Em 3 de março de 2026, o Flamengo demitiu Filipe Luís. O treinador havia construído um dos modelos mais reconhecíveis do futebol brasileiro, baseado em posse, pressão alta e organização posicional. O problema estava nos números de 2026: a defesa havia cedido e os resultados não acompanhavam o nível de jogo esperado.
Leonardo Jardim assumiu. Cinco jogos disputados pelo Brasileirão sob seu comando. Um gol sofrido. O diagnóstico do problema e a solução aplicada revelam o que mudou estruturalmente no Flamengo em menos de dois meses.
O que Filipe Luís havia construído e o que quebrou
No Brasileirão 2025, o Flamengo de Filipe Luís liderou a posse de bola com 62,1% de média. O modelo era construído sobre pressão imediata após perda, ocupação dos corredores internos e circulação no terço final. Era um time de bola, não de transição.
Em 2026, o mesmo modelo começou a apresentar falhas específicas. A compactação entre as linhas ficou menos precisa. Os laterais subiam sem o meio-campo cobrir adequadamente o corredor central. O resultado foi uma defesa permeável, que cedia espaços nas costas da linha de quatro e sofria em transições rápidas dos adversários.
Filipe Luís reconheceu o problema antes de sair: o início de 2026 foi abaixo do esperado. A demissão veio após resultados insuficientes, não após uma crise de identidade. O modelo existia. A execução havia deteriorado.
O que Jardim mudou: compactação e transição
Leonardo Jardim chegou com histórico de times compactos e eficientes em transição. No Monaco e no Leicester, seus melhores trabalhos foram construídos sobre blocos médios organizados, pressão no momento certo e verticalização rápida após recuperação da bola.
No Flamengo, aplicou dois ajustes fundamentais. O primeiro foi no comportamento dos laterais. Varela e Ayrton Lucas passaram a ter referências mais claras para decidir quando subir e quando segurar. No esquema 4-2-3-1 de Jardim, a dupla de volantes, Evertton Araújo e Jorginho, cobre os corredores centrais quando os laterais avançam, algo que no modelo de Filipe Luís era feito de forma mais intuitiva e menos programada.
O segundo ajuste foi no bloco defensivo. O Flamengo de Jardim recua em bloco médio quando perde a bola, em vez de tentar a pressão alta imediata. Esse recuo organizado fecha os espaços entre as linhas e reduz a exposição às transições rápidas. O custo é menor presença ofensiva no campo adversário. O benefício está no dado: um gol sofrido em cinco jogos.
Paquetá na melhor versão com Jardim
Lucas Paquetá era subutilizado no modelo de Filipe Luís, que o colocava em posição de meia pela direita com responsabilidade defensiva alta. No 4-2-3-1 de Jardim, Paquetá opera como meia-atacante central, na zona entre as linhas, com liberdade para circular e conectar o meio-campo ao ataque.
Esse reposicionamento tem impacto direto na criação. Paquetá recebe apoiado, gira, distribui e chega à área em segundo plano. É a função que o jogador exercia no Lyon e na seleção italiana, onde rendia mais. Com Jardim, a leitura de que Paquetá precisava de menos responsabilidade defensiva e mais liberdade posicional foi aplicada na prática.
Os números confirmam: em cinco jogos com Jardim, Paquetá tem três assistências e dois gols, contribuição direta em cinco das dez bolas na rede do Flamengo no período.
Pedro e a referência no ataque
Pedro igualou Gabigol como maior artilheiro do Flamengo no século XXI na vitória por 3 a 1 sobre o Santos, na rodada 10. O dado é histórico, mas tem implicação tática direta: Pedro é o centroavante de referência que o modelo de Jardim precisa.
O 4-2-3-1 de Jardim exige um nove que segure a bola, dispute divididas nas costas da defesa e abra espaço para Paquetá e para as chegadas de Arrascaeta. Pedro faz as três coisas. Sua presença física no ataque libera os meias para operarem mais longe da marcação direta.
A comparação com o modelo anterior é reveladora: com Filipe Luís, o ataque era mais coletivo e circulatório. Com Jardim, Pedro é o ponto de chegada, e o jogo é construído para servir esse pivô. É um modelo mais simples, mas mais eficiente nos números atuais.
O custo do ajuste: menos posse, mais solidez
A escolha de Jardim tem custos claros. O Flamengo perdeu parte da identidade de posse construída por Filipe Luís. O time não domina mais o jogo pelo controle de bola. Domina pelo equilíbrio defensivo e pela eficiência nas transições.
Esse câmbio de identidade é sempre arriscado em clubes grandes, onde a torcida tem referência estética clara de como o time deve jogar. No Flamengo, a posse era um valor. O bloco médio é mais funcional, mas menos identificável.
Por enquanto, os resultados sustentam a escolha. Com 17 pontos em dez rodadas, quatro pontos atrás do líder Palmeiras, o Flamengo está na disputa. A briga com o Palmeiras pela liderança era o cenário projetado no início do campeonato, e o Flamengo ainda está na corrida, mesmo após a troca de treinador.
O modelo de Jardim é sustentável?
Cinco jogos é uma amostra pequena para avaliar sustentabilidade. O Brasileirão tem 38 rodadas, e os adversários vão estudar o modelo de Jardim com mais profundidade nas próximas semanas.
O risco mais claro está na dependência de Pedro. Se o centroavante perder rendimento ou se machucar, o 4-2-3-1 de Jardim perde o pivô que ancora o sistema. Não há um substituto imediato com as mesmas características no elenco.
O segundo risco é o adversário que pressiona alto e não permite que o Flamengo recue em bloco organizado. Um time que força o Rubro-Negro a construir em campo próprio pode expor a limitação de um meio-campo menos criativo na saída de bola do que no modelo anterior.
Um gol sofrido em cinco jogos é o dado que ancora tudo. Enquanto a defesa se mantiver nesse nível, o Flamengo tem margem para resolver os problemas ofensivos sem crise. Times que cedem muitos gols, como o Grêmio com 14 nas primeiras dez rodadas, não conseguem essa margem de ajuste. O Flamengo de Jardim, por ora, tem.