Futebol Feminino 2026-04-06 4 min de leitura

O futebol feminino tem público. Falta estrutura para não perder

Marina Costa
Jornalista Esportiva

O Corinthians Feminino jogou em frente a 39 mil pessoas em 2024. A final da Libertadores Feminina no Maracanã esgotou em horas. A Seleção Brasileira feminina arrasta multidões onde quer que jogue. O futebol feminino no Brasil tem público.

O que não tem é estrutura para não desperdiçar esse público.

O problema não é audiência

Todo mundo sabe que o futebol feminino brasileiro cresceu. Os números são reais e impressionantes para quem lembra que, até 2019, a maioria dos clubes da Série A sequer tinha time feminino por obrigação. Hoje têm. Mas "ter" e "investir" são verbos diferentes.

Pesquisa da Confederação Brasileira de Futebol publicada em 2025 mostrou que apenas 11 dos 32 clubes que mantêm times femininos na elite nacional têm estrutura dedicada exclusivamente à modalidade. Os demais dividem vestiário, campo de treinamento e departamento médico com o time masculino. Em escala de prioridades, o feminino entra depois que o masculino termina.

Isso não é preconceito declarado. É preconceito orçamentário, que é mais difícil de combater porque ninguém assina embaixo.

Salários que não sustentam carreira

A média salarial de uma jogadora profissional na elite do futebol feminino brasileiro é de R$ 3.200 mensais. Para as atletas do topo, que jogam em Corinthians, Ferroviária e São Paulo, os salários chegam a R$ 8 mil ou R$ 12 mil. Para a maioria, fica abaixo do salário de um técnico de informática júnior.

O resultado é previsível: as melhores jogadoras brasileiras deixam o país antes de chegar ao auge. Adriana saiu. Marta passou décadas na Suécia. Debinha foi para os Estados Unidos. Ary Borges assinou com o Chelsea antes de completar 22 anos.

O Brasil exporta talento feminino pelo mesmo motivo que exporta talento masculino: porque não consegue pagar o que o mercado externo paga. Mas no feminino o problema é mais grave, porque o mercado interno sequer tentou competir.

Onde está o dinheiro das SAFs

As 122 SAFs no Brasil prometeram profissionalizar o futebol nacional. Algumas cumpriram no masculino. Nenhuma transformou estruturalmente o feminino.

Quando os fundos de investimento entraram em Botafogo, Cruzeiro e Vasco, a conversa foi sobre dívidas, reforços e gestão do time principal. O feminino não entrou na equação. Não porque seja irrelevante. Porque ninguém perguntou.

A profissionalização que as SAFs trouxeram é real mas seletiva. Serve ao produto que já tem retorno imediato. O futebol feminino, que ainda está construindo sua base de receita, ficou de fora da rodada de investimento mais importante do futebol brasileiro na última década.

O paradoxo do público que existe e não é atendido

Aqui está a contradição que mais incomoda: o público está lá. Não é necessário convencer ninguém de que as pessoas querem assistir futebol feminino de qualidade. As arquibancadas mostraram isso.

O problema é que esse público aparece para jogos grandes, finais, clássicos. A infraestrutura que transformaria esse interesse espontâneo em hábito semanal não existe. Não há calendário consistente. Os jogos mudam de horário sem aviso. A transmissão é irregular. O material de comunicação dos times femininos recebe menos atenção nas redes dos próprios clubes do que o sub-17 masculino.

O torcedor que quer acompanhar o feminino precisa se esforçar para encontrar informação básica. Horário do jogo. Local. Canal de transmissão. Em 2026, isso ainda é problema.

O que Marta disse que ninguém ouviu

Em sua despedida da Seleção Brasileira, Marta não elogiou a evolução do futebol feminino no Brasil. Disse que as meninas que viriam depois dela teriam que "chorar menos e lutar mais". Foi lida como motivação. Era diagnóstico.

A maior jogadora da história do futebol feminino mundial passou a maior parte da carreira fora do Brasil. Não por falta de amor ao país. Por falta de condições para jogar aqui com a dignidade que o talento dela exigia. Se Marta não conseguiu ficar, o que esperar das que vêm depois com menos visibilidade e menos poder de negociação?

O que precisaria mudar amanhã

Não é uma lista longa. É uma lista cara, que é diferente.

Primeiro: salário mínimo para atletas profissionais femininas, com piso definido em convenção coletiva real, não no papel. Segundo: obrigatoriedade de estrutura separada para o time feminino como condição de licenciamento de clube na Série A. Terceiro: cotas de transmissão nos contratos de TV, se um clube quer o dinheiro do pacote, transmite no mínimo X jogos do feminino por temporada.

Nenhuma dessas medidas depende de aprovação da torcida. Dependem de vontade da CBF e das diretorias. E as diretorias estão preocupadas com outras coisas.

A janela não fica aberta para sempre

O futebol feminino brasileiro está em um momento raro: tem crescimento de público, tem atletas de nível mundial e tem visibilidade internacional construída pela Seleção. Essa combinação não aparece duas vezes.

Se os clubes e a CBF não aproveitarem agora para construir a infraestrutura que vai sustentar esse crescimento, o público vai embora. Não porque perdeu o interesse. Mas porque não foi tratado com o mínimo de seriedade que qualquer produto precisa para virar hábito.

O Brasil tem o que precisa para ter o melhor futebol feminino do mundo. Falta decidir se quer.

Marina Costa Jornalista Esportiva

Marina Costa tem 38 anos e é carioca do Méier. Formada em Jornalismo pela UERJ, começou cobrindo esporte em 2010 no Lance!, onde ficou por 5 anos na editoria de futebol nacional. Passou pela ESPN Bras... Ler perfil completo

Leia tambem

2027 é aqui. A seleção feminina ainda não sabe o que é

Marina Costa | 5 min

Oito anos sem Bola de Ouro feminino. O Brasil sabe por quê?

Marina Costa | 4 min

58 milhões de fãs. Os clubes continuam fechando as portas

Marina Costa | 5 min