Opinião 2026-04-06 4 min de leitura

O Brasileirão tem vencedor previsível. Isso não é acidente

Marina Costa
Jornalista Esportiva

O Athletico-PR nunca foi rebaixado para a Série C desde que o formato atual do campeonato existe. O Atlético-MG, idem. O Internacional, idem. O Santos, apesar de tudo, ainda não caiu para a terceira divisão. Vasco e Cruzeiro chegaram a cair, mas voltaram.

Todo mundo conhece esses clubes. Todo mundo sabe seus nomes, suas histórias, seus títulos. E esse reconhecimento, essa familiaridade construída ao longo de décadas, cria uma distorção que o futebol brasileiro raramente discute com honestidade: o clube grande que vai mal nunca sofre as consequências proporcionais ao desempenho ruim.

O que o rebaixamento deveria fazer

Em teoria, o rebaixamento é o mecanismo mais poderoso de accountability no futebol. Desempenho ruim tem consequência real: menos receita, menos visibilidade, dificuldade de contratar, perda de patrocinadores. O clube que vai mal paga o preço e tem incentivo concreto para melhorar.

Na prática, no Brasil, esse mecanismo funciona de forma seletiva.

Quando o Cruzeiro foi rebaixado em 2019, o clube tinha dívidas de R$ 1 bilhão. Não foi o rebaixamento que criou as dívidas. As dívidas criaram o rebaixamento. E mesmo assim, o processo de reconstrução foi possível porque a base de torcedores, os ativos de marca e a herança histórica do clube criaram condições de acesso a capital que clubes menores nunca teriam.

O rebaixamento do Cruzeiro durou dois anos. O rebaixamento do ABC do Rio Grande do Norte, clube com história rica mas sem a mesma base econômica, pode durar uma geração.

A assimetria que ninguém calcula

Existe uma assimetria profunda entre o que um clube grande perde quando é rebaixado e o que um clube pequeno ganha quando sobe.

O Fluminense rebaixado teria acesso a condições de retorno que o Tombense promovido nunca terá. Isso não é injustiça, é a realidade do mercado. O problema é quando essa assimetria é usada para justificar decisões que protegem artificialmente clubes grandes de consequências que deveriam ser naturais.

E isso acontece. Não de forma declarada. Mas no calendário que favorece grandes clubes. Nos contratos de TV que distribuem mais para quem já tem mais. Na cobertura jornalística que transforma cada crise de clube grande em narrativa nacional enquanto a ascensão de um clube pequeno é nota de rodapé.

O que o Mirassol ensina

O Mirassol chegou à Série A em 2026 e está no Z-4. Já discutimos isso aqui. Mas há outro ângulo que importa para essa conversa: o Mirassol existe. Compete. Tem identidade. Tem torcida.

E vai provavelmente ser rebaixado ao final desta temporada sem que o futebol nacional discuta com seriedade o que significa perder um clube que trouxe algo diferente para a divisão de elite.

A pergunta que ninguém faz: o que o futebol brasileiro fez para que o Mirassol tivesse condições reais de competir? A resposta é: pouco. O clube chegou ao topo com infraestrutura e orçamento que os clubes de elite têm como ponto de partida, não de chegada.

O modelo que perpetua a concentração

A distribuição de cotas de TV no Brasileirão é ponderada por audiência histórica e pelo desempenho no campeonato. Os clubes com maior audiência histórica são os grandes. Os clubes que mais jogos disputam nas primeiras posições são os grandes.

Resultado: os grandes recebem mais dinheiro, contratam melhor, ficam nas primeiras posições, recebem mais dinheiro. O ciclo se fecha.

O Brasileirão administrado pela CBF nunca teve incentivo real para quebrar esse ciclo. Uma liga independente controlada pelos próprios clubes teria exatamente o mesmo problema, os votos dos grandes prevaleceriam sobre os dos pequenos.

A concentração não é acidente do sistema. É o sistema.

O que o Athletico-PR fez diferente

Há uma exceção que merece ser nomeada. O Athletico-PR construiu sustentabilidade sem depender de grandiosidade histórica. Investiu em metodologia, em formação, em uma identidade tática que transcende treinadores. Chegou a uma semifinal de Libertadores. Ganhou Copa Sul-Americana.

Fez isso sem os recursos naturais de Flamengo, Corinthians ou Palmeiras. Fez com inteligência de gestão.

Mas mesmo o Athletico enfrenta agora o que o ciclo do campeão mostrou no Botafogo: o futebol brasileiro não tem infraestrutura de competição que recompense consistência. Recompensa picos. E picos são, por definição, insustentáveis.

A pergunta que o futebol brasileiro precisa responder

Quanto vale a diversidade competitiva para o produto Brasileirão?

Campeonato onde o mesmo grupo de quatro ou cinco clubes disputa o título todo ano é previsível. Previsível é entediante. Entediante perde torcedor. Torcedor perdido é receita perdida.

A Premier League entendeu isso e distribui receita de TV de forma mais equilibrada do que qualquer outro campeonato europeu. Não por altruísmo. Por interesse no produto.

O Brasileirão ainda não fez esse cálculo. Ou fez e concluiu que o interesse dos grandes no curto prazo pesa mais do que a saúde do produto no longo prazo.

Enquanto esse cálculo não mudar, o futebol brasileiro vai continuar produzindo campeonatos com vencedor previsível, clubes pequenos que sobem e descem sem jamais se firmar, e torcedores que assistem com um olho no WhatsApp.

Marina Costa Jornalista Esportiva

Marina Costa tem 38 anos e é carioca do Méier. Formada em Jornalismo pela UERJ, começou cobrindo esporte em 2010 no Lance!, onde ficou por 5 anos na editoria de futebol nacional. Passou pela ESPN Bras... Ler perfil completo

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