O Brasil vai sediar a Copa do Mundo Feminina de 2027. É a maior competição de futebol feminino do planeta. E a seleção brasileira não sabe qual é o seu estilo de jogo.
Faltam quinze meses. O relógio está correndo. Ninguém parece ter pressa.
O problema não é talento
Marta tem 38 anos e ainda joga. Isso deveria ser uma anomalia, um sinal de que a geração que veio depois não chegou no nível esperado. Em vez disso, virou homenagem permanente. A dificuldade de substituir Marta é real, mas ela não explica tudo. A seleção feminina tem jogadoras de alto nível em ligas europeias, incluindo Barcelona, Chelsea e grandes clubes espanhóis. O problema não é o talento disponível.
O problema é o que se faz com ele.
Nos últimos quatro anos, a CBF trocou de treinadora duas vezes na seleção feminina principal. Cada mudança trouxe uma proposta tática diferente, uma identidade diferente, uma forma diferente de usar as mesmas jogadoras. Resultado: as atletas chegam à convocação sem saber exatamente qual vai ser o sistema, quais são as funções, o que o técnico vai pedir.
É impossível construir coletivo assim.
A estrutura que não veio
Em 2019, o Brasil sediou a Copa América Feminina e conquistou o título. Foi uma vitrine. Houve entusiasmo. Patrocinadores apareceram. A CBF fez anúncios sobre investimento no futebol feminino.
Em 2023, apenas quatro clubes brasileiros tinham equipes femininas com estrutura profissional completa: salário acima do piso, comissão técnica dedicada, espaço de treinamento separado do masculino, suporte médico específico. Quatro, num país de 210 milhões de pessoas.
O futebol feminino tem público no Brasil. Isso foi demonstrado. A questão sempre foi estrutura, e a estrutura não veio na velocidade que o momento exigia. Enquanto os Estados Unidos, Espanha e Alemanha construíram ligas com transmissão nacional, patrocínio consolidado e salários competitivos, o Brasil ficou dependendo de cinco ou seis clubes grandes que tratam o feminino como projeto secundário.
O que a Copa em casa exige
Sediar a Copa do Mundo não é vantagem automática. Pode ser armadilha.
A pressão de jogar em casa com público apaixonado pode paralisar uma equipe que não tem base sólida. A Argentina em 1978 ganhou com apoio total. O Brasil masculino em 2014 perdeu de 7 a 1 com o mesmo apoio. A diferença não foi o público. Foi a preparação.
Uma seleção que vai jogar Copa em casa precisa de três coisas que levam tempo para construir: identidade tática clara, coletivo rodado e capacidade de lidar com pressão. As três se desenvolvem com estabilidade técnica e competições frequentes. Nenhuma das duas existe em abundância no futebol feminino brasileiro.
O Campeonato Brasileiro Feminino tem calendário irregular. As datas FIFA para seleções femininas são menos do que as masculinas. As convocações chegam com janelas curtas. As jogadoras que atuam no exterior passam mais tempo com seus clubes do que com a seleção. Isso não é culpa das atletas. É estrutura.
O modelo que funciona
A Espanha não virou campeã mundial em 2023 do nada. Foi o produto de dez anos de investimento nas categorias de base femininas, de uma liga profissional com transmissão paga, de salários que tornaram possível para jogadoras talentosas ficarem no país em vez de emigrar.
Os Estados Unidos dominaram o futebol feminino por três décadas porque a NWSL existe há mais de vinte anos, porque Title IX garantiu igualdade no esporte universitário, porque há uma cultura de investimento real, não de tolerância condescendente.
O Brasil tem o talento bruto. Não tem o sistema.
Oito anos sem Bola de Ouro feminino não aconteceram por acidente. Aconteceram porque o sistema que produz jogadoras de nível mundial foi construído de forma improvisada, sem continuidade, sem política de Estado.
O que ainda pode ser feito
Quinze meses é pouco para construir o que deveria ter sido construído em dez anos. Mas não é nada.
A seleção precisa de sequência de jogos, e precisa dela agora. Não amistosos de preparação com adversários de segunda linha. Competições reais, com pressão real, contra seleções do nível que vai aparecer na Copa. A CBF tem a obrigação de garantir isso no calendário de 2026 e início de 2027.
Precisa de estabilidade técnica. Trocar de treinadora agora seria um erro caro. A comissão técnica que vai para a Copa precisa ser a mesma que está trabalhando hoje, com as mesmas jogadoras, construindo o mesmo sistema.
Precisa de comunicação clara com os clubes europeus. As jogadoras precisam de liberação adequada para os períodos de preparação. Isso requer negociação, não imposição. Requer que a CBF trate o feminino com a mesma seriedade que trata o masculino nas negociações internacionais.
A vitrine e o espelho
A Copa de 2027 vai acontecer. Os estádios vão estar cheios. O Brasil vai receber o mundo com samba, cores e entusiasmo genuíno. Isso é certo.
O que não está certo é o que vai acontecer dentro de campo. Uma seleção sem identidade, sem coletivo construído, sem base estrutural, jogando em casa com pressão máxima, pode colapsar exatamente como o masculino em 2014.
A diferença é que dessa vez não teremos Marta para ser o símbolo de resistência. Ela vai estar lá, provavelmente, mas aos 39 anos, num papel diferente. A Copa precisa ser de um coletivo, não de uma herança.
O Brasil tem quinze meses. O relógio está correndo. A pergunta não é se vai sediar bem. É se vai competir de verdade.
Essa resposta ainda não existe.