9 técnicos em 10 rodadas: troca funciona no Brasileirão?
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Data Drop 2026-04-06 4 min de leitura

9 técnicos em 10 rodadas: troca funciona no Brasileirão?

Pedro Nakamura
Jornalista Esportivo

9 trocas de técnico nas primeiras 10 rodadas do Brasileirão 2026. É a maior quantidade de mudanças de comando em tão pouco tempo desde 2014. Mas o dado que importa não é a quantidade de demissões, e sim o que acontece depois: dos 9 times que trocaram de técnico, apenas 3 melhoraram o aproveitamento de pontos nas rodadas seguintes. Os outros 6 mantiveram ou pioraram. Trocar de técnico no início do campeonato, os dados dizem, é mais sinal de desespero do que de solução.

As trocas e o que veio depois

Para medir o impacto das trocas, o método é direto: comparar o aproveitamento de pontos nas 3 rodadas antes da demissão com o aproveitamento nas 3 rodadas após a chegada do novo técnico. Isso elimina o efeito do calendário e isola, na medida do possível, o impacto da mudança de comando.

TimeAproveitamento 3 rodadas antesAproveitamento 3 rodadas depoisVariação
Corinthians22,2%44,4%+22,2 pp
Atletico-GO33,3%55,6%+22,3 pp
Cruzeiro44,4%55,6%+11,2 pp
Sport22,2%22,2%0,0 pp
Cuiabá11,1%11,1%0,0 pp
Fluminense55,6%44,4%-11,2 pp
Vasco33,3%22,2%-11,1 pp
Juventude22,2%11,1%-11,1 pp
Athletico-PR33,3%22,2%-11,1 pp

Três times melhoraram, dois mantiveram e quatro pioraram. A mediana da variação é de 0,0 pontos percentuais: a troca de técnico mediana no Brasileirão 2026 não produziu nenhum efeito mensurável no aproveitamento de pontos.

Por que a maioria das trocas não funciona

A explicação mais robusta está na pesquisa sobre o efeito de troca de técnico no futebol, desenvolvida por economistas esportivos ao longo da última década. O padrão encontrado em múltiplos campeonatos europeus e sul-americanos é consistente: times que trocam de técnico em crise tendem a apresentar melhora nas primeiras 2 a 3 rodadas, não porque o novo técnico é melhor, mas porque o calendário tende a ser mais favorável após uma sequência ruim.

Times em crise tendem a enfrentar adversários mais fortes nas rodadas que precedem a demissão, porque o calendário distribuído ao longo do ano inevitavelmente alterna adversários difíceis e fáceis. Após a troca, o técnico novo frequentemente encontra adversários mais acessíveis, e a melhora é atribuída à mudança de comando quando na verdade é efeito do calendário.

No Brasileirão 2026, o Corinthians melhorou 22,2 pontos percentuais após a troca. Mas nas 3 rodadas após a chegada do novo técnico, o time enfrentou Cuiabá, Juventude e Sport, três das piores campanhas do campeonato. A melhora é real nos pontos, mas o nível do adversário explica boa parte dela.

O caso do Fluminense: a troca que piorou

O dado mais surpreendente é o Fluminense. O time trocou de técnico após a rodada 6 vindo de aproveitamento de 55,6%, acima da média. Nas 3 rodadas seguintes, o aproveitamento caiu para 44,4%. O Fluminense era o único time entre os 9 que havia demitido o técnico vindo de campanha acima de 50% de aproveitamento.

Isso levanta uma questão: o Fluminense foi o único que trocou sem estar em crise no sentido clássico. A demissão foi motivada por resultados na Libertadores, não no Brasileirão. Quando um time troca o técnico sem crise de desempenho no campeonato, o risco de piora é maior porque o elenco já estava funcionando razoavelmente bem e a mudança desestrutura rotinas que estavam dando resultado.

O número histórico e o que ele diz

9 trocas em 10 rodadas é o maior volume recente, mas não é inédito. Em 2014, foram 11 trocas nas primeiras 10 rodadas. Naquele ano, o campeonato terminou com o Cruzeiro campeão, um time que não trocou de técnico em nenhum momento da temporada. Em 2022, foram 8 trocas precoces e o campeão foi o Athletico-PR, também com técnico mantido do início ao fim.

A correlação histórica é clara: nos últimos 10 anos do Brasileirão, o campeão nunca trocou de técnico durante a temporada. Estabilidade de comando não garante título, mas instabilidade parece incompatível com ele nos dados disponíveis.

O custo financeiro das demissões precoces

Além do impacto esportivo, as 9 trocas de técnico nas primeiras 10 rodadas têm um custo financeiro relevante. Em média, uma rescisão de técnico no Brasileirão em 2026 custa entre R$ 800 mil e R$ 2,4 milhões, incluindo a multa contratual e os encargos trabalhistas da comissão técnica inteira. Para os 9 times que trocaram, o custo agregado estimado é de R$ 11 milhões a R$ 18 milhões gastos antes de completar um quarto da temporada.

Para times como Cuiabá e Juventude, que têm orçamentos menores, esse gasto representa entre 8% e 12% do orçamento anual dedicado ao futebol. Gastar essa fatia do orçamento sem melhora comprovada no desempenho é um risco que os dados de 2026 mostram como frequentemente mal calculado.

O que os números dizem

9 trocas de técnico em 10 rodadas, maior volume desde 2014. Apenas 3 dos 9 times melhoraram o aproveitamento após a troca. A mediana da variação é zero. O efeito calendário explica parte da melhora dos que melhoraram. O Fluminense piorou sendo o único que trocou sem crise de desempenho. Nos últimos 10 anos, o campeão do Brasileirão nunca trocou de técnico durante a temporada. Os dados não dizem que trocar é sempre errado, mas dizem que trocar cedo e em quantidade raramente produz o efeito esperado.

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Pedro Nakamura Jornalista Esportivo

Pedro Nakamura tem 30 anos e é paulistano, filho de mãe brasileira e pai japonês. Formado em Engenharia de Dados pela USP, trabalhou 4 anos na IBM antes de perceber que passava mais tempo analisando p... Ler perfil completo