Em 2024, os agentes de jogadores receberam R$ 2,3 bilhões em comissões de transferências envolvendo clubes brasileiros. Dois vírgula três bilhões. Para comparar: o orçamento total da Série B inteira, somando todos os clubes, é de aproximadamente R$ 1,8 bilhão.
Os agentes faturam mais do que uma divisão inteira do futebol brasileiro. E operam sem regulação efetiva há décadas.
O que um agente faz, na teoria
Na teoria, o agente representa o jogador. Negocia contratos, protege interesses, cuida da carreira a longo prazo. É a interface entre o talento e o mercado. Um bom agente pode fazer a diferença entre uma carreira de dez anos e uma carreira de três, entre um contrato justo e um contrato que beneficia só o clube.
Na prática, o futebol brasileiro criou um sistema onde o agente frequentemente representa todos os lados ao mesmo tempo.
O conflito de interesses que ninguém resolve
No futebol europeu, a regulação impede que o mesmo agente represente o jogador e o clube comprador na mesma transação. Parece óbvio. Se você negocia pelo vendedor e pelo comprador, há conflito de interesses estrutural.
No Brasil, essa prática é comum. O agente traz o jogador ao clube, recebe comissão do clube pela indicação, e ainda cobra percentual do contrato do jogador. Três fontes de receita, interesses necessariamente conflitantes, sem obrigação de disclosure para nenhuma das partes.
O jogador assina um contrato que o agente "negociou" sem saber que o mesmo agente recebeu R$ 800 mil do clube pela operação. Isso não é ilegal no Brasil. É padrão.
A FIFA tentou. O Brasil resistiu
Em 2023, a FIFA implementou o Football Agents Regulations, o sistema mais abrangente de regulação de agentes da história do futebol. Limitou comissões, criou obrigação de transparência nas transações, proibiu dupla representação sem consentimento formal, exigiu licenciamento com exame.
A CBF, junto com outras confederações sul-americanas, questionou juridicamente a implementação. O argumento: a FIFA não teria poder regulatório sobre contratos nacionais. O caso foi para o Tribunal Arbitral do Esporte. A implementação ficou travada.
Enquanto o processo corria, os agentes continuaram operando como antes. Com mais tranquilidade do que antes, na verdade, porque a tentativa de regulação criou a narrativa de que as regras eram abusivas, sem que nenhuma regra efetiva entrasse em vigor.
Quem paga a conta
Quando um clube gasta R$ 30 milhões em uma transferência e R$ 6 milhões vão para o agente, esse dinheiro não vem do nada. Vem do orçamento que poderia ir para infraestrutura, para a base, para salários de atletas menores.
As 122 SAFs no Brasil trouxeram investimento novo. Parte significativa desse investimento foi imediatamente absorvida pelo mercado de transferências, onde os agentes cobram percentuais sobre cada operação. O dinheiro que entrou no futebol brasileiro via SAFs redistribuiu renda para o sistema de agenciamento antes de redistribuir para qualidade esportiva.
Não é conspiração. É lógica de mercado sem regulação.
O jogador que não sabe o que assinou
Pesquisa conduzida pelo Instituto Nacional de Desenvolvimento do Esporte em 2025 mostrou que 67% dos jogadores profissionais brasileiros com contratos ativos nunca leram o contrato com seu próprio agente. Assinaram. Confiam. Não sabem os percentuais exatos, as cláusulas de renovação automática, os direitos de imagem incluídos.
Essa é a população que o sistema foi construído para proteger. É a população que o sistema sistematicamente não protege.
O talento vai embora jovem demais, em parte, porque agentes têm incentivo financeiro para fazer transferências acontecerem rápido. Cada transferência é comissão imediata. Um jogador que fica e se desenvolve por mais dois anos num clube brasileiro é receita adiada para o agente. A matemática do agente e a matemática do desenvolvimento do jogador frequentemente apontam para direções opostas.
O que regulação efetiva precisaria ter
Não é lista longa. É lista politicamente difícil.
Primeiro: teto de comissão por transação, com publicação obrigatória dos valores no sistema da CBF. Segundo: proibição absoluta de dupla representação na mesma transação, com penalidade de nulidade do contrato. Terceiro: contrato padrão entre agente e jogador, com cláusulas mínimas obrigatórias que o jogador precisa confirmar ter lido. Quarto: licenciamento com renovação bienal condicionada a histórico sem infrações.
Simples de listar. Difícil de aprovar porque os agentes mais poderosos do futebol brasileiro têm relações próximas com as diretorias dos clubes que deveriam aprovar a regulação.
A pergunta de sempre
Quem tem interesse em regular o mercado de agentes no Brasil? Os jogadores, que não têm organização política efetiva. Os clubes pequenos, que perdem nas negociações desiguais. Os torcedores, que pagam ingresso para ver um futebol cujo orçamento drena bilhões para fora do esporte.
Quem tem interesse em não regular? Os agentes. E as diretorias de clubes que se beneficiam das relações com agentes para fazer negócios que nem sempre são os melhores para o clube.
R$ 2,3 bilhões em comissões em um ano. Sem teto. Sem transparência. Sem conflito de interesse proibido. Sem regulação que funcione.
É simples assim.