Dez rodadas. Dez treinadores demitidos. Uma média que nenhuma outra liga relevante do futebol mundial sustentaria por mais de três semanas sem discussão sobre o modelo de gestão esportiva.
O Brasileirão 2026 chegou ao recorde de um técnico dispensado por rodada nas primeiras dez semanas. A lista inclui Jorge Sampaoli, Fernando Diniz, Filipe Luís, Tite, Dorival Júnior e mais cinco nomes. Três deles comandaram a seleção brasileira em ciclos recentes. Nenhum chegou à décima rodada no cargo.
A lista e o padrão
Os dez demitidos foram: Jorge Sampaoli (Atlético-MG), Fernando Diniz (Vasco), Juan Carlos Osorio (Remo), Filipe Luís (Flamengo), Hernán Crespo (São Paulo), Tite (Cruzeiro), Juan Pablo Vojvoda (Santos), Martín Anselmi (Botafogo), Gilmar Dal Pozzo (Chapecoense) e Dorival Júnior (Corinthians).
A leitura superficial aponta para clubes em crise, pressão da torcida e diretoria impaciente. A leitura tática aponta para algo mais específico: todos os treinadores que caíram estavam tentando implementar modelos de alta exigência técnica em elencos que não tinham massa crítica para sustentá-los.
O caso Sampaoli: pressing impossível
Jorge Sampaoli é um dos treinadores mais reconhecíveis do futebol sul-americano pelo pressing intenso e pela ocupação agressiva do campo adversário. No Atlético-MG, tentou aplicar um modelo de pressão alta organizada que exige alto nível aeróbico, tomadas de decisão rápida e cobertura imediata após perda.
O elenco atleticano não tinha a condição física para sustentar esse modelo por 90 minutos. Nas últimas faixas de tempo das partidas, o Atlético cedia espaços que o pressing alto havia criado no início. O resultado foi uma defesa exposta nos momentos em que o time mais precisava de solidez.
Sampaoli não errou o modelo. Errou o diagnóstico sobre o elenco disponível para executá-lo.
O caso Diniz: posse sem velocidade
Fernando Diniz construiu sua reputação sobre um futebol de toque rápido, triângulos no campo e circulação intensa. No Vasco, o modelo esbarra em um problema estrutural: o elenco não tem jogadores com a leitura posicional necessária para sustentar a posse de Diniz contra adversários que pressionam alto.
O Vasco de Diniz tinha posse, mas posse lenta, previsível e sem progressão. Não é o que o modelo propõe. É o que acontece quando o modelo é aplicado sem os jogadores que o tornam funcional. O campeonato pune elenco insuficiente independente da qualidade do treinador.
O caso Filipe Luís: erosão de um modelo construído
A demissão de Filipe Luís do Flamengo é diferente das outras. O treinador havia construído um modelo coerente e vitorioso em 2025. Em 2026, o mesmo modelo começou a apresentar falhas de execução, não de concepção. Leonardo Jardim chegou para consertar a defesa e reposicionar jogadores, e em cinco jogos só sofreu um gol. O diagnóstico estava correto. O modelo de Filipe Luís precisava de ajuste, não de substituição total.
A demissão de Filipe Luís revela outro padrão: clubes grandes não esperam ciclo de correção. Quando o modelo oscila, a solução preferida é a troca, não o ajuste.
O que o campeonato está punindo
Há três falhas táticas recorrentes entre os demitidos. A primeira é o modelo sem elenco: treinador com sistema exigente aplicado em elenco sem capacidade técnica ou física para executá-lo. Sampaoli no Atlético e Diniz no Vasco são os exemplos mais claros.
A segunda é a ausência de ajuste em tempo real. Treinadores que não conseguem ler o jogo e mudar no intervalo ou durante a partida pagam preço mais alto no Brasileirão do que em ligas europeias, porque os adversários são mais variados taticamente e exigem mais leitura situacional. Vojvoda no Santos e Anselmi no Botafogo se enquadram aqui.
A terceira é a transição de modelo sem tempo de trabalho. Tite chegou ao Cruzeiro com proposta de jogo diferente da que o elenco havia executado na temporada anterior. Sem pré-temporada completa e sem tempo de repetição dos exercícios, o modelo não se fixou antes que os resultados cobrassem.
O que os sobreviventes fizeram diferente
Abel Ferreira, Rogério Ceni e Leonardo Jardim chegaram à décima rodada no cargo. Os três têm algo em comum: aplicaram modelos compatíveis com os elencos disponíveis.
Abel tem o Palmeiras mais completo em termos de elenco e usa um 4-2-3-1 que equilibra posse e transição sem exigir sacrifício físico extremo. Ceni adaptou o 4-3-3 às características do Bahia, com volantes que chegam mas sem pressing de alta intensidade contínua. Roger Machado sobreviveu à pressão de três jogos sem vencer ajustando a formação no momento certo, sem insistir em um modelo que havia parado de funcionar.
O padrão dos sobreviventes não é ter o modelo mais sofisticado. É ter o modelo mais adequado ao elenco disponível, com capacidade de ajuste quando o adversário encontra a resposta.
Dez rodadas, dez demissões: o que vem a seguir
Com 28 rodadas restantes e dez elencos já no segundo ou terceiro treinador do ano, a tendência é que o número de demissões continue acima da média histórica. Times em crise de identidade tática, com treinadores interinos ou recém-contratados, tendem a oscilar entre sistemas até encontrar equilíbrio, o que demora rodadas.
O recorde histórico do Brasileirão nos pontos corridos com 20 clubes foi de 32 trocas de treinador em uma temporada, registrado em 2015. Com a média atual de uma demissão por rodada, o campeonato de 2026 está no ritmo para aproximar ou superar esse número.
O dado que resume tudo: em 2026, o Brasileirão está punindo a distância entre o modelo proposto e o elenco disponível para executá-lo. Nenhum currículo protege o treinador dessa equação. Nem os de quem comandou a seleção brasileira.