Opinião 2026-04-06 4 min de leitura

Palmeiras e Flamengo. Os outros dezoito disputam o bronze

Marina Costa
Jornalista Esportiva

Desde 2019, Palmeiras e Flamengo venceram cinco dos sete Brasileirões. O Palmeiras briga pelo 13º título nacional. O Flamengo tem oito. Os outros dezoito clubes da Série A disputam, na prática, o terceiro lugar.

Isso tem nome. No futebol europeu, chama de espanholização. Na Espanha dos anos 2000 e 2010, Real Madrid e Barcelona ganharam tantos títulos consecutivos que a La Liga perdeu competitividade real. A pergunta que os espanhóis levaram anos para fazer em voz alta é a mesma que o Brasil ainda evita: quando um campeonato é jogado, mas o resultado já é esperado, ele ainda é um campeonato?

Os números que ninguém quer colocar na mesma frase

Sete Brasileirões entre 2019 e 2025. Palmeiras venceu quatro. Flamengo venceu três. Juntos: 100% dos títulos. Os outros 36 clubes que participaram do campeonato nesse período somam zero títulos nacionais no período.

Para encontrar precedente parecido no futebol brasileiro, é preciso voltar aos anos 1960, quando Santos e Palmeiras dominaram dez dos quatorze torneios nacionais entre 1959 e 1970. Aquele ciclo tinha uma justificativa esportiva clara: Pelé. O que explica o ciclo atual não é um gênio individual. É orçamento.

A folha salarial do São Paulo, o terceiro maior gasto da Série A, é de R$37,5 milhões por mês. A do Flamengo é de R$29 milhões. A do Palmeiras, com estrutura de clube-empresa e aporte do Crefisa, opera em patamar diferente do restante. Na outra ponta, times recém-promovidos trabalham com frações disso.

Quando a diferença orçamentária é dessa magnitude, o campeonato não é disputado entre vinte iguais. É disputado em ligas paralelas que acontecem no mesmo torneio.

O problema que a torcida não quer ver

Torcedor do Palmeiras e torcedor do Flamengo amam essa hegemonia. É compreensível. Ganhar é melhor que perder. Dominar é melhor que disputar.

Mas existe um efeito colateral que impacta todos, inclusive os torcedores dos dois clubes dominantes: a desvalorização do próprio título.

Quando um Brasileirão começa e metade do país assume que vai ser Palmeiras ou Flamengo, a tensão narrativa do campeonato despenca. O interesse médio de clubes menores na competição cai porque a torcida sabe que está jogando para não cair ou para garantir uma vaga na Libertadores, não para ganhar. O produto televisivo fica menos imprevisível. E imprevisibilidade é o ativo central do esporte como entretenimento.

A Premier League é o campeonato mais assistido do mundo não porque tem os melhores jogadores. Tem. Mas o que diferencia é que qualquer dos seis, sete grandes pode ganhar numa temporada, e ocasionalmente um clube fora desse grupo aparece e complica. Isso cria narrativa. Cria engajamento. Cria audiência.

O Brasileirão perdeu parte disso.

A concentração que se retroalimenta

O problema não é só que Palmeiras e Flamengo são grandes. É que o sistema atual garante que continuem crescendo mais rápido que os demais.

Clube grande ganha Libertadores. Libertadores traz receita de participação e prêmios em dólar. Receita maior permite contratar melhor. Contratar melhor aumenta chance de ganhar Brasileirão. Brasileirão garante vaga na próxima Libertadores. O ciclo se fecha e se amplifica.

Enquanto isso, clube médio que não passa das fases iniciais da Libertadores recebe valor menor de cotas de TV, não tem receita internacional, luta para manter elenco competitivo, e volta para o ano seguinte em posição relativa pior que o anterior.

Esse não é um fenômeno natural do futebol. É resultado de escolhas estruturais sobre como distribuir receitas, como organizar competições, como definir cotas de televisão. Na Alemanha, a distribuição de direitos de TV na Bundesliga é mais igualitária por decisão da liga. O resultado é que o Bayern domina, mas times como Dortmund, Leipzig e Leverkusen competem de verdade pelo título em anos alternados.

No Brasil, a distribuição favorece quem já é grande. E quem já é grande fica maior.

O que os dados do campeonato confirmam

O portal já mostrou como a invencibilidade no Brasileirão 2026 está concentrada nos clubes de maior orçamento. E como o xG já condena parte da zona de rebaixamento desde as primeiras rodadas. Esses dados não são coincidência. São reflexo de disparidade estrutural que antecede o apito inicial.

Um campeonato equilibrado tem zonas de imprevisibilidade. Tem clube pequeno que surpreende o grande em casa. Tem temporada onde o favorito tropeça e o improvável acontece. Esses momentos existem no Brasileirão, mas são cada vez mais exceções dentro de uma narrativa cujo final já é mais previsível do que deveria ser.

O que seria diferente com vontade política

A CBF poderia implementar mecanismos de redistribuição de receita. Poderia criar fundo de equalização para clubes que investem em base. Poderia negociar cotas de TV com critério menos favorável aos maiores. Poderia limitar folha salarial como o salary cap que existe no futebol americano, no basquete e em outras ligas que prezam por equilíbrio competitivo.

Não vai fazer nenhuma disso, porque os clubes que têm poder dentro da CBF são exatamente os que se beneficiam do sistema atual.

A verdade é que o Brasileirão tem um problema de competitividade que vai se aprofundar nos próximos anos se nada mudar. Não porque Palmeiras e Flamengo jogam mal. Jogam muito bem. Mas porque um campeonato cujo resultado é previsível antes de começar não é competição. É ritual de confirmação.

E ritual de confirmação não sustenta interesse de longo prazo. Sustenta por enquanto porque o Brasil ama futebol com uma intensidade que compensa muita coisa. Mas sustenta por quanto tempo?

Marina Costa Jornalista Esportiva

Marina Costa tem 38 anos e é carioca do Méier. Formada em Jornalismo pela UERJ, começou cobrindo esporte em 2010 no Lance!, onde ficou por 5 anos na editoria de futebol nacional. Passou pela ESPN Bras... Ler perfil completo

Leia tambem

200 artigos. O futebol que o Brasil merece e não tem

Marina Costa | 5 min

Demitir é fácil. Planejar, não. O carrossel que o Brasil não para

Marina Costa | 5 min

O comentarista virou personagem. A análise ficou pelo caminho

Marina Costa | 4 min