O Bola de Ouro feminino existe desde 2018. Em oito edições, nenhuma jogadora brasileira venceu. Nenhuma ficou entre as três finalistas em quatro das últimas cinco edições.
O Brasil tem Marta. Tem Ary Borges. Tem Kerolin. Tem Adriana. Tem um dos elencos mais talentosos do futebol feminino mundial.
E não ganha o prêmio mais importante da modalidade há oito anos seguidos.
A pergunta que ninguém quer fazer: isso é injustiça dos eleitores ou é reflexo de algo real?
Como o Bola de Ouro feminino é votado
O prêmio da France Football é votado por jornalistas especializados de todo o mundo. Os critérios incluem desempenho individual, títulos conquistados, impacto na competição e consistência ao longo da temporada.
O problema para o futebol brasileiro começa aí: títulos conquistados. Jogadoras que atuam em ligas de maior prestígio, com mais visibilidade internacional e com mais cobertura jornalística nos países eleitores, têm vantagem estrutural no processo de votação.
Ary Borges joga no Chelsea. Kerolin estava no North Carolina Courage, agora no Manchester City. Adriana passou pelo Corinthians e hoje está no exterior. As brasileiras que poderiam concorrer ao prêmio construíram suas temporadas mais relevantes em ligas estrangeiras, não no Brasil.
O paradoxo é preciso: para ser reconhecida pelo Bola de Ouro, a jogadora brasileira precisa sair do Brasil. E quando sai, o futebol brasileiro perde a chance de ser o palco que projeta essa conquista.
O que Alexia Putellas tem que as brasileiras não têm
Alexia Putellas venceu o Bola de Ouro feminino em 2021 e 2022. Jogava pelo Barcelona. O Barcelona feminino é o clube mais assistido do futebol feminino mundial, com médias de público superiores a 40 mil torcedores em jogos importantes. A cobertura jornalística espanhola do futebol feminino é robusta. Os eleitores espanhóis e europeus que votam no prêmio conhecem Alexia de ver jogar toda semana.
Ary Borges jogou no Palmeiras antes de ir ao exterior. Quantos jornalistas internacionais eleitores do Bola de Ouro assistiram ao Campeonato Brasileiro Feminino em 2022? Quantos têm acesso fácil aos jogos, às estatísticas, ao contexto?
Visibilidade não é o único critério. Mas é um critério real, e o futebol feminino brasileiro não investe em visibilidade internacional da mesma forma que os clubes europeus investem.
Marta e o prêmio que escapou
Marta venceu o Bola de Ouro feminino seis vezes consecutivas entre 2006 e 2010, e novamente em 2018. É a jogadora mais premiada da história. Mas em 2018, quando o prêmio foi reformulado no formato atual, Marta tinha 32 anos e estava no início do declínio físico que vem com a idade.
A geração que deveria sucedê-la no prêmio, Ary Borges, Kerolin, Geyse, Adriana, nunca convergiu ao mesmo tempo em um clube europeu de elite com estrutura para projetá-las internacionalmente. São talentos dispersos em times diferentes, sem o respaldo institucional que o Barcelona deu a Alexia ou que o Lyon deu a Ada Hegerberg.
Não é falta de talento. É falta de ecossistema.
O que o Corinthians fez certo e ainda não foi suficiente
O Corinthians feminino é o clube de futebol feminino mais popular do Brasil. Médias de público acima de 30 mil. Conquistas nacionais consecutivas. Participação na Libertadores Feminina com resultados expressivos.
Mas o Corinthians ainda opera com orçamento que é fração do que os grandes clubes europeus destinam ao feminino. As melhores jogadoras que passam pelo Timão saem para a Europa antes de atingir o pico. O ciclo é o mesmo do futebol masculino: revelar, desenvolver até certo ponto, perder para o mercado externo.
Enquanto o futebol feminino não tiver a estrutura para reter talentos até o auge, o Brasil continuará exportando jogadoras que vencerão prêmios vestindo a camisa de clubes europeus.
A cobertura que não existe
Aqui está um dado simples: quantas reportagens sobre futebol feminino brasileiro foram publicadas em veículos internacionais especializados em 2025? Compare com quantas foram publicadas sobre o Barcelona feminino, o Chelsea feminino, o Lyon.
A cobertura internacional é escassa não porque as jogadoras brasileiras sejam menos interessantes. É porque o produto, as ligas, os clubes, os jogos, não tem a infraestrutura de comunicação e distribuição que tornaria essa cobertura natural.
Jornalistas que votam no Bola de Ouro votam no que conhecem. E o futebol feminino brasileiro ainda não construiu os canais para ser conhecido.
O que mudaria o cenário
Um clube brasileiro feminino com estrutura de elite europeia, orçamento, instalações, contrato de TV com distribuição internacional, poderia reter jogadoras até o pico e projetá-las para o prêmio. Não é sonho impossível. É o modelo que o Barcelona provou funcionar.
Enquanto isso não acontece, o Brasil vai continuar vendo suas jogadoras vencerem o Bola de Ouro com a camisa de outro clube, de outro país, em outra liga.
E vai continuar chamando isso de reconhecimento do talento brasileiro. Como se o talento existisse no vácuo, independente do sistema que o formou e abandonou antes da hora.
O futebol brasileiro tem padrão de tratar sintomas como se fossem causas. Com o Bola de Ouro feminino não é diferente. A ausência no pódio não é o problema. É o reflexo de um problema que ninguém quer resolver.