Para assistir a todos os jogos do Brasileirão 2026, um torcedor precisa ter TV por assinatura com SporTV e Premiere, assinatura do Amazon Prime Video, acesso à CazéTV no YouTube, e eventualmente sintonizar a Record. Ou a TV Globo aberta, quando a partida for lá.
São pelo menos quatro plataformas diferentes. Dois pagamentos mensais mínimos. Uma agenda de jogos onde cada partida exige consultar qual serviço tem o direito naquela rodada.
O futebol brasileiro transformou o ato de assistir ao Brasileirão num problema de logística. E chama isso de modernização.
Como chegamos aqui
A criação de dois blocos comerciais no Brasileirão, a LIBRA e a Futebol Forte União, foi apresentada como avanço na gestão do futebol brasileiro. Clubes negociando seus próprios direitos, maior autonomia, mais receita. Os argumentos fazem sentido do ponto de vista dos clubes.
O problema é que ninguém colocou o torcedor na equação.
A LIBRA vendeu exclusividade para o Grupo Globo por R$1,17 bilhão por temporada. A FFU distribuiu seus jogos entre Amazon Prime, Record, CazéTV e Premiere. O resultado é um campeonato onde os jogos estão espalhados por plataformas com lógicas diferentes, preços diferentes, e disponibilidades diferentes dependendo de onde você mora e como você assiste.
Antigamente, com todo o Brasileirão na Globo e no Premiere, era possível discutir se o acordo era justo para os clubes ou se a exclusividade era saudável. Mas pelo menos o torcedor sabia onde estava o produto. Agora não sabe.
O que a fragmentação faz com o produto
Existe um conceito no marketing esportivo que se chama de fricção de acesso. Quanto mais difícil é para o torcedor assistir, menor o engajamento. Menor o engajamento, menor a audiência. Menor a audiência, menor o valor do produto para o próximo ciclo de negociação de direitos.
A Premier League resolveu isso de um jeito específico: manteve um ponto de acesso central, a Sky Sports, com transmissão ampla, e complementou com parceiros secundários. O torcedor britânico sabe que para ver a Premier League, assina Sky. Simples.
O Brasileirão 2026 não tem esse ponto central. Tem um mosaico de plataformas onde cada jogo pode estar num lugar diferente. O torcedor que não acompanhou o calendário de transmissão da semana não sabe onde ligar quando quer ver futebol na quinta-feira.
Isso não é problema de torcedor dedicado que pesquisa. É problema de torcedor casual que representa a maioria da audiência e cujo engajamento é o que sustenta o valor do produto a longo prazo.
O argumento da democratização que não se sustenta
Parte da defesa da fragmentação usa o argumento de democratização. Jogos na CazéTV são gratuitos no YouTube. Record é TV aberta. GE TV é streaming gratuito. O futebol estaria chegando a mais gente.
O argumento tem um problema: chegar a mais plataformas não é o mesmo que chegar a mais pessoas de forma consistente. A audiência que acompanha futebol de forma consistente precisa de previsibilidade. Saber que toda quinta tem jogo no mesmo lugar. Que para ver o time jogar basta abrir o aplicativo de costume.
Quando cada rodada exige uma pesquisa nova sobre onde está o jogo, parte da audiência desiste antes de começar. Especialmente a audiência mais jovem, que tem mais opções de entretenimento competindo pela mesma atenção.
O portal já documentou como 61% dos gols do Brasileirão são no segundo tempo. Isso significa que manter o torcedor engajado por 90 minutos tem valor enorme para a audiência. Mas o torcedor que não conseguiu encontrar o jogo nos primeiros quinze minutos já foi para outra coisa.
O modelo que os clubes escolheram
A decisão de fragmentar os direitos foi dos clubes. Cada bloco negociou com quem pagou mais ou ofereceu as melhores condições para aquele grupo específico. Isso é legítimo do ponto de vista empresarial.
Mas existe uma responsabilidade coletiva com o produto que o modelo atual ignora. O Brasileirão não é um conjunto de ativos separados que cada clube pode monetizar individualmente. É um campeonato. Um produto único que depende da narrativa coletiva, da rivalidade entre clubes, do interesse acumulado ao longo da temporada.
Quando você fragmenta demais a distribuição, você fragmenta também essa narrativa. O torcedor que só tem acesso à metade dos jogos acompanha metade da competição. E quem acompanha metade da competição tem metade do engajamento.
O que a Série B ensina
A Série B do Brasileirão, ironicamente, tem distribuição mais centralizada que a Série A. Está praticamente toda no Premiere e em plataformas do Grupo Globo. O resultado é que a Série B tem audiência crescente e narrativa consistente ao longo da temporada.
O campeonato de acesso e rebaixamento, que tecnicamente tem menos estrelas e menos histórico de grandes clubes, é mais fácil de acompanhar que o campeonato principal. Isso diz algo sobre como a fragmentação afeta a experiência do torcedor.
O preço invisível
O problema mais sério da fragmentação não é o custo financeiro imediato, embora esse também exista para o torcedor que precisa de múltiplas assinaturas. É o custo de longo prazo para o produto.
Audiência se constrói com hábito. Hábito exige consistência. Consistência exige previsibilidade de onde encontrar o conteúdo. O Brasileirão 2026 dificulta a formação de hábito porque muda de endereço toda semana.
Cada novo ciclo de negociação de direitos, os clubes vão perguntar por que a audiência não cresceu mais rápido. A resposta vai estar nos dados de acesso fragmentado. O campeonato já tem problema de competitividade concentrada. Agora tem também problema de distribuição fragmentada.
Os clubes fizeram o melhor negócio possível para si mesmos no curto prazo. O produto pagará a conta no longo prazo.
E o torcedor, como sempre, continua sem saber em qual plataforma está o jogo de hoje.