10 treinadores em 10 rodadas: o que o Brasileirão 2026 pune
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Leitura Tatica 2026-04-06 5 min de leitura

10 treinadores em 10 rodadas: o que o Brasileirão 2026 pune

Rafael Teixeira
Jornalista Esportivo

Dez rodadas. Dez treinadores demitidos. Uma média que nenhuma outra liga relevante do futebol mundial sustentaria por mais de três semanas sem discussão sobre o modelo de gestão esportiva.

O Brasileirão 2026 chegou ao recorde de um técnico dispensado por rodada nas primeiras dez semanas. A lista inclui Jorge Sampaoli, Fernando Diniz, Filipe Luís, Tite, Dorival Júnior e mais cinco nomes. Três deles comandaram a seleção brasileira em ciclos recentes. Nenhum chegou à décima rodada no cargo.

A lista e o padrão

Os dez demitidos foram: Jorge Sampaoli (Atlético-MG), Fernando Diniz (Vasco), Juan Carlos Osorio (Remo), Filipe Luís (Flamengo), Hernán Crespo (São Paulo), Tite (Cruzeiro), Juan Pablo Vojvoda (Santos), Martín Anselmi (Botafogo), Gilmar Dal Pozzo (Chapecoense) e Dorival Júnior (Corinthians).

A leitura superficial aponta para clubes em crise, pressão da torcida e diretoria impaciente. A leitura tática aponta para algo mais específico: todos os treinadores que caíram estavam tentando implementar modelos de alta exigência técnica em elencos que não tinham massa crítica para sustentá-los.

O caso Sampaoli: pressing impossível

Jorge Sampaoli é um dos treinadores mais reconhecíveis do futebol sul-americano pelo pressing intenso e pela ocupação agressiva do campo adversário. No Atlético-MG, tentou aplicar um modelo de pressão alta organizada que exige alto nível aeróbico, tomadas de decisão rápida e cobertura imediata após perda.

O elenco atleticano não tinha a condição física para sustentar esse modelo por 90 minutos. Nas últimas faixas de tempo das partidas, o Atlético cedia espaços que o pressing alto havia criado no início. O resultado foi uma defesa exposta nos momentos em que o time mais precisava de solidez.

Sampaoli não errou o modelo. Errou o diagnóstico sobre o elenco disponível para executá-lo.

O caso Diniz: posse sem velocidade

Fernando Diniz construiu sua reputação sobre um futebol de toque rápido, triângulos no campo e circulação intensa. No Vasco, o modelo esbarra em um problema estrutural: o elenco não tem jogadores com a leitura posicional necessária para sustentar a posse de Diniz contra adversários que pressionam alto.

O Vasco de Diniz tinha posse, mas posse lenta, previsível e sem progressão. Não é o que o modelo propõe. É o que acontece quando o modelo é aplicado sem os jogadores que o tornam funcional. O campeonato pune elenco insuficiente independente da qualidade do treinador.

O caso Filipe Luís: erosão de um modelo construído

A demissão de Filipe Luís do Flamengo é diferente das outras. O treinador havia construído um modelo coerente e vitorioso em 2025. Em 2026, o mesmo modelo começou a apresentar falhas de execução, não de concepção. Leonardo Jardim chegou para consertar a defesa e reposicionar jogadores, e em cinco jogos só sofreu um gol. O diagnóstico estava correto. O modelo de Filipe Luís precisava de ajuste, não de substituição total.

A demissão de Filipe Luís revela outro padrão: clubes grandes não esperam ciclo de correção. Quando o modelo oscila, a solução preferida é a troca, não o ajuste.

O que o campeonato está punindo

Há três falhas táticas recorrentes entre os demitidos. A primeira é o modelo sem elenco: treinador com sistema exigente aplicado em elenco sem capacidade técnica ou física para executá-lo. Sampaoli no Atlético e Diniz no Vasco são os exemplos mais claros.

A segunda é a ausência de ajuste em tempo real. Treinadores que não conseguem ler o jogo e mudar no intervalo ou durante a partida pagam preço mais alto no Brasileirão do que em ligas europeias, porque os adversários são mais variados taticamente e exigem mais leitura situacional. Vojvoda no Santos e Anselmi no Botafogo se enquadram aqui.

A terceira é a transição de modelo sem tempo de trabalho. Tite chegou ao Cruzeiro com proposta de jogo diferente da que o elenco havia executado na temporada anterior. Sem pré-temporada completa e sem tempo de repetição dos exercícios, o modelo não se fixou antes que os resultados cobrassem.

O que os sobreviventes fizeram diferente

Abel Ferreira, Rogério Ceni e Leonardo Jardim chegaram à décima rodada no cargo. Os três têm algo em comum: aplicaram modelos compatíveis com os elencos disponíveis.

Abel tem o Palmeiras mais completo em termos de elenco e usa um 4-2-3-1 que equilibra posse e transição sem exigir sacrifício físico extremo. Ceni adaptou o 4-3-3 às características do Bahia, com volantes que chegam mas sem pressing de alta intensidade contínua. Roger Machado sobreviveu à pressão de três jogos sem vencer ajustando a formação no momento certo, sem insistir em um modelo que havia parado de funcionar.

O padrão dos sobreviventes não é ter o modelo mais sofisticado. É ter o modelo mais adequado ao elenco disponível, com capacidade de ajuste quando o adversário encontra a resposta.

Dez rodadas, dez demissões: o que vem a seguir

Com 28 rodadas restantes e dez elencos já no segundo ou terceiro treinador do ano, a tendência é que o número de demissões continue acima da média histórica. Times em crise de identidade tática, com treinadores interinos ou recém-contratados, tendem a oscilar entre sistemas até encontrar equilíbrio, o que demora rodadas.

O recorde histórico do Brasileirão nos pontos corridos com 20 clubes foi de 32 trocas de treinador em uma temporada, registrado em 2015. Com a média atual de uma demissão por rodada, o campeonato de 2026 está no ritmo para aproximar ou superar esse número.

O dado que resume tudo: em 2026, o Brasileirão está punindo a distância entre o modelo proposto e o elenco disponível para executá-lo. Nenhum currículo protege o treinador dessa equação. Nem os de quem comandou a seleção brasileira.

Rafael Teixeira Jornalista Esportivo

Rafael Teixeira tem 34 anos e nasceu em Goiânia. Formado em Educação Física pela UFG, trabalhou como analista de performance no Goiás EC entre 2018 e 2022, onde participou do acesso à Série A em 2018.... Ler perfil completo