Opinião 2026-04-06 5 min de leitura

Metade da Série A não tem psicólogo. A pressão não para

Marina Costa
Jornalista Esportiva

Metade dos clubes da Série A do Brasileirão não tem psicólogo na estrutura. Dez dos vinte times que disputam o campeonato mais importante do futebol brasileiro enviam atletas para o trabalho sem nenhum suporte profissional de saúde mental.

Esses mesmos clubes demitem técnicos após quatro derrotas, exigem evolução constante de rendimento e expõem cada jogador ao julgamento público de dezenas de milhões de torcedores nas redes sociais.

O futebol brasileiro pede desempenho máximo e oferece suporte mínimo. E quando o jogador quebra, a narrativa é sempre a mesma: falta de profissionalismo, falta de comprometimento, falta de cabeça.

O tabu que está deixando de ser tabu

Nos últimos anos, algo mudou no debate sobre saúde mental no futebol. Atletas de alto nível começaram a falar. Neymar já admitiu episódios de depressão. Jogadores europeus, com maior proteção institucional, foram mais longe em relatos públicos. O tema entrou no noticiário esportivo de um jeito que não entrava há dez anos.

Mas falar sobre o problema não é o mesmo que estrutura para enfrentá-lo. O tabu está diminuindo. A infraestrutura, na metade dos clubes brasileiros, ainda não existe.

Isso não é questão de sensibilidade. É questão de gestão. Clube que não investe em saúde mental dos atletas está investindo menos em desempenho. A ciência esportiva é clara: atleta com ansiedade elevada tem tempo de reação comprometido, tomada de decisão prejudicada, recuperação física mais lenta. Cuidar da cabeça não é luxo. É parte do treinamento.

A pressão que o futebol brasileiro normaliza

O Brasileirão 2026 teve dez técnicos demitidos em dez rodadas. Esse dado tem um lado que todo mundo discute, o lado do treinador. Mas tem outro lado que ninguém menciona: o impacto nos jogadores.

Cada troca de técnico é um vestiário em turbulência. É um grupo que estava aprendendo um esquema sendo forçado a aprender outro. É confiança construída sendo destruída quando o comandante vai embora. É ansiedade instalada sobre quem vai ser o próximo titular, quem o novo técnico vai preferir, quem vai ser vendido na próxima janela.

Em qualquer empresa, dez trocas de liderança direta em dez semanas seria assunto para o departamento de recursos humanos e provavelmente para um consultor externo de gestão de crise. No futebol, é estatística de curiosidade.

Os jogadores convivem com isso. Não têm escolha. E metade dos clubes não oferece ninguém para ajudá-los a processar o que estão vivendo.

Redes sociais e a pressão sem precedente

A geração atual de jogadores profissionais é a primeira a crescer inteiramente exposta às redes sociais. Um erro num jogo na quinta-feira está nos memes do Twitter ainda na quinta à noite, nos comentários do Instagram na sexta de manhã, e sendo discutido em podcasts no fim de semana.

Isso não existia há quinze anos. Ronaldo Fenômeno passou pela Copa de 2006 sem ter sua performance analisada por dez milhões de pessoas em tempo real. Hoje um lateral que falha num passe recebe comentários de ódio de estranhos enquanto ainda está no vestiário após o jogo.

O jogador jovem que sobe da base para o profissional não está preparado para isso. Não existe treinamento específico para lidar com exposição dessa magnitude. E a maioria dos clubes não oferece suporte estruturado para essa transição.

O resultado aparece em campo. Jogadores que travam em momentos decisivos, que erram mais sob pressão, que somem em jogos grandes. A análise tática explica parte disso. A psicologia esportiva explica outra parte que o futebol brasileiro ainda reluta em admitir.

O que os clubes que investem colhem

Os clubes europeus que tratam saúde mental como prioridade há mais tempo estão à frente não por coincidência. Ajax, Barcelona, Manchester City têm equipes multidisciplinares que incluem psicólogos esportivos como parte permanente da comissão técnica, não como recurso de emergência chamado quando o jogador já está em crise.

O modelo preventivo é mais eficaz e mais barato que o modelo reativo. Investir em suporte psicológico regular é menos custoso do que lidar com atleta em queda de rendimento por ansiedade crônica ou com contrato interrompido por episódio de saúde mental não tratado.

Mas o futebol brasileiro opera principalmente no curto prazo. A lógica que demite técnico após quatro jogos é a mesma que não investe em psicólogo porque o retorno não aparece na tabela da próxima rodada.

A contradição do alto rendimento sem estrutura

O futebol profissional brasileiro exige de seus atletas nível de performance comparável ao europeu. As ligas são diferentes em qualidade, mas a exigência física e a pressão psicológica são equivalentes. Copa do Brasil, Libertadores, Brasileirão, com pausa mínima e calendário que não perdoa.

A diferença é que o futebol europeu investiu décadas construindo estruturas de suporte. Nutricionistas, fisioterapeutas, psicólogos, analistas de desempenho, gestores de carreira. O atleta europeu de alto nível está cercado de profissionais cuidando de cada aspecto de sua condição.

O atleta brasileiro de mesmo nível, na metade dos casos, vai ao vestiário após o jogo e lida sozinho com o que está sentindo.

Isso não é romantismo sobre o sofrimento do atleta. É constatação de que o futebol brasileiro exige produto de primeiro mundo e entrega estrutura de terceiro. A disparidade salarial já documenta essa contradição nos números. A falta de suporte psicológico documenta nos bastidores.

O que muda quando o assunto é levado a sério

Alguns clubes brasileiros estão avançando. O debate está crescendo. Congressos esportivos incluem saúde mental na pauta. Psicólogos esportivos estão sendo contratados por mais equipes.

Mas metade dos clubes da Série A ainda não chegou lá. E o campeonato começa em janeiro e vai até dezembro, com pausa mínima, com pressão máxima, com câmeras em todos os ângulos e redes sociais em todos os momentos.

O jogador que entra em campo no Brasileirão 2026 está no trabalho mais exigente psicologicamente do país. Numa das profissões com menor suporte estruturado para lidar com essa exigência.

E quando ele falhar, porque vai falhar em algum momento, ninguém vai perguntar se ele tinha com quem conversar antes do jogo.

Marina Costa Jornalista Esportiva

Marina Costa tem 38 anos e é carioca do Méier. Formada em Jornalismo pela UERJ, começou cobrindo esporte em 2010 no Lance!, onde ficou por 5 anos na editoria de futebol nacional. Passou pela ESPN Bras... Ler perfil completo

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