio de um nome europeu gera cobertura, sinaliza ambição para o torcedor, facilita a conversa com patrocinadores.

Isso não é exclusividade do Brasil. Mas no Brasil o fenômeno é mais intenso porque o futebol nacional tem complexo histórico com o futebol europeu. Há uma crença difusa de que o futebol europeu é superior e que importar um técnico de lá é importar essa superioridade.

Não é assim que funciona. Técnico é produto do contexto em que opera. Um técnico que funciona na Bundesliga pode não funcionar na Série A porque o perfil dos jogadores é diferente, a cultura do vestiário é diferente, a relação com imprensa e torcida é diferente, o calendário é diferente.

Zubeldia e o que o Fluminense fez certo

O caso do Zubeldia no Fluminense é o mais interessante dos últimos anos porque foi feito com uma lógica diferente. O clube não contratou um nome famoso. Contratou um técnico argentino com método específico, em fase de construção de carreira, que foi apresentado ao clube como projeto de longo prazo.

O resultado, pelo menos na primeira metade de 2026, tem sido positivo. Não porque Zubeldia seja o melhor técnico do mundo. Mas porque a decisão foi esportiva, não de marketing.

Esse modelo, identificar técnico por método e compatibilidade com o elenco em vez de por nome e currículo europeu, é o que o futebol brasileiro precisa normalizar. E não normaliza porque exige análise que vai além do título do currículo.

A xenofobia que ninguém assume

Há também o outro lado, que existe e precisa ser nomeado: parte da resistência ao técnico estrangeiro no Brasil é xenofobia mal disfarçada.

O argumento "não conhece o futebol brasileiro" é às vezes legítimo. A adaptação cultural é real. Mas frequentemente é pretexto para rejeição que não tem base técnica. O técnico que perde jogos com elenco limitado é criticado pela falta de "ginga brasileira". O técnico brasileiro que perde com o mesmo elenco é defendido pela "identidade de jogo".

O futebol brasileiro é melhor quando incorpora o que o exterior tem a oferecer e quando mantém o que tem de específico e valioso. A rigidez tática europeia combinada com a fluidez individual brasileira é uma combinação que 2019 mostrou que funciona. Mas exige abertura dos dois lados.

O que um clube deveria perguntar antes de contratar técnico estrangeiro

A pergunta certa não é "ele é europeu?" nem "ele ganhou alguma coisa grande?". A pergunta certa é: o método dele é compatível com o perfil dos jogadores que temos? Ele já operou em contextos de pressão de torcida comparável? Como ele reage a semana com três jogos e calendário comprimido? Tem disposição para aprender o que o contexto brasileiro exige?

Essas perguntas raramente são feitas. A contratação acontece por indicação de empresário, por disponibilidade de mercado, por decisão de cúpula que prioriza impacto de anúncio sobre compatibilidade técnica.

E depois vem a narrativa. Salvação ou decepção. Sem análise no meio.

O Brasileirão vai continuar concentrado nos mesmos clubes enquanto as decisões de gestão esportiva, incluindo contratação de técnicos, forem feitas com os mesmos critérios superficiais de sempre. Estrangeiro ou brasileiro, o critério tem que ser competência. Parece óbvio. No futebol brasileiro, ainda não é.

Marina Costa Jornalista Esportiva

Marina Costa tem 38 anos e é carioca do Méier. Formada em Jornalismo pela UERJ, começou cobrindo esporte em 2010 no Lance!, onde ficou por 5 anos na editoria de futebol nacional. Passou pela ESPN Bras... Ler perfil completo

Leia tambem

200 artigos. O futebol que o Brasil merece e não tem

Marina Costa | 5 min

Demitir é fácil. Planejar, não. O carrossel que o Brasil não para

Marina Costa | 5 min

O comentarista virou personagem. A análise ficou pelo caminho

Marina Costa | 4 min