Opinião 2026-04-06 4 min de leitura

O treinador não é o problema. É o bode expiatório

Marina Costa
Jornalista Esportiva

Dez rodadas. Dez demissões. Uma por rodada, como se o calendário exigisse um sacrifício mensal. O Brasileirão 2026 está no ritmo de consumir 38 treinadores em uma única temporada.

E nenhum clube que demitiu está melhor do que estava.

Isso não é opinião. É dado. É verificável. É constrangedor.

O ritual que não funciona

Todo torcedor brasileiro conhece o ritual. O time perde quatro jogos seguidos. A diretoria convoca coletiva. O presidente fala em "momento de reflexão" e "necessidade de mudança de rumo". O treinador agradece e some. Dois dias depois, chega um técnico "com perfil diferente", "que conhece bem o elenco" ou "com experiência na competição".

Três rodadas depois, o time perde de novo.

A pesquisa é vasta e consistente: clubes que trocam de treinador durante a temporada performam, em média, igual ou pior do que clubes que mantêm o técnico em crise. O efeito imediato existe, dura entre três e cinco partidas, e desaparece. O que fica é o elenco. O que fica é a estrutura. O que fica é o problema real que ninguém quis resolver.

O que o Brasileirão 2026 mostra

Rafael Teixeira analisou aqui no Armador: dez treinadores caíram em dez rodadas. Os motivos declarados pelas diretorias variam, "resultados abaixo do esperado", "necessidade de novo impulso", "projeto técnico diferente". O motivo real é sempre o mesmo: a diretoria precisava fazer alguma coisa visível e demitir é o que parece mais concreto.

Demitir um treinador custa entre R$ 800 mil e R$ 5 milhões em rescisão, dependendo do contrato. Mais o custo de contratar o substituto. Mais o tempo de adaptação do elenco ao novo sistema. Mais a instabilidade emocional que isso gera no vestiário.

Tudo isso para um efeito que dura três semanas.

A ilusão do controle

O problema não é que os presidentes sejam burros. É que estão respondendo a incentivos muito claros.

Manter um treinador em crise e perder mais três jogos é culpa do presidente. Demitir o treinador e perder mais três jogos é culpa do ex-treinador. A demissão não melhora o time, mas redistribui a culpa. E em um ambiente onde a torcida pressiona via redes sociais vinte e quatro horas por dia, redistribuir a culpa tem valor político imediato.

O treinador virou o fusível do sistema. Quando a pressão aumenta demais, ele queima. O circuito não muda. A corrente continua a mesma.

Quem nunca é demitido

Tem uma pergunta que ninguém faz quando o treinador cai: e o diretor de futebol?

O diretor que montou o elenco. Que aprovou as contratações. Que negociou os salários acima do orçamento. Que prometeu reforços que não chegaram. Que assinou o planejamento que colocou o clube nessa situação.

Esse não cai. Raramente. Mesmo quando é o responsável direto pelo fracasso estrutural que o treinador está tentando administrar com os recursos que sobram.

A CBF assina contratos que silenciam quem questiona. Os clubes demitem quem aparece na foto. O padrão é o mesmo: punir o visível, proteger o estrutural.

O modelo que funciona

Guardiola tem onze anos no topo da elite europeia. Mourinho tem vinte. Ancelotti está na quarta grande conquista com clubes diferentes. Nenhum deles ficou onze anos sem uma fase ruim. Todos ficaram porque os clubes entenderam que a instabilidade custa mais do que a crise.

No Brasil, o tempo médio de um treinador na Série A é de quatro meses. Quatro meses. Não existe sistema tático que amadurece em quatro meses. Não existe identidade de jogo que se constrói em quatro meses. Não existe nada de relevante que acontece em quatro meses além de emprego para o próximo técnico da fila.

A conta que ninguém fecha

Somar o custo total das demissões em um Brasileirão inteiro deveria ser obrigatório. Não é. Nenhum clube publica esse número. Nenhuma federação exige transparência sobre isso. A torcida não sabe quanto custou a demissão do técnico que "não deu certo", e quanto desse dinheiro poderia ter ido para reforço, infraestrutura ou categorias de base.

O treinador demitido no Brasileirão 2026 não é o problema do futebol brasileiro. É o sintoma mais caro e mais inútil de um problema que ninguém quer nomear: a incapacidade crônica de planejar além do próximo jogo.

Enquanto isso, a conta cresce. E o próximo técnico já está esperando na fila.

Marina Costa Jornalista Esportiva

Marina Costa tem 38 anos e é carioca do Méier. Formada em Jornalismo pela UERJ, começou cobrindo esporte em 2010 no Lance!, onde ficou por 5 anos na editoria de futebol nacional. Passou pela ESPN Bras... Ler perfil completo

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