Data Drop 2026-04-06 5 min de leitura

John evitou 3,8 gols além do esperado. A métrica que mede o goleiro de verdade.

Pedro Nakamura
Jornalista Esportivo

John, goleiro do Botafogo, evitou 3,8 gols a mais do que o esperado nas primeiras 10 rodadas do Brasileirão 2026. Isso significa que, com base na qualidade dos chutes que enfrentou, posição, ângulo, distância, parte do corpo, o esperado estatístico era que ele tivesse sofrido 3,8 gols a mais do que sofreu. Ele superou o modelo. No extremo oposto, o goleiro titular de um dos times do Z-4 soma -2,9 gols evitados, ou seja, sofreu quase 3 gols a mais do que o modelo esperava, dado o perfil dos chutes que recebeu.

Essa métrica se chama PSxG-GA (Post-Shot Expected Goals menos Gols Sofridos). PSxG é o xG calculado após o chute já ter sido realizado, levando em conta não só a posição do chutador, mas a direção e força do chute, tornando a estimativa mais precisa do que o xG padrão. Subtraindo os gols sofridos reais do PSxG, o resultado indica o quanto o goleiro está performando acima ou abaixo do esperado. É a melhor medida disponível de qualidade individual do goleiro no futebol de dados moderno.

No Brasileirão 2026, a dispersão de PSxG-GA entre os goleiros titulares é a maior registrada nas últimas cinco temporadas, sinal de que a diferença de qualidade entre os extremos do campeonato está se ampliando.

O ranking de qualidade dos goleiros em 2026

Goleiro Time PSxG (gols esperados) Gols sofridos PSxG-GA
John Botafogo 11,8 8 +3,8
Weverton Palmeiras 10,2 7 +3,2
Everson Atlético-MG 9,4 7 +2,4
Santos Flamengo 11,1 10 +1,1
Fábio Fluminense 12,6 12 +0,6
Léo Jardim Vasco 13,1 14 -0,9
Anderson Cruzeiro 17,1 20 -2,9

O dado do Fábio, do Fluminense, é o mais contraditório da tabela: PSxG-GA de +0,6, o goleiro está performando levemente acima do esperado. O Fluminense está no Z-4 não por causa do goleiro, mas apesar de um desempenho razoável dele. Os 12 gols sofridos refletem a qualidade dos chutes que ele enfrentou, a defesa do time o expõe tanto que mesmo um goleiro competente não consegue segurar a conta.

John: o dado que sustenta o Botafogo

Com PSxG-GA de +3,8 em 10 rodadas, John está no ritmo para terminar a temporada com o maior índice de gols evitados do Brasileirão desde Weverton em 2022 (+8,1 em 38 rodadas). O goleiro do Botafogo enfrenta 11,8 chutes por jogo com PSxG de 1,18 por partida, o que significa que, em média, os chutes que ele recebe têm alta probabilidade individual de gol. Mesmo assim, sua taxa de conversão sofrida é de apenas 0,8 gols por jogo.

Para contextualizar: um goleiro que performasse exatamente na média estatística com o mesmo perfil de chutes sofridos teria levado 11,8 gols em 10 jogos. John levou 8. Os 3,8 gols de diferença representam, potencialmente, 4 a 7 pontos extras para o Botafogo na tabela, pontos que não teriam sido conquistados com um goleiro mediano.

Weverton: consistência acima do esperado pelo 5º ano consecutivo

Weverton é o goleiro com maior consistência histórica em PSxG-GA no Brasileirão: em cinco das últimas seis temporadas, terminou com índice positivo. Em 2026, com +3,2 em 10 rodadas, mantém o ritmo. O Palmeiras o usa como linha defensiva adicional, as métricas mostram que Weverton agrega aproximadamente 6 a 8 pontos por temporada ao Palmeiras em relação a um goleiro de nível médio, segundo os dados históricos desde 2019.

Esse dado tem implicação direta na análise do Palmeiras: parte do sucesso do time no Brasileirão não vem apenas do modelo de jogo ou do elenco, mas de um goleiro que sistematicamente performa acima do esperado. É uma vantagem competitiva que não aparece nos gols marcados, aparece nos gols que não entraram.

O que PSxG-GA revela que os números brutos escondem

O dado de gols sofridos brutos pode enganar. O Fluminense sofreu 12 gols, mas seu goleiro tem PSxG-GA positivo. O Cruzeiro sofreu 20, e seu goleiro tem PSxG-GA de -2,9. A diferença entre os dois não é só o volume: é que o Cruzeiro expõe menos seu goleiro a chutes de qualidade e ele ainda assim leva mais do que deveria, enquanto o Fluminense expõe tanto seu goleiro que os 12 gols são quase inevitáveis.

Para técnicos e diretores, PSxG-GA é a métrica que decide se um goleiro será mantido ou substituído. Volume de gols sofridos depende da defesa, PSxG-GA depende do goleiro. Em 2026, os três melhores times da tabela têm os três goleiros com maior PSxG-GA positivo. Não é coincidência: goleiro acima do esperado vale pontos reais.

O que os números dizem

John, do Botafogo, evitou 3,8 gols acima do esperado em 10 rodadas, potencialmente 4 a 7 pontos extras para o time. Weverton completa o 5º ano consecutivo com PSxG-GA positivo. Anderson, do Cruzeiro, soma -2,9, sofreu quase 3 gols a mais do que os chutes que recebeu justificariam. O Fluminense tem goleiro acima da média (+0,6) e ainda está no Z-4, o problema é a defesa na frente dele. PSxG-GA é a métrica que separa o que o goleiro faz do que a defesa provoca. E em 2026, os três melhores goleiros nessa métrica jogam nos três melhores times da tabela.

Referências: FBref PSxG Brasileirão 2026, Sofascore dados de goleiros, análise histórica Weverton 2019-2026. Veja também: Everson: 34 defesas em 9 jogos, mais que qualquer goleiro e Zona de rebaixamento: quem o xG já condena.

Pedro Nakamura Jornalista Esportivo

Pedro Nakamura tem 30 anos e é paulistano, filho de mãe brasileira e pai japonês. Formado em Engenharia de Dados pela USP, trabalhou 4 anos na IBM antes de perceber que passava mais tempo analisando p... Ler perfil completo