Futebol Feminino 2026-04-06 5 min de leitura

Brasil sedia Copa Feminina em 2027. Os clubes fecham as portas

Marina Costa
Jornalista Esportiva

O Fortaleza conquistou o acesso inédito à Série A1 do Brasileirão Feminino em 2025. Campeão cearense, vencedor da Copa Maria Bonita, chegou ao nível mais alto do futebol feminino do país pela primeira vez na história do clube. Meses depois, encerrou o projeto. O time não existe mais.

O Real Brasília fez o mesmo. Sem patrocinador master, sem viabilidade financeira, fora da elite antes mesmo de começar a temporada.

Em 2027, o Brasil recebe a Copa do Mundo Feminina. Oito cidades, dezenas de milhares de turistas, holofotes globais. E os clubes brasileiros estão fechando as portas do futebol feminino.

A pergunta que ninguém quer fazer em voz alta: o que, exatamente, o Brasil está construindo?

O crescimento que não se sustenta

Os números de 2026 parecem animadores na superfície. O Brasileirão Feminino Série A1 foi ampliado de 16 para 18 clubes. O número de partidas passou de 134 para 167. A CBF anunciou R$ 685 milhões de investimento nas competições femininas entre 2024 e 2029. A partir de 2027, todas as atletas da Série A1 terão contrato profissional obrigatório.

São avanços reais. Não estou minimizando.

Mas crescimento sem base é movimento sem destino. O Fortaleza chegou à Série A1 e saiu. O Real Brasília chegou à Série A1 e saiu. E o motivo não é falta de vontade das atletas, nem falta de torcida. É falta de modelo de negócio sustentável para o futebol feminino nos clubes brasileiros que não têm patrocínio master garantido.

A verdade é que o futebol feminino no Brasil ainda funciona como projeto paralelo. Quando o masculino vai mal, o feminino é o primeiro a cortar. O Fortaleza caiu para a Série B no masculino em 2025 e a primeira decisão foi encerrar o time feminino que acabara de conquistar acesso inédito. Essa hierarquia diz tudo sobre o lugar que o futebol feminino ocupa na estrutura decisória dos clubes brasileiros.

A Copa de 2027 como cortina de fumaça

O Tribunal de Contas da União auditou os preparativos para a Copa do Mundo Feminina de 2027 e encontrou fragilidade na governança interinstitucional. Baixa articulação entre Ministério do Esporte, estados e municípios. Risco de descontinuidade da Estratégia Nacional para o Futebol Feminino por instabilidade administrativa. Ausência de diretrizes para combate à discriminação e assédio durante o torneio.

Isso não é alarmismo. É o TCU dizendo, com linguagem institucional, o que quem acompanha o futebol feminino brasileiro já sabia: a organização da Copa de 2027 corre em paralelo com a estrutura do futebol feminino nacional. Não a partir dela.

O Brasil vai receber o torneio. Os estádios vão estar prontos. A logística vai funcionar. E quando as câmeras forem embora, a maioria dos clubes vai continuar sem projeto feminino de longo prazo, as atletas vão continuar ganhando salários incompatíveis com dedicação profissional, e o debate vai continuar sendo o mesmo de sempre: por que o futebol feminino brasileiro não se desenvolve?

O padrão duplo que o futebol insiste em manter

Existe uma palavra que aparece toda vez que alguém analisa o futebol feminino com seriedade: paternalismo. E o futebol brasileiro é um caso clínico.

Quando um time feminino joga mal, a análise é: mas pra mulher tá bom, está evoluindo. Quando uma atleta reclama de condições de trabalho, a resposta implícita é: não são profissionais como no masculino, então não podem exigir como profissionais. Quando um clube fecha o time feminino, a narrativa é: não tem retorno financeiro suficiente para justificar.

Nenhum desses argumentos resistiria aplicado ao masculino. Nenhum time masculino que caiu para a Série B fecha imediatamente as categorias de base porque não tem retorno financeiro imediato. Nenhum jogador masculino que reclama de condições precárias é aconselhado a ter paciência porque ainda está em desenvolvimento.

O problema não é que o futebol feminino não gera receita suficiente hoje. O problema é que os clubes nunca investiram o suficiente para que ele gerasse. É uma profecia que se cumpre sozinha: não investem porque não dá retorno, não dá retorno porque não investiram.

O que as ligas que funcionam têm em comum

A NWSL nos Estados Unidos, a Women's Super League na Inglaterra, a Frauen-Bundesliga na Alemanha. As ligas femininas que funcionam têm algumas coisas em comum que o Brasil não replica: transmissão televisiva garantida com contratos de longo prazo, integração estrutural com os clubes masculinos em vez de projeto paralelo, salários mínimos definidos por convenção coletiva, e métricas de desenvolvimento de base como critério de participação nas ligas.

Não é coincidência que esses mercados começaram a crescer quando pararam de tratar o futebol feminino como concessão e passaram a tratá-lo como produto. Produto que precisa de investimento, de planejamento, de marketing, de fidelização de torcida.

A CBF está indo na direção certa com o contrato profissional obrigatório a partir de 2027. Mas contrato profissional sem clube financeiramente comprometido com o projeto é papel. O Fortaleza poderia ter firmado contratos profissionais com suas atletas em 2026 e encerrado o time do mesmo jeito.

O que precisa mudar antes de 2027

A Copa do Mundo Feminina no Brasil pode ser a maior oportunidade que o futebol feminino brasileiro já teve. Ou pode ser o maior desperdício. Depende do que acontece nos próximos doze meses.

O portal já mostrou como a consistência de desempenho no futebol brasileiro exige estrutura de longo prazo. No futebol feminino, a equação é a mesma. Clube sem projeto não forma atleta, não desenvolve identidade de jogo, não cria base de torcida. E sem base de torcida, não tem pressão para que os dirigentes se comprometam com o projeto.

O ciclo pode ser rompido. Mas não com evento. Com política. Com obrigação. Com consequência para clube que abre time feminino para pegar cota e fecha quando fica inconveniente.

O Fortaleza ganhou o acesso e fechou as portas. Isso não é má sorte. É escolha. E o futebol brasileiro precisa parar de fingir que os dados do segundo tempo mentem sobre o que aconteceu no primeiro.

Em 2027, o mundo vai olhar para o Brasil e ver estádios cheios e jogos emocionantes. Ótimo. Mas o futebol feminino brasileiro vai ser medido pelo que fica depois que o circo fechar. E até agora, o que fica é um time que conquistou acesso inédito e não existe mais.

Marina Costa Jornalista Esportiva

Marina Costa tem 38 anos e é carioca do Méier. Formada em Jornalismo pela UERJ, começou cobrindo esporte em 2010 no Lance!, onde ficou por 5 anos na editoria de futebol nacional. Passou pela ESPN Bras... Ler perfil completo

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