Dorival Júnior foi demitido pelo Corinthians 64 dias depois de conquistar o título da Copa do Brasil. Não é erro de digitação. Sessenta e quatro dias. O clube ainda estava comemorando quando começou a procurar o substituto.
Isso diz tudo sobre o futebol brasileiro que não quer ser dito em voz alta.
A demissão virou produto
O Brasil tem, em média, uma troca de treinador a cada 47 dias no Campeonato Brasileiro. Em 2025, foram 38 demissões nas 20 equipes da primeira divisão durante uma única edição do torneio. Matematicamente, quase toda equipe trocou de técnico pelo menos uma vez. Muitas, duas vezes.
A pergunta que ninguém faz: se a demissão fosse solução, o problema estaria resolvido. Não está.
Clubes que mais demitem não sobem na tabela. A correlação entre rotatividade técnica e desempenho no Brasileirão é negativa. Dados de 2020 a 2025 mostram que equipes com mais de duas trocas por temporada terminam, em média, quatro posições abaixo do que iniciaram. O remédio está matando o paciente.
O treinador como bode expiatório
Existe um roteiro. Clube monta elenco mal planejado no início do ano. Elenco performa abaixo do esperado. Diretoria demite o treinador. Diretoria anuncia que "o projeto segue" com novo técnico. Novo técnico usa o mesmo elenco mal planejado. Clube monta elenco mal planejado no início do ano seguinte.
O técnico é a única peça que muda. O problema estrutural permanece intacto.
Isso não é incompetência. É covardia institucional. Demitir o treinador é mais barato, mais rápido e mais palatável do que admitir que o planejamento estava errado desde janeiro. O treinador não contratou os jogadores. Não definiu o orçamento. Não aprovou a reformulação do departamento médico. Mas é ele que vai embora quando a soma não fecha.
No caso do Corinthians com Dorival, foi pior. O homem que trouxe o título foi demitido porque a sequência de jogos no começo do ano seguinte não satisfez uma diretoria que trocou de presidente meses antes. Título válido. Mandato, não.
O calendário que destrói qualquer projeto
Vamos combinar: nenhum treinador no mundo conseguiria manter padrão de jogo num calendário que coloca uma equipe em campo a cada 72 horas durante três meses. O calendário brasileiro é estruturalmente inimigo de qualquer trabalho tático de médio prazo.
Um treinador europeu tem quatorze dias para trabalhar entre jogos de liga. No Brasil, esse número cai para dois ou três dias nos picos de temporada. É fisicamente impossível implementar um sistema de jogo coerente nesse ritmo. O técnico não está falhando. O sistema está falhando nele.
E quando os resultados não aparecem, porque não podem aparecer num calendário assim, ele é demitido. Ciclo perfeito. Ciclo inútil.
A questão do calendário comprimido já foi analisada aqui. O que ainda não foi dito com clareza suficiente é que esse calendário e a cultura da demissão rápida são parte do mesmo sistema. Um alimenta o outro. Enquanto o calendário tornar impossível o trabalho tático, a demissão virará a saída padrão para dirigentes sem paciência.
O custo que ninguém calcula
Demitir um treinador custa dinheiro. Isso parece óbvio, mas os clubes brasileiros raramente calculam o impacto real.
Existe a rescisão do contrato. Existe a contratação do substituto. Existe o período de adaptação do novo técnico, durante o qual o time geralmente performa abaixo da média histórica. Existe a desorganização tática inevitável quando um sistema de jogo é abandonado no meio da temporada. E existe o custo invisível: jogadores que foram contratados para um sistema específico passam a ser inadaptáveis ao novo modelo.
Um levantamento de 2024 estimou que os clubes brasileiros de Série A gastaram coletivamente R$ 280 milhões em rescisões de técnicos em cinco anos. Isso sem contar os salários dos novos contratados. É dinheiro que poderia ir para infraestrutura, para formação de base, para melhorar as condições de trabalho dos atletas.
Foi na base, aliás, que o dinheiro não chegou. Apenas 0,3% dos jovens que passam por escolinhas chegam ao futebol profissional no Brasil. Mas dinheiro para demitir treinador tem sempre.
A ilusão do "técnico salvador"
A cada demissão, vem o anúncio do substituto como se fosse uma contratação revolucionária. "Chegou fulano para mudar o patamar do clube." Dois meses depois, fulano está sofrendo com o mesmo elenco desequilibrado, o mesmo calendário insano, a mesma pressão por resultado imediato.
O mercado de técnicos no Brasil virou um carrossel. Os mesmos nomes circulam entre os mesmos clubes em ciclos de dezoito meses. Vanderlei Luxemburgo treinou mais de 40 equipes diferentes. Cuca está na quinta ou sexta passagem por grandes clubes. Isso não é versatilidade. É um setor que não aprende.
O treinador europeu que chega ao Brasil descobre rapidamente que o sistema é resistente a qualquer mudança que exija paciência. Abel Ferreira é a exceção que confirma a regra, e mesmo ele, após quatro anos no Palmeiras com títulos consistentes, enfrenta questionamentos em qualquer sequência negativa de três jogos.
O que precisaria mudar
A solução não é difícil de enunciar. É difícil de executar porque exige que dirigentes abram mão de poder.
Precisaria de contratos mais longos com cláusulas de proteção real para o treinador. Precisaria de metas claras estabelecidas no início da temporada, não no meio. Precisaria de diagnósticos honestos sobre o planejamento do elenco antes de apontar para o banco de reservas quando o resultado não vem.
Precisaria, sobretudo, de uma cultura que entenda que projeto leva tempo. Que identidade de jogo não se constrói em dois meses. Que elenco mal montado não vira campeão por troca de técnico.
Nenhum desses pontos é novidade. Todos foram ditos antes. Nada mudou.
Enquanto isso, o ciclo continua
O Corinthians demitiu Dorival em 64 dias. O Fluminense trocou de técnico três vezes em oito meses. O Atlético-MG, campeão em 2021, passou por quatro treinadores em 2023. O Botafogo, campeão brasileiro e da Libertadores em 2024, entrou em 2025 com pressão sobre o mesmo técnico que conquistou os títulos.
Isso não é gestão. É pânico institucionalizado.
O futebol brasileiro não tem problema de técnico. Tem problema de paciência. E enquanto a demissão for mais fácil do que a autocrítica, o carrossel vai girar. Com os mesmos nomes. Os mesmos discursos de posse. Os mesmos resultados.
O título de Dorival durou 64 dias. A conta vai chegar mais cedo ou mais tarde.