Grêmio sofreu 14 gols em 10 rodadas: o que a defesa revela
Lucas Uebel / Grêmio
Leitura Tatica 2026-04-06 4 min de leitura

Grêmio sofreu 14 gols em 10 rodadas: o que a defesa revela

Rafael Teixeira
Jornalista Esportivo

O Grêmio empatou em 0 a 0 com o Remo no domingo (5), na Arena, pela 10ª rodada do Brasileirão. Um ponto conquistado, zero gols sofridos pela primeira vez em várias rodadas. O dado positivo não apaga o número acumulado: 14 gols sofridos em 10 jogos, uma das piores marcas defensivas entre os times do meio da tabela em 2026.

O sistema que ainda não funciona como deveria

Luís Castro chegou ao Grêmio com uma proposta de jogo clara: pressão alta organizada, linhas compactas e transições rápidas. O problema está na lacuna entre o modelo proposto e o modelo executado. O técnico admitiu após derrota para o Fluminense que o time entra em bloco com dificuldade para pressionar o portador da bola, cedendo espaço entre as linhas.

Essa inconsistência tem um custo direto. Quando a pressão alta falha, o time não recua rápido o suficiente para formar o bloco médio. O adversário avança com superioridade no espaço entre o meio-campo e a linha defensiva. É nessa zona que o Grêmio tem sofrido a maioria de seus gols: em situações de transição rápida, após a recuperação adversária num momento em que a pressão gremista não se completou.

Onde os gols estão saindo

A comissão técnica identificou dois padrões recorrentes. O primeiro é a exploração dos corredores laterais: quando os laterais do Grêmio sobem para apoiar a construção, as costas ficam expostas. Cuiabano é o lateral mais ofensivo do elenco e frequentemente é encontrado fora de posição nos momentos de transição adversária. O segundo padrão é a falta de proteção à frente da zaga: sem um pivô de contenção que intercepte o passe entre linhas, os meias adversários recebem livres para girar e criar.

Contra o Palmeiras, antes da rodada 10, o Grêmio sofreu três gols com esse padrão. Contra o Vasco, dois gols vieram de situações em que Cuiabano estava adiantado no momento da recuperação adversária. A consistência do problema indica que não é desatenção individual. É estrutural.

O custo da transição entre sistemas

Luís Castro está implementando uma filosofia nova num elenco que operou de forma diferente nas últimas temporadas. A transição entre sistemas tem um custo tático inevitável: os jogadores precisam internalizar novas posições de referência, novas distâncias entre linhas e novos gatilhos de pressão. Enquanto esse processo não se consolida, o time fica exposto nos momentos de falha.

Com 14 gols sofridos em 10 rodadas, o Grêmio tem média de 1,4 gols sofridos por jogo. Para referência: as melhores defesas do campeonato até esta rodada estão em torno de 0,6 gols por jogo. O Grêmio concede mais do dobro. A diferença não é de qualidade individual dos zagueiros. É de organização coletiva no bloco.

O tema dos sistemas defensivos e como eles moldam o desempenho no campeonato tem relação direta com o que o portal identificou sobre linha de três: quem usa e por que funciona em 2026. Alguns dos times com melhor desempenho defensivo usam a linha de três exatamente para cobrir o espaço que o Grêmio expõe com laterais adiantados.

Três pontos táticos do problema

1. Pressão alta sem sincronismo. O gatilho de pressão do Grêmio ainda não está calibrado. Em alguns momentos o time sobe cedo, em outros recua. Essa inconsistência deixa o adversário confortável: ele espera o momento em que o Grêmio hesita e acelera o jogo nesse intervalo. A pressão alta que não se completa é mais perigosa do que o bloco médio bem organizado.

2. Cuiabano como ponto de vulnerabilidade. O lateral esquerdo tem perfil ofensivo e contribui com chegadas e assistências. Mas o custo defensivo é visível: quando ele sobe e o time perde a bola, o corredor esquerdo fica experto. O Grêmio precisa decidir se usa Cuiabano de forma mais contida ou se organiza cobertura específica para compensar as subidas dele.

3. Sem pivô de contenção fixo no eixo. Nos jogos analisados, o Grêmio opera com meias que têm perfil mais box-to-box do que de interceptação. Quando o adversário recebe entre as linhas, não há jogador de referência para fechar o passe. É o espaço que os meias adversários exploram para girar e criar situações de finalização antes que a linha defensiva se organize.

O padrão do Grêmio tem similaridade com o que ocorreu com outros times que tentaram implementar pressing alto sem ter os jogadores específicos para executá-lo. A análise sobre recuperação de bola: quem rouba mais cria mais mostra que os times com maior volume de recuperações no campo adversário são os que têm o pressing melhor sincronizado. O Grêmio está longe desse padrão.

Diagnóstico

O Grêmio sofre 1,4 gols por jogo porque o pressing alto que Luís Castro quer implementar ainda não está sincronizado. O time pressiona quando não deve e recua quando deveria pressionar. Enquanto essa calibração não acontece, os adversários vão continuar encontrando as mesmas zonas abertas.

Rafael Teixeira Jornalista Esportivo

Rafael Teixeira tem 34 anos e nasceu em Goiânia. Formado em Educação Física pela UFG, trabalhou como analista de performance no Goiás EC entre 2018 e 2022, onde participou do acesso à Série A em 2018.... Ler perfil completo