Nove técnicos. Nove rodadas. Um por semana, sem falta, como se fosse ritual obrigatório do futebol brasileiro. O Campeonato Brasileiro de 2026 está batendo o recorde das últimas quatro edições em demissões de treinadores e a maioria das redações está tratando isso como curiosidade estatística. Não é curiosidade. É um diagnóstico.
Por que ninguém faz a pergunta certa sobre as demissões no Brasileirão?
Jorge Sampaoli. Fernando Diniz. Juan Carlos Osorio. Filipe Luís. Hernán Crespo. Tite. Juan Pablo Vojvoda. Martín Anselmi. Gilmar Dal Pozzo. Cada nome vira manchete por 24 horas e some. A imprensa esportiva cobre a demissão, especula o substituto, entrevista o dirigente e segue em frente. Ninguém para para perguntar: o que há de errado com quem demite?
A narrativa padrão é sempre a mesma: o treinador não entregou resultados, o vestiário estava rachado, o futebol não convencia. E talvez seja verdade em algum desses casos. Mas quando o número chega a um técnico por rodada, a história não é mais sobre os técnicos. A história é sobre os clubes.
O custo real que ninguém calcula
Cada demissão no futebol brasileiro custa dinheiro que os clubes dizem não ter. A multa rescisória corresponde ao total dos salários que o profissional receberia até o fim do contrato. Multiplica pelo número de pessoas na comissão técnica, auxiliar, preparador físico, analista de desempenho, às vezes mais quatro ou cinco pessoas, e o valor explode. Depois, contrata-se o substituto, em geral com salário igual ou maior, porque a pressão por resultados imediatos faz o clube pagar mais caro em situação de desespero.
O Correio Braziliense levantou o custo real de demitir e contratar treinadores no futebol brasileiro. A conclusão é a que qualquer pessoa com raciocínio mínimo já chegaria: o dinheiro gasto em rescisões poderia ir para formação de atletas, quitação de dívidas ou infraestrutura. Em vez disso, financia o ciclo vicioso da impulsividade dirigencial.
Nenhum clube vai te dizer quanto pagou de rescisão. Isso não é transparência, é conivência coletiva com um modelo que quebra clube, engana torcedor e devora recursos públicos e privados sem nenhum tipo de prestação de contas.
A comparação que incomoda: o técnico demitido após a vitória
Em 2025, foram 7 demissões nas oito primeiras rodadas. Já era um número absurdo. Em 2026, foram 9 em 9. A tendência não está se revertendo, está se acelerando. E o mais revelador: alguns dos técnicos demitidos tinham aproveitamento positivo. Martín Anselmi foi demitido pelo Botafogo depois de uma vitória. Hernán Crespo saiu do São Paulo com três vitórias e um empate em quatro jogos de campeonato.
Isso destrói qualquer argumento baseado em resultados. O que está acontecendo não é gestão técnica. É pânico institucional. É dirigente sem projeto que transforma o treinador em fusível, queima o fusível e finge que resolveu o problema elétrico.
A análise do Bragantino sobre o Flamengo, publicada aqui no Armador, mostrou como um sistema bem executado desmonta qualquer adversário independente do nome do treinador. Sistema. Processo. Continuidade. São palavras que assustam boa parte dos clubes brasileiros porque exigem paciência, e paciência é exatamente o que falta.
O modelo que o Brasil finge não ver
Na Premier League, na Bundesliga, nos grandes clubes espanhóis, a demissão de treinador existe, mas é exceção, não regra. Clubes ficam anos com o mesmo treinador em reconstrução antes de colher resultados. O Liverpool de Klopp durou nove anos. O City de Guardiola passou por temporadas sem título e o projeto foi mantido.
No Brasil, nove rodadas já são suficientes para terminar carreiras. Ninguém quer falar que isso é, antes de tudo, um problema de governança. De conselhos deliberativos que não fiscalizam diretores. De presidentes eleitos por popularidade, não por competência. De um sistema eleitoral nos clubes brasileiros que premia o imediatismo e pune o planejamento.
Enquanto isso, o Brasileirão 2026 segue quebrando recordes de demissões, e a imprensa cobre cada queda como se fosse evento isolado. Não é. É o mesmo evento, repetido nove vezes, com nove nomes diferentes e o mesmo roteiro.
A conclusão que ninguém quer ouvir
O problema do futebol brasileiro não é que os técnicos são ruins. O problema é que os clubes não sabem o que querem, mudam de ideia a cada derrota e transformam o treinador no bode expiatório de uma estrutura disfuncional que começa muito antes do campo.
O Brasileirão 2026 também está registrando outro dado histórico: 65 jogos consecutivos sem empate sem gols, um recorde de 60 anos. O futebol em campo está vivo. A gestão fora dele está em colapso.
Enquanto a imprensa continuar cobrindo cada demissão como curiosidade estatística, e não como sintoma de um modelo podre, nada vai mudar. Na próxima semana, vai ter mais um nome na lista. E todo mundo vai fingir surpresa.
Eu não vou.