Opinião 2026-04-06 5 min de leitura

122 SAFs no Brasil. Virar empresa não é virar competente

Marina Costa
Jornalista Esportiva

O Brasil tem 122 clubes operando como Sociedade Anônima do Futebol. Em quatro anos desde a Lei das SAFs, o modelo se multiplicou do topo ao fundo da pirâmide. 35% dos clubes da Série A já são empresas. O futebol brasileiro virou negócio.

Só que negócio precisa de resultado. E nem toda SAF está entregando.

Existe uma narrativa dominante de que virar empresa resolve o problema de gestão do futebol brasileiro. Que clube-empresa tem mais governança, mais profissionalismo, mais planejamento. Que a diferença entre o futebol brasileiro e o europeu é que lá são empresas e aqui são associações de torcedores com estatuto.

A realidade de 2026 é mais complicada que isso.

Os casos que confirmam a narrativa

O Botafogo é o argumento mais poderoso que os defensores do modelo SAF têm. John Textor assumiu o clube em 2022, investiu de forma estruturada, montou elenco competitivo, e em 2024 o Botafogo ganhou o Brasileirão e a Libertadores no mesmo ano, algo que nunca havia acontecido na história do clube.

O Cruzeiro é outro caso de recuperação real. Clube que estava na Série B com dívida impagável, virou SAF com Ronaldo como acionista principal, subiu para a Série A, reestruturou as finanças, e hoje está avaliado em R$975 milhões, o maior salto de valor entre os clubes brasileiros entre 2025 e 2026.

O Bahia com o City Football Group trouxe metodologia de clube global para o futebol brasileiro. Treinamentos, análise de dados, recrutamento internacional. O Bahia de hoje joga futebol diferente do que jogava há cinco anos.

Esses casos existem. São reais. E justificam parte do entusiasmo com o modelo.

Os casos que a narrativa ignora

O Vasco da Gama virou SAF. 777 Partners assumiu o controle. E o Vasco continua sendo o Vasco: alternando boas temporadas com crises de gestão, contratações mal sucedidas e troca de técnico em momento inoportuno. A empresa não trouxe estabilidade. Trouxe instabilidade diferente.

O Coritiba virou SAF. Caiu para a Série B. O modelo jurídico não impediu a queda técnica.

Chapecoense está em processo de conversão. O clube que sofreu o maior trauma da história recente do futebol brasileiro ainda luta para encontrar estabilidade competitiva, independente do formato jurídico.

Esses casos não aparecem nas apresentações sobre SAF. Ficam nas notas de rodapé.

O que o modelo garante e o que não garante

A Lei das SAFs resolveu alguns problemas reais do futebol brasileiro. Criou mecanismo para reestruturação de dívidas tributárias. Possibilitou entrada de capital externo com regras claras. Definiu governança mínima para clubes que antes operavam sem nenhuma prestação de contas formal.

O que o modelo não garante é competência do investidor. Não garante que o dono da SAF entende de futebol. Não garante que o projeto esportivo vai ser sólido. Não garante que o investimento vai ser paciente o suficiente para colher resultados no longo prazo.

Futebol é negócio incomum. O retorno financeiro é incerto, de longo prazo, e fortemente dependente de variáveis que nenhum gestor controla completamente, como lesões, arbitragem, sorte em eliminatórias. Investidor que entra esperando retorno como em qualquer outro negócio vai se frustrar ou vai fazer pressão por resultado imediato que prejudica o projeto.

E pressão por resultado imediato em SAF tem nome: é o mesmo imediatismo que gerou dez demissões de técnico em dez rodadas no Brasileirão 2026. O modelo jurídico não muda o comportamento se o comportamento vem da cultura, não do estatuto.

O capital que não é paciente

Um dos maiores problemas do modelo SAF brasileiro é a qualidade do capital que entrou. Parte dos investidores que assumiram clubes nos últimos quatro anos não tem histórico sólido em gestão esportiva. Alguns vieram de outros setores sem entender as especificidades do futebol. Outros buscavam oportunidade de valorização rápida que o futebol raramente oferece.

777 Partners, que assumiu o Vasco, enfrentou problemas financeiros graves em outros investimentos esportivos ao redor do mundo. Red Bull tem modelo de sucesso comprovado, mas é exceção, não regra, de investidor que entra no futebol com estratégia de longo prazo e cultura de clube própria.

O futebol brasileiro abriu as portas para o capital externo sem criar mecanismos robustos de avaliação da capacidade financeira e da seriedade do projeto dos entrantes. O resultado é que alguns investidores chegaram com promessas que o balanço não sustenta.

O que os dados de 2026 mostram

O Brasileirão 2026, com 35% de SAFs na Série A, não é visivelmente mais competitivo que os campeonatos anteriores. A hegemonia de Palmeiras e Flamengo continua, e nenhum deles é SAF. O Palmeiras opera com patrocínio massivo da Crefisa como clube associativo. O Flamengo é o maior clube-associação da América do Sul em termos de receita.

O modelo que está ganhando títulos no Brasil não é o modelo empresa. É o modelo clube bem gerido com receita robusta. Isso pode ser SAF ou pode ser associação. Depende menos do formato jurídico e mais da qualidade de quem está no comando.

A pergunta que o futebol brasileiro precisa responder

A Lei das SAFs foi bem-intencionada e parcialmente bem-sucedida. Casos como Botafogo e Cruzeiro provam que o modelo pode funcionar quando há investidor competente e projeto sólido.

Mas o futebol brasileiro abraçou o modelo como se ele fosse solução automática. Como se virar empresa já fosse suficiente para resolver os problemas estruturais de governança, endividamento e imediatismo.

Não é. Uma empresa mal gerida é tão problemática quanto uma associação mal gerida. Com a diferença de que empresa mal gerida tem investidor que pode recuar, capital que pode sair, e clube que pode ficar sem estrutura do dia para a noite.

O futebol brasileiro tem 122 SAFs. Precisa agora descobrir quantas delas têm projeto real por trás do CNPJ.

Marina Costa Jornalista Esportiva

Marina Costa tem 38 anos e é carioca do Méier. Formada em Jornalismo pela UERJ, começou cobrindo esporte em 2010 no Lance!, onde ficou por 5 anos na editoria de futebol nacional. Passou pela ESPN Bras... Ler perfil completo

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