R$ 195 Milhões e o Caos Continua: A Farsa da Profissionalização da Arbitragem Brasileira
Foto: Reproducao/CBF
Opinião 2026-04-04 5 min de leitura

R$ 195 Milhões e o Caos Continua: A Farsa da Profissionalização da Arbitragem Brasileira

Marina Costa
Jornalista Esportiva

A CBF vai gastar R$ 195 milhões para profissionalizar a arbitragem no Brasil. E o Brasileirão já começou com escândalo. Alguém quer me explicar como isso é possível? Ou prefere continuar fingindo que o problema é o árbitro João da Silva e não o sistema podre que o colocou ali?

Por que ninguém fala disso?

Toda semana é a mesma cena. Um time perde um jogo por causa de uma decisão errada. O treinador vai à beira do campo, faz aquela cara de quem foi roubado, solta o comunicado padrão, "a arbitragem nos prejudicou", e no dia seguinte tudo recomeça do zero. Nenhuma consequência real. Nenhuma mudança estrutural. Só o próximo escândalo esperando na fila.

Ninguém quer falar que a arbitragem brasileira tem um problema anterior ao árbitro em campo. O problema é de raiz: durante décadas, o futebol brasileiro tratou seus árbitros como trabalhadores informais, pagos por jogo, sem vínculo empregatício, sem estrutura, sem suporte psicológico, sem plano de carreira. E agora a gente estranha quando eles erram?

O dinheiro chegou tarde, e o caos chegou antes

Em março de 2026, a CBF anunciou com pompa e circunstância o Programa de Arbitragem Profissional (PRO). Contratos enviados para 72 árbitros, assistentes e operadores de VAR. Salário fixo de R$ 10 mil a R$ 22 mil por mês, dependendo do nível, FIFA ou CBF. Taxa adicional por partida apitada, entre R$ 2,5 mil e R$ 5,5 mil. Investimento total: R$ 195 milhões no biênio 2026-2027.

Parece muito. É pouco, na verdade, mas não é esse o ponto.

O ponto é que o Brasileirão 2026 começou e já nas primeiras rodadas a CBF precisou afastar árbitros por erros grosseiros. O programa mal tinha sido assinado e o caos já tinha voltado a campo. A Portuguesa foi eliminada da Copa do Brasil pelo Paysandu numa noite em que dois gols contestáveis foram validados, um zagueiro foi expulso de forma questionável e, detalhe revelador, não havia VAR na fase. Um torneio com prêmio de R$ 2 milhões por classificação, e a CBF entendeu que o árbitro de vídeo era dispensável. Em 2026.

A contradição que vive no centro do problema

Vamos combinar: não dá para anunciar a maior reforma da arbitragem da história do futebol brasileiro e ao mesmo tempo realizar fases inteiras de copa nacional sem VAR. Não dá para falar em profissionalização e manter a lógica de que a tecnologia só vale para os grandes clubes, nas fases avançadas, quando a audiência já garantiu o interesse da televisão.

A Portuguesa foi à CBF e usou a expressão certa: "erros inaceitáveis". Mas o que é inaceitável, de verdade, não são os erros do árbitro em campo numa noite de Copa do Brasil. O que é inaceitável é o sistema que produziu aquela situação, a falta de VAR numa partida decisiva, a inexistência de critérios claros de comunicação sobre quando a tecnologia entra e quando fica de fora, e a sensação, eternamente renovada, de que as regras valém diferente dependendo de quem está jogando.

O árbitro é o bode expiatório perfeito

Há um dado que o futebol brasileiro prefere ignorar: na última temporada antes do programa de profissionalização, os árbitros brasileiros trabalhavam como prestadores de serviço. Nenhum contrato. Nenhuma garantia. Recebiam por jogo e dependiam da escala para sobreviver. Um árbitro que apitasse mal e fosse rebaixado de categoria simplesmente perdia renda. O incentivo real, portanto, nunca foi apitar bem, foi não chamar atenção.

Compare com a Premier League inglesa, onde árbitros profissionais recebem em torno de 70 mil libras por ano de salário base, com bônus que podem ultrapassar 100 mil libras anuais. Têm suporte psicológico obrigatório. Têm mentores. Têm protocolos de comunicação pós-jogo. E mesmo assim a arbitragem inglesa é criticada toda semana. A diferença é que lá existe estrutura. Aqui, existia improvisação.

existiu, no passado. Porque o programa da CBF, se for implementado de verdade, representa a primeira tentativa séria de mudar essa realidade em décadas. Mas "tentativa séria" e "solução" são coisas muito diferentes, e o futebol brasileiro tem uma longa tradição de confundir as duas.

O dinheiro não compra critério, e é isso que falta

A maior mentira contada pelos dirigentes do futebol brasileiro é a de que o problema da arbitragem é técnico. Que árbitros erram porque não são bem treinados. Que o VAR resolve porque tecnologia não erra.

O VAR erra. O SAOT, tecnologia de impedimento semiautomático, que a CBF prometeu implementar em 2026, vai gerar novas polêmicas. Porque o problema não é técnico. É de critério. É de transparência. É de comunicação com o torcedor.

Na Inglaterra, após cada rodada, a Premier League divulga publicamente os lances analisados pelo VAR e as decisões tomadas. O árbitro explica, em nota oficial, o raciocínio por trás de cada escolha controversa. O torcedor pode concordar ou não, mas tem acesso à lógica que guiou a decisão. No Brasil, a CBF divulga análise de VAR quando quer, da forma que quer, e raramente em linguagem acessível. A opacidade não é acidente, é política.

Conclusão: R$ 195 milhões para fazer o quê, exatamente?

A CBF vai gastar quase duzentos milhões de reais na arbitragem nos próximos dois anos. É dinheiro sério. Merece uma pergunta séria: qual é o critério de sucesso? Como vamos saber, em 2027, se o programa funcionou?

Redução percentual de erros por rodada? Publicação obrigatória das análises de VAR? Transparência nos critérios de escala, como árbitros são escolhidos para cada jogo? Mecanismo de accountability que não dependa da CBF se autocriticar?

Ninguém respondeu. E enquanto ninguém responde, o futebol brasileiro vai continuar produzindo a cena de sempre: um time eliminado por um gol irregular, uma torcida furiosa, um dirigente mandando representação à CBF, e a confederação prometendo, como sempre prometeu, que vai melhorar.

A diferença é que agora vai custar R$ 195 milhões para continuar igual.

Marina Costa é jornalista formada pela UERJ, cobriu 3 Copas do Mundo e escreve a coluna Fora da Caixa no Portal Armador.

Marina Costa Jornalista Esportiva

Marina Costa tem 38 anos e é carioca do Méier. Formada em Jornalismo pela UERJ, começou cobrindo esporte em 2010 no Lance!, onde ficou por 5 anos na editoria de futebol nacional. Passou pela ESPN Bras... Ler perfil completo

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