Opinião 2026-04-06 4 min de leitura

O comentarista virou personagem. A análise ficou pelo caminho

Marina Costa
Jornalista Esportiva

Galvão Bueno era comentarista. Depois virou personagem. Depois virou o problema. Depois virou símbolo de uma era. Agora é referência histórica de como não fazer.

O que ninguém percebeu durante esse arco todo é que o problema não era Galvão. Era o modelo que o criou e que o substituiu por versões diferentes do mesmo problema.

O que o comentarista deveria fazer

A função original do comentarista esportivo era informar. Explicar o que o torcedor não conseguia ver sozinho. O impedimento complexo. O esquema tático. A razão pela qual aquele time específico perdeu aquele jogo específico. Contexto, análise, educação do torcedor.

Em algum momento, isso mudou. O comentarista percebeu que opinião polêmica gerava mais audiência do que análise precisa. Que a torcida queria ouvir seu clube sendo defendido ou o rival sendo atacado, não uma explicação rigorosa do que havia acontecido em campo.

O mercado recompensou a polêmica. A análise foi ficando para trás.

A fragmentação que o digital acelerou

A internet não criou o comentarista-personagem. Criou dez mil deles.

O YouTube, o Twitter, o Instagram transformaram qualquer pessoa com opinião forte sobre futebol em comentarista potencial. Isso tem aspectos positivos: vozes que nunca teriam espaço no modelo de TV aberta agora têm audiência. Perspectivas diversas circulam.

Mas também acelerou o problema de incentivos. No digital, engajamento é a métrica. Engajamento vem de emoção, não de análise. Vem de declaração que divide, não de explicação que une. O comentarista digital que explica pacientemente por que o atacante tomou a decisão errada no segundo gol recebe menos compartilhamentos do que o que grita que o técnico não entende de futebol.

O modelo recompensa o grito. O grito domina.

O que o jornalismo esportivo perdeu

Existe uma geração de jornalistas esportivos brasileiros formados nos anos 1980 e 1990 que tinha rigor analítico real. Conheciam história, estatística antes das estatísticas serem mainstream, contexto internacional. Eram capazes de colocar um resultado em perspectiva histórica sem transformar isso em clickbait.

Essa geração envelheceu. A que veio depois foi formada em um ambiente onde a velocidade importava mais do que a precisão, onde o like era a métrica de sucesso, onde ser o primeiro a dizer algo superava ser o mais correto a dizer algo.

Não é culpa individual de ninguém. É seleção de mercado. Quem era preciso e lento perdeu espaço para quem era veloz e barulhento. As redações que sobreviveram ao colapso da mídia impressa fizeram isso priorizando volume e velocidade sobre profundidade.

A análise tática que chegou tarde e mal

Há uma ironia no futebol brasileiro dos últimos anos: o país produziu, ao mesmo tempo, um nível técnico de análise tática nunca visto, canais no YouTube com análises sérias, blogs com cobertura de dados, perfis no Twitter que explicam pressão alta e linha de quatro com profundidade real, e um nível de comentário no mainstream que ficou onde estava.

O torcedor que quer aprendizado real tem acesso. O torcedor que assiste no Sportv com comentarista gritando continua recebendo o produto de sempre.

A análise tática de qualidade existe no Brasil. Está fora do mainstream. E o mainstream, que é onde a maioria dos torcedores consome futebol, não mudou substantivamente.

O clube que não é analisado, é defendido

Há um problema específico do comentarismo brasileiro que vai além do barulho: a clubificação da análise.

Comentaristas assumidamente torcedores de um clube específico analisam esse clube com um viés que é estrutural, não ocasional. Quando o clube vai bem, a análise é generosa. Quando vai mal, são encontradas justificativas externas, árbitro, calendário, lesões. Quando o rival vai bem, é minimizado. Quando vai mal, é exacerbado.

Isso não é análise. É torcida com microfone. E é o produto predominante no comentarismo esportivo brasileiro.

O VAR continua gerando polêmica em parte porque o comentário que deveria contextualizar as regras e os critérios não faz isso. Infla a polêmica porque polêmica vende. O torcedor não aprende. O ciclo continua.

O modelo que funciona e é minoritário

Existem exceções reais. Comentaristas que conseguem manter rigor sem perder audiência. Canais que explicam táticas com clareza sem precisar gritar. Podcasts que tratam o torcedor como adulto capaz de processar nuança.

Essas exceções existem e têm audiência crescente. Mas são minoria e operam fora dos grandes veículos. O modelo mainstream não mudou porque os grandes veículos ainda têm audiência suficiente para não precisar mudar.

Quando a audiência do grito cair o suficiente, o modelo vai mudar. Ou quando um competidor que faz análise séria crescer o suficiente para ameaçar o modelo antigo.

Ambos estão acontecendo, lentamente. O técnico que cai como bode expiatório continua caindo em parte porque o comentário que deveria contextualizar as causas reais prefere o drama da demissão. Quando o comentário mudar, o futebol brasileiro vai junto.

Por enquanto, o grito continua mais alto do que a análise. E o futebol brasileiro paga o preço de um público que consome décadas de barulho sem aprender quase nada sobre o jogo que ama.

Marina Costa Jornalista Esportiva

Marina Costa tem 38 anos e é carioca do Méier. Formada em Jornalismo pela UERJ, começou cobrindo esporte em 2010 no Lance!, onde ficou por 5 anos na editoria de futebol nacional. Passou pela ESPN Bras... Ler perfil completo

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