O VAR chegou ao futebol brasileiro em 2019. Sete anos depois, o Brasileirão 2026 ainda pausa partidas por três minutos para confirmar decisões que qualquer torcedor na arquibancada já sabia que eram erradas. O problema não é tecnológico. Nunca foi.
O problema é que o VAR foi adotado sem que ninguém reformasse o árbitro que o opera.
O que o VAR deveria ser
A promessa era simples: eliminar os erros grosseiros. Gol irregular, pênalti óbvio perdido, cartão vermelho dado ao jogador errado. Situações onde o árbitro de campo não tinha ângulo e o VAR tinha. Intervenção cirúrgica. Rápida. Objetiva.
O que o Brasileirão 2026 entregou foi diferente. Lances subjetivos revisados por árbitros com os mesmos vieses de sempre, operando em silos de informação que a CBF se recusa a abrir ao público. Demora média de dois minutos e quarenta segundos por revisão. Em alguns jogos, quatro revisões em uma única partida.
O jogo parou. A decisão continuou errada. A única diferença é que agora levou mais tempo para chegar ao mesmo resultado equivocado.
Transparência zero
No futebol inglês, a Premier League publica relatórios semanais com cada lance revisado pelo VAR, a justificativa do árbitro e a avaliação posterior da arbitragem. No futebol espanhol, o áudio da comunicação entre árbitro de campo e árbitro de vídeo é divulgado após cada jogo.
No Brasil? A CBF paga árbitros com contratos que os silenciam. Não existe publicação de critérios. Não existe protocolo público para quando o VAR deve ou não intervir. Não existe revisão aberta dos erros.
O árbitro erra. A CBF emite nota dizendo que o caso "será analisado internamente". A análise nunca é publicada. O árbitro que errou apita o jogo seguinte. O ciclo fecha.
O viés que o VAR não corrige
Existe um problema mais profundo que nenhum equipamento resolve: a subjetividade do árbitro que opera o sistema.
Pênalti, por exemplo. A regra diz "toque na mão em posição antinatura". O que é antinatura? A FIFA tem uma definição. Os árbitros brasileiros têm outra. E dentro do próprio quadro de árbitros nacionais, há pelo menos três interpretações diferentes em circulação simultânea.
O VAR não unifica critérios. O VAR amplia a imagem do lance e entrega para um árbitro com os mesmos critérios desunificados de sempre. A tecnologia é neutra. Quem a interpreta não é.
Em 2025, um estudo conduzido pela Universidade de São Paulo analisou 312 lances revisados pelo VAR no Brasileirão e encontrou que 41% das revisões que resultaram em mudança de decisão eram lances onde a decisão original também poderia ser considerada correta dentro dos critérios vigentes. Em outras palavras: o VAR não eliminou a margem de erro. Apenas transferiu a polêmica para dentro da sala de revisão.
O árbitro como instituição intocável
Aqui está o problema real: no futebol brasileiro, o árbitro nunca foi tratado como um profissional sujeito a métricas de performance.
Médico que erra opera, dependendo da gravidade, perde o registro. Engenheiro que projeta estrutura que cai responde legalmente. Jornalista que publica informação falsa é desmentido publicamente. Árbitro que erra no Brasileirão apita na Libertadores na semana seguinte.
Não existe ranking público de qualidade de arbitragem no Brasil. Não existe critério transparente de promoção e rebaixamento dentro do quadro. Não existe punição proporcional ao erro. A única saída do sistema é a aposentadoria.
O treinador cai quando o resultado é ruim. O árbitro que produziu o resultado ruim não cai nunca. A assimetria é absurda.
O que os clubes poderiam fazer e não fazem
Os clubes brasileiros têm poder coletivo para mudar isso. São eles que pagam a CBF, via taxa de filiação e cessão de direitos. São eles que negociam os contratos de transmissão que financiam o futebol nacional.
Poderiam exigir protocolos públicos de VAR. Poderiam contratar árbitros internacionais para temporadas inteiras, como fazem alguns campeonatos europeus em período de crise. Poderiam criar uma câmara independente de análise de arbitragem, fora do controle da CBF.
Não fazem nenhum disso. Porque os presidentes de clube que mais reclamam da arbitragem hoje são os mesmos que votaram para eleger a diretoria da CBF que nomeia os árbitros. O sistema se sustenta na cumplicidade de todos que deveriam quebrá-lo.
A pergunta que o VAR não responde
O VAR custa dinheiro. Equipamento, estrutura, treinamento, pessoal. A CBF não divulga o custo anual do sistema. Nenhum relatório público. Nenhuma prestação de contas.
Sete anos depois da implantação, o balanço honesto é: o VAR eliminou alguns erros grosseiros, criou novos erros de interpretação, aumentou o tempo médio de jogo em quatorze minutos por partida e não alterou a percepção pública de que a arbitragem brasileira é inconsistente.
A tecnologia funcionou. O entorno não mudou. E enquanto o entorno não mudar, o VAR vai continuar sendo o que é hoje: um espelho de alta definição apontado para um sistema que não quer se ver.