Dez rodadas. Dez técnicos demitidos. A média é de um treinador por jornada no Brasileirão 2026, e todo mundo fala sobre os treinadores. Ninguém fala sobre quem os contratou.
Esse é o debate que o futebol brasileiro se recusa a ter. Toda vez que um clube troca de técnico, a narrativa vira: o fulano não tinha paciência, não entendia o grupo, não sabia montar o time. Beleza. Mas e o diretor de futebol que contratou esse fulano? E o presidente que aprovou a contratação? Eles continuam nos cargos. Intocáveis.
Por que ninguém fala disso?
Jorge Sampaoli foi o primeiro a cair, em fevereiro, no Atlético-MG. Fernando Diniz no Vasco logo depois. Tite no Fluminense. Vojvoda no Santos. Anselmi no Botafogo. Dorival Júnior no Corinthians. A lista segue e cada nome vem com a mesma justificativa oficial: resultados insatisfatórios.
Resultados insatisfatórios. Depois de quantas rodadas? Quatro. Cinco. Seis. O futebol brasileiro virou laboratório de impaciência institucionalizada, onde o prazo médio para um treinador provar que funciona é menor do que o tempo de espera num pronto-socorro.
A pergunta que ninguém faz é: quem definiu que esse era o técnico certo? Quem fez a análise de compatibilidade entre o estilo do treinador e o elenco disponível? Quem apresentou o projeto de jogo ao conselho antes de assinar o contrato? Quem, afinal, tem responsabilidade pelo fracasso além do cara que fica parado na beira do campo enquanto tudo dá errado?
Os dados não mentem: a troca não resolve
A análise de dados do próprio Armador mostrou que a troca de técnico no Brasileirão raramente resolve o problema estrutural. O time novo levanta por duas, três rodadas. Depois volta ao patamar anterior. Por uma razão simples: o elenco não mudou. O orçamento não mudou. A política de contratação não mudou. Só o bode expiatório.
No Corinthians, a situação é emblemática. Dorival Júnior era o décimo treinador demitido em dez rodadas. Não o décimo do ano. O décimo da competição. O Timão chegou à rodada 10 com uma sequência de nove jogos sem vitória, e a resposta do clube foi a mesma de sempre: demitir. Como se a solução fosse sempre a mesma independente do diagnóstico.
Isso não é gestão. É superstição administrativa.
O modelo exportado que virou caricatura
O Brasil exportou treinadores para o mundo inteiro durante décadas. Levou Scolari, Felipão, Wanderlei Luxemburgo, Cuca. Hoje importa técnicos argentinos, portugueses, espanhóis porque os clubes brasileiros perderam a capacidade de desenvolver identidade de jogo de longo prazo. E boa parte dessa perda tem relação direta com essa cultura de demissão compulsiva.
Na prática, o que acontece é o seguinte: um clube contrata um treinador com perfil de construção de jogo lento, baseado em organização defensiva e evolução gradual. Depois de quatro rodadas sem vencer, o presidente, pressionado pela torcida e pelos patrocinadores, demite. Contrata alguém com perfil completamente diferente. O vestiário que estava se adaptando ao primeiro esquema precisa começar do zero. E assim o clube passa o ano inteiro sem identidade, sem sequência, sem nada.
Enquanto isso, na Europa, clubes como o Liverpool gastam dois anos sofrendo para depois colher. O Brighton levou três temporadas para virar referência de futebol ofensivo. O Brentford manteve o mesmo técnico por quase uma década antes de chegar à Premier League.
O problema não é brasileiro no sentido cultural pejorativo que todo mundo adoraria usar aqui. É estrutural. É financeiro. É de governança.
Dirigentes sem prestação de contas
Vamos combinar: a pressão que um presidente de clube brasileiro sofre é real. Torcida na porta. Redes sociais. Patrocinadores ameaçando sair. A janela de tolerância é estreita e a exposição é enorme. Não estou ignorando esse contexto.
Mas existe uma diferença fundamental entre pressão e má gestão. Pressão é uma variável do ambiente. Má gestão é uma escolha. E contratar um técnico sem projeto definido, sem janela mínima de trabalho garantida, sem alinhamento real com o elenco disponível, isso é má gestão. Ponto.
O curioso é que os dirigentes que mais demitem são os que mais falam em projeto. Projeto de longo prazo. Projeto vencedor. Projeto de clube. Mas projeto pressupõe continuidade, e continuidade pressupõe tolerância ao processo. O que a maioria dos clubes brasileiros tem é o oposto: intolerância ao processo, adoração ao resultado imediato, e nenhuma responsabilidade dos decisores quando o resultado não vem.
A zona de rebaixamento que o xG já apontava
Aqui está o dado mais incômodo de tudo isso: boa parte dos times que trocaram de técnico nas primeiras rodadas já tinha indicadores ruins antes mesmo das demissões. O xG da zona de rebaixamento em 2026 mostrava fragilidade estrutural de elenco em vários desses clubes desde a primeira jornada. Não era problema de técnico. Era problema de planejamento.
Mas admitir problema de planejamento exige admitir que quem planejou errou. E aí a conversa fica incômoda. Então demite o técnico. Resolve a pressão imediata. Transfere a culpa. Segue em frente.
A conta vai chegar
O Brasileirão 2026 vai terminar com um campeão. Provavelmente um dos três ou quatro clubes que têm elenco e orçamento muito superiores ao restante. A hegemonia não vai mudar por causa de dez demissões de técnico.
O que vai mudar, e já está mudando, é a qualidade média do futebol brasileiro. Quando um treinador não tem tempo de trabalhar os fundamentos táticos, o nível técnico do campeonato cai. Quando o vestiário fica em constante reconstrução, os jogadores jovens não se desenvolvem. Quando o clube não tem identidade, não vende jogadores bem, não atrai investimento, não cresce.
É simples. Todo mundo sabe disso. Mas a solução exige que os dirigentes abram mão do bode expiatório mais conveniente que o futebol brasileiro criou: o técnico.
Enquanto isso não acontecer, a média de um técnico demitido por rodada vai se manter. E o futebol brasileiro vai continuar fingindo que o problema está na beira do campo.