Opinião 2026-04-06 5 min de leitura

O VAR não resolveu. Só mudou quem erra

Marina Costa
Jornalista Esportiva

O VAR chegou ao futebol brasileiro com uma promessa: acabar com os erros grosseiros de arbitragem. Gols claramente ilegais validados, impedimentos milimétricos ignorados, pênaltis inventados. A tecnologia ia resolver.

Estamos em 2026 e os clubes continuam indo à CBF reclamar de gols anulados. A CBF continua divulgando áudios do VAR para explicar decisões que ninguém entendeu. Os treinadores continuam detonando a arbitragem na coletiva. E os torcedores continuam sem saber se o gol que viram entrar vai ser validado ou não.

O VAR não resolveu o problema. Só mudou quem erra.

Os casos que ninguém consegue explicar

No jogo entre Fluminense e Coritiba, Serna marcou. A arbitragem em campo validou. O VAR foi rever. O árbitro foi ao monitor. E anulou por falta de Castillo em Gómez num lance que gerou representação formal do Fluminense na CBF. O clube foi ao órgão máximo do futebol brasileiro pedir explicação sobre uma decisão tomada com tecnologia disponível, câmeras em múltiplos ângulos, e árbitro especialista olhando na tela.

No Santos contra o Cruzeiro, gol de Barreal anulado nos acréscimos por impedimento. Neymar foi às redes: Esse impedimento não existe. A CBF divulgou o áudio do VAR. A reclamação continuou.

Não são casos isolados. São o padrão do Brasileirão 2026. E o que eles têm em comum é revelador: em todos eles, o VAR foi acionado, revisão foi feita, e a decisão final ainda gerou contestação de resultado técnico, não de opinião subjetiva.

A ilusão da objetividade

A premissa do VAR é que a tecnologia traz objetividade para decisões subjetivas. E em alguns casos ela funciona: gol com mão claramente visível, impedimento de um metro, pênalti com contato inequívoco. Nesses lances, o VAR é indiscutível.

O problema é que a maioria das disputas de arbitragem no futebol não é sobre fatos objetivos. É sobre interpretação. Falta ou disputa de bola? Toque no braço em posição natural ou impedimento de goleiro? Contato que gerou queda ou simulação? Essas perguntas não têm resposta na câmera. Têm resposta na interpretação de quem assiste.

E aí o VAR virou um árbitro adicional com os mesmos problemas do árbitro de campo, mais uma camada de burocracia que atrasa o jogo, mais um processo de revisão que cria expectativa e depois decepciona metade das pessoas envolvidas.

A diferença é que antes o erro era do árbitro no campo, que via o lance em tempo real com pressão de estádio. Agora o erro é do árbitro na sala, que teve câmeras em dez ângulos, replay em câmera lenta, e ainda assim chegou a uma conclusão que o clube vai contestar formalmente.

Isso não é avanço. É a mesma falha com mais justificativa.

O problema é de critério, não de tecnologia

O futebol europeu usa o mesmo VAR. A Premier League, a Champions League, a Bundesliga. E as reclamações existem lá também. Mas existe uma diferença fundamental na forma como o sistema opera.

Na Europa, o critério de intervenção do VAR é mais restrito. A instrução é: intervir apenas em erros claros e óbvios. Se há margem para interpretação, a decisão em campo prevalece. O VAR não é pra revisar todo lance contestável. É pra corrigir o inequivocamente errado.

No Brasil, o critério virou mais amplo na prática. O VAR é acionado com mais frequência, para lances que não são claros, e aí a revisão na tela vira uma nova arena de interpretação. O resultado é que o jogo para mais, a decisão demora mais, e o nível de contestação não caiu. Às vezes aumentou, porque agora há mais etapas no processo de decisão.

A CBF que explica e não convence

A CBF adotou a política de divulgar áudios do VAR após lances polêmicos. A intenção é transparência. O efeito, na maioria das vezes, é o oposto.

Quando o áudio é divulgado e mostra os árbitros discutindo um lance ambíguo, sem consenso claro entre eles, a torcida não sai com a impressão de que o sistema funciona. Sai com a confirmação de que a decisão foi arbitrária. Que poderia ter sido diferente se um dos árbitros tivesse falado mais alto ou tivesse chegado uma câmera de outro ângulo.

Transparência sem critério claro não gera confiança. Gera mais dúvida.

O portal já documentou como decisões em momentos específicos do jogo mudam completamente o resultado. Um gol anulado nos acréscimos não é igual a um gol anulado no início. O peso da decisão é diferente, a pressão sobre o árbitro é diferente, e a percepção de injustiça é proporcional ao momento em que o erro ocorre.

O que precisa mudar

Três coisas concretas, sem romantismo.

Primeiro: critério de intervenção mais restrito e publicado. A CBF precisa definir, por escrito e com exemplos, em quais tipos de lance o VAR intervém. E seguir esse critério com consistência. Hoje o sistema parece operar por feeling, e feeling não é critério.

Segundo: tempo máximo de revisão. Se o VAR não chegou a uma conclusão em dois minutos, a decisão em campo prevalece. Revisões longas não melhoram a qualidade da decisão. Só aumentam a ansiedade e a percepção de arbitrariedade.

Terceiro: comunicação direta com o estádio durante a revisão. Os árbitros que explicam em tempo real o que estão revisando e por quê existem em alguns países. No Brasil, o estádio fica no escuro durante a revisão, o que amplia a sensação de que a decisão está sendo tomada em segredo.

Nada disso é solução definitiva. O futebol vai continuar tendo lances interpretáveis e decisões contestadas. Mas existe uma diferença entre contestar porque o sistema é opaco e contestar porque o critério é genuinamente difícil.

Hoje, no Brasileirão 2026, os clubes contestam porque o mesmo problema de gestão que aparece nos bastidores aparece também na arbitragem: responsabilidade difusa, critério vago, e prestação de contas insuficiente.

O VAR era pra ser a solução. Virou mais um personagem do problema.

Marina Costa Jornalista Esportiva

Marina Costa tem 38 anos e é carioca do Méier. Formada em Jornalismo pela UERJ, começou cobrindo esporte em 2010 no Lance!, onde ficou por 5 anos na editoria de futebol nacional. Passou pela ESPN Bras... Ler perfil completo

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