Em 2025, o Flamengo de Filipe Luís foi o time com melhor defesa do Brasileirão: 27 gols sofridos em 38 jogos, média de 0,71 por partida. Em 2026, o mesmo treinador, o mesmo modelo declarado, a mesma estrutura de clube. Resultado: 1,29 gols sofridos por jogo, gol tomado em 85% dos compromissos disputados. A diferença não é pequena. É o dobro. E a explicação não está só nos jogadores. Está no sistema.
O que mudou da sólida defesa de 2025 para o problema atual
O Flamengo de 2025 construiu sua solidez defensiva sobre dois pilares: pressing alto coordenado e linha defensiva alta com cobertura eficiente entre os zagueiros. O time pressionava na saída de bola do adversário, recuperava rápido e raramente deixava o bloco baixar abaixo de 40 metros do gol adversário. Quando perdia a bola, o contra-pressing era imediato, dificultando transições antes que o adversário organizasse o ataque.
Em 2026, esse mecanismo perdeu precisão. Os dados de PPDA, que medem a intensidade de pressing por passes permitidos ao adversário antes da disputa de bola, mostram que o Flamengo autorizou mais passes por ação defensiva nas primeiras rodadas do Brasileirão do que na mesma fase de 2025. Quando o pressing falha, a linha defensiva fica exposta porque a pressão na saída do adversário não ocorre. O resultado é a linha recuando com o adversário já organizado, o que aumenta as chances de finalização com qualidade.
A posse de bola como raiz do problema
Filipe Luís foi direto ao apontar a causa: dificuldade em controlar a posse de bola. A frase parece simples, mas tem implicação tática profunda. Um time que controla a posse mantém o adversário longe do seu gol. Um time que perde a posse com frequência passa mais tempo se defendendo. Se a estrutura defensiva não está calibrada para suportar essa carga, os gols vêm.
O Flamengo de 2026 tem tido dificuldade de manter a posse nos momentos de pressão do adversário. Quando equipes como São Paulo e Corinthians pressuraram alto, o Rubro-Negro cometeu erros de passe na saída de bola que converteram recuperações de bola do adversário em chances diretas. Em sete jogos, o time sofreu dois gols contra essas duas equipes respectivamente. A vulnerabilidade não é pontual. É padrão.
A linha defensiva e o problema das costas
A linha de quatro defensores do Flamengo opera alta para comprimir o espaço entre os setores. Quando o time pressiona e recupera rápido, esse posicionamento funciona: o adversário não tem espaço atrás da linha. Quando o pressing falha e o adversário avança organizado, a linha alta vira armadilha. O espaço atrás dos zagueiros é real e os atacantes rápidos exploram com facilidade.
Nos nove gols sofridos em sete jogos com o elenco principal em 2026, ao menos cinco vieram de situações em que o adversário conseguiu isolar um atacante nas costas da linha defensiva. Isso não é falha individual dos zagueiros. É falha sistêmica: quando o pressing não funciona, a linha alta fica sem proteção. O mecanismo de cobertura entre os setores, que dependia da rapidez do contra-pressing para funcionar, deixa de existir.
O fator contexto: pré-temporada e carga de jogos
Filipe Luís mencionou o "contexto diferente" ao justificar os números. O argumento tem substância. O início de 2026 para o Flamengo incluiu Copa do Brasil, Carioca e Brasileirão em sequência, sem intervalo para reafirmar os padrões defensivos em treino. Um sistema que exige alto nível de coordenação entre os setores, como o pressing alto coordenado, precisa de repetição em treino para funcionar em jogo. Com pouco tempo entre partidas, a margem de ajuste cai.
A única vez em que o Flamengo não sofreu gol em 2026 foi na vitória por 1 a 0 sobre o Vasco na estreia do Carioca, quando o elenco principal ainda não havia sido escalado por completo. Com o grupo todo disponível, o time foi vazado em todos os jogos. Isso sugere que o problema não é de elenco, mas de sincronização. Jogadores que precisam de rodagem coletiva para operar o sistema que Filipe Luís pede ainda não encontraram esse nível.
A sequência defensiva que chegou tarde
Dados de fevereiro indicam que o Flamengo atravessou uma sequência sem sofrer gols após o início crítico de 2026. A defesa, que havia cedido em 85% dos jogos nas primeiras semanas, zerou o gol por rodadas consecutivas. Isso aponta para ajuste no funcionamento do pressing e na comunicação entre os setores. Mas o Brasileirão já havia começado com uma desvantagem acumulada em termos de gols sofridos.
A recuperação defensiva em sequência de jogos é um sinal positivo, mas não apaga o padrão do início. Times que sofrem muitos gols nas rodadas iniciais carregam o saldo negativo pelo restante do campeonato. Com 10 rodadas disputadas e o Palmeiras cinco pontos à frente, o Flamengo não tem margem para novas séries de jogos cedendo gols. O sistema precisa estar calibrado para sustentar o ritmo que o campeonato exige.
O diagnóstico de Filipe Luís e o que ele revela
Quando um treinador aponta falha coletiva e ligada à posse de bola, ele está dizendo, na prática, que o problema é o sistema, não os jogadores. Essa é uma postura intelectualmente honesta, mas também é um recado de que a solução não é trocar peças: é ajustar o funcionamento do conjunto.
O Flamengo tem um dos elencos mais caros do Brasil. A folha salarial e os investimentos em contratações colocam o clube entre os três maiores gastos da Série A. Num modelo que depende de sincronização coletiva mais do que de talento individual, esse investimento só se converte em resultado quando o time joga junto. Em 2025, jogou. Em 2026, ainda está encontrando o caminho.
A pergunta que o Brasileirão vai responder nas próximas semanas é se o Flamengo encontra o equilíbrio defensivo da temporada passada ou se a fragilidade inicial revela uma limitação mais estrutural do modelo de Filipe Luís quando o ritmo de jogos é alto e o tempo de treino é reduzido.
Para entender o contexto defensivo mais amplo do campeonato, vale consultar a análise sobre qualidade dos goleiros no Brasileirão 2026 e a análise do Athletico-PR e suas oscilações táticas, outro time que enfrenta desafios similares de consistência defensiva.