Opinião 2026-04-06 4 min de leitura

O estádio virou praça de alimentação. O torcedor foi embora

Marina Costa
Jornalista Esportiva

O Maracanã tem capacidade para 78 mil pessoas. Na última temporada, a média de público do Flamengo, o maior clube em número de torcedores do Brasil, foi de 47 mil. É um número alto em termos absolutos. Em termos de ocupação, significa que 31 mil cadeiras ficam vazias toda vez que o time da torcida mais apaixonada do país entra em campo em casa.

Os clubes culpam o preço do ingresso. Culpam a transmissão ao vivo. Culpam a violência. Culpam o calendário. Não culpam o produto que oferecem dentro do estádio.

Esse é o problema que ninguém quer nomear.

O que o torcedor encontra quando chega

Chegar a um estádio brasileiro de grande porte em 2026 é uma experiência projetada para ninguém em particular.

Filas sem organização visível. Catracas que travam. Wi-fi que não funciona, e o sinal de celular, congestionado por 40 mil aparelhos simultâneos, também não. Sanitários em quantidade insuficiente para a capacidade do estádio. Alimentação com preço de aeroporto e qualidade abaixo disso. Assentos sem visibilidade adequada em setores inteiros. Sistema de som que distorce nos agudos e some nos graves.

E quando o jogo começa? Telão de baixa resolução. Replay que demora 40 segundos. Narração ao vivo que repete o que acabou de acontecer em campo com atraso de 15 segundos, como eco de algo que já passou.

A experiência no sofá, com câmeras de broadcast profissional, narração imediata, replay em quatro ângulos e temperatura controlada, é objetivamente superior em quase todos os aspectos mensuráveis. E custa menos.

O que a NBA aprendeu que o futebol brasileiro ignora

Em 2014, a NBA estava com o mesmo problema: público caindo, transmissão melhorando, torcedor preferindo casa. A liga contratou especialistas em experiência do consumidor, pesquisou o que o torcedor presencial queria que a televisão não podia oferecer, e reconstruiu a experiência do estádio em cima dessas respostas.

O resultado: aplicativo de arena com câmeras exclusivas que só funcionam dentro do estádio. Wi-fi de alta capacidade como infraestrutura obrigatória. Replays imediatos no telão antes da narração de rádio terminar. Interação durante intervalo. Acesso a estatísticas em tempo real no celular.

A premissa era simples: o torcedor que vai ao estádio precisa ter acesso a algo que quem fica em casa não tem. Não apenas o ambiente. Conteúdo exclusivo.

No Brasil, o conteúdo exclusivo do estádio é o barulho da torcida organizada e a captura de oportunidade de ver o jogador favorito ao vivo. Isso não é suficiente para convencer uma família a gastar R$ 400 em quatro ingressos mais alimentação mais transporte.

O ingresso que custa mais do que deveria

O preço do ingresso no Brasil aumentou acima da inflação nos últimos cinco anos. O salário mínimo não acompanhou no mesmo ritmo. Para uma família de quatro pessoas da classe média baixa, ir a um jogo no setor mais barato do Maracanã custa o equivalente a três dias de salário mínimo, contando transporte e alimentação mínima.

Isso é excludente por definição. E é excludente justamente da base da pirâmide da torcida, que historicamente é a mais apaixonada e a que cria a atmosfera que torna o estádio especial.

Os 58 milhões de torcedores brasileiros existem. A maioria deles não vai ao estádio com frequência porque não pode pagar ou porque a experiência não justifica o custo. Os dois problemas têm solução. Nenhum deles está na agenda prioritária dos clubes.

Onde o dinheiro vai em vez de ir para a experiência

Os clubes que reformaram estádios nos últimos anos, ou que operam arenas modernas, investiram prioritariamente em dois lugares: camarotes premium e espaços de alimentação e bebida.

Camarotes são importante fonte de receita. Faz sentido econômico. O problema é que a lógica do camarote contaminou a visão sobre o restante do estádio. O torcedor comum, que compra ingresso no setor popular, foi tratado como custo a minimizar, não como cliente a satisfazer.

A área VIP tem telão privativo, serviço de bar incluído, assento estofado e vista privilegiada. O setor popular tem cadeira quebrada, visão parcial e fila de quarenta minutos para o banheiro. São duas experiências em um mesmo produto, e apenas uma delas foi pensada com cuidado.

O torcedor que migrou e não volta fácil

O Brasileirão está em quatro plataformas. O torcedor aprendeu a acompanhar o futebol de onde está, quando quer, no dispositivo que preferir. Esse comportamento não se desfaz facilmente.

Reconquistar o torcedor que migrou para o sofá exige oferecer algo que o sofá não tem. Não apenas emoção, que a transmissão capta bem. Presença. Pertencimento. Conteúdo que só existe se você estiver lá.

Enquanto os clubes não entenderem que estão competindo com a experiência de assistir em casa, e não apenas com outros clubes pelo mesmo torcedor, continuarão construindo argumentos para o problema errado.

A solução que não é cara

Wi-fi de capacidade no estádio. Telão com resolução equivalente ao broadcast. Replay imediato. Aplicativo com câmeras exclusivas. Sanitários adequados à capacidade. Sinalização clara. Sistema de filas organizado.

Nada disso é impossível. Nada disso é caro comparado ao que os clubes gastam em contratações que não mudam resultado ou em rescisões de treinadores que duraram quatro meses.

É uma questão de prioridade. O torcedor presencial não é prioridade. Por enquanto.

Quando as arquibancadas vazias doírem no caixa mais do que doem hoje, a prioridade vai mudar. Esperemos que não demore muito.

Marina Costa Jornalista Esportiva

Marina Costa tem 38 anos e é carioca do Méier. Formada em Jornalismo pela UERJ, começou cobrindo esporte em 2010 no Lance!, onde ficou por 5 anos na editoria de futebol nacional. Passou pela ESPN Bras... Ler perfil completo

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