Dos 10 jogos disputados no Brasileirão 2026, o Athletico-PR produziu material suficiente para ilustrar dois times completamente distintos. Em 29 de março, o Furacão aplicou 4 a 1 no Botafogo na Arena da Baixada e assumiu a vice-liderança. Quatro dias depois, o Bahia venceu por 3 a 0 em Salvador e o clube paranaense caiu para o quinto lugar. A oscilação não é acidental. Ela revela tensões estruturais no modelo tático de Odair Hellmann.
O que funcionou contra o Botafogo
O Athletico-PR terminou a vitória sobre o Botafogo com 11 finalizações e sete no alvo. Percentual de aproveitamento ofensivo acima de 60% numa partida de Brasileirão é raro. O sistema de Hellmann priorizou dois elementos: compactação no bloco médio e transições rápidas pelo lado direito, onde Lucas Esquivel funcionou como ala com liberdade de cruzamento.
Com 43% de posse de bola, o Furacão abdicou do controle para ganhar no contra-ataque. O Botafogo dominou os escanteios por 8 a 1 e completou 404 passes contra 361 do adversário. No entanto, a eficiência foi do Athletico. Kevin Viveros marcou duas vezes aproveitando as saídas rápidas, e Juan Aguirre completou o placar após cobrança de falta ensaiada, demonstrando trabalho de bola parada que já havia sido identificado nas últimas rodadas como diferencial do grupo.
O esquema naquela noite foi um 4-2-3-1 em fase de posse e um 4-4-2 na marcação, com Julimar recuando para fechar o corredor central. A linha defensiva com Santos, Benavídez, Aguirre e Arthur Dias limitou o Botafogo a dois chutes no alvo em 90 minutos. Isso para um time que havia chegado à partida com 14 gols marcados no campeonato.
A derrota para o Bahia e o que ela revela
Três dias depois, o Bahia aplicou 3 a 0. O intervalo curto e a viagem para Salvador são fatores, mas não explicam tudo. O Esquadrão de Rogério Ceni funcionou exatamente onde o Athletico é vulnerável: pelos lados, com amplitude real e velocidade nas trocas de posse. O esquema 4-2-3-1 que sufocou o Botafogo não teve os mesmos efeitos quando o adversário passou a usar largura como arma sistemática.
O Bahia criou mais de 2,8 grandes chances no jogo, segundo dados de expected goals. A linha defensiva do Athletico cedeu três vezes porque os zagueiros foram expostos em situações de um contra um nas laterais, sem cobertura adequada dos alas, que estavam posicionados alto na estrutura ofensiva.
Essa é uma das tensões centrais do modelo de Hellmann: quando os alas sobem para participar da construção ofensiva, o espaço entre a linha de quatro e o bloco médio aumenta. Contra o Botafogo, que trabalha com mais lentidão no último terço, isso é controlável. Contra o Bahia, que inverte lado com velocidade e usa os atacantes pelas costas dos laterais, o espaço vira problema imediato.
A flexibilidade como faca de dois gumes
Hellmann declarou após a vitória sobre o Botafogo que a equipe alternava entre três e quatro defensores dependendo do adversário. Essa versatilidade é um trunfo na teoria, mas exige do elenco alto grau de assimilação tática. O Athletico tem jogadores com capacidade para operar em diferentes esquemas? Parcialmente.
Jadson e Luiz Gustavo formam uma das duplas de volantes mais equilibradas do campeonato. O primeiro com perfil de saída de bola, o segundo com função de progressão e interrupção rápida. Essa dupla funciona independentemente da formação usada na frente. O problema está nos extremos: Dudu e Mendoza são jogadores de largura que rendem melhor com espaço atrás deles, o que só é possível com três zagueiros ou com laterais muito recuados.
Quando Hellmann opta por quatro defensores, ele libera os laterais para avançarem, o que comprime o espaço dos extremos. A solução exige que Dudu ou Mendoza se adaptem a funções mais híbridas, e nem sempre isso acontece com regularidade ao longo dos 90 minutos.
Os números da inconsistência
Em 10 rodadas do Brasileirão 2026, o Athletico-PR marcou 14 gols e sofreu 12. Saldo de apenas dois gols positivos para uma equipe que já ocupou a vice-liderança não é indicador de solidez. Para comparação, o Bahia, líder com 24 pontos, tem saldo de 13 gols no mesmo período.
Os 16 pontos do Athletico colocam o time em quinto lugar, mas a distância para o G-4 é de apenas um ponto. A campanha ainda é competitiva. O que preocupa é o padrão de alternância: vitória expressiva, derrota pesada, vitória razoável, derrota surpreendente. Nenhum dos 10 primeiros jogos foi empatado. O Furacão não sabe o que é um resultado mediano.
Isso revela um time que não tem controle sobre o ritmo das partidas. O modelo de Hellmann produz jogos de ponta a ponta, com muitas transições, mas sem a capacidade de gerir momentos adversos com eficiência. Quando o adversário empata uma vantagem, o Athletico tende a abrir mais e a se expor.
A questão das ausências
O defensor Terán e o lateral Esquivel estão fora por lesão. A dupla representa dois dos jogadores mais importantes no esquema de Hellmann. Esquivel, em particular, é o ala-direito que executava as transições rápidas que funcionaram contra o Botafogo. Sem ele, o modelo perde velocidade no flanco e fica mais previsível.
Terán era peça central na saída de bola pela direita na estrutura com três zagueiros. Com a ausência dele, Hellmann precisou reorganizar a linha defensiva, o que ajuda a explicar parte da fragilidade apresentada diante do Bahia. O treinador não teve tempo hábil de reajustar com folga entre os dois jogos.
O retorno dos dois jogadores, previsto para as próximas semanas, vai dizer muito sobre o real potencial da equipe. Se o Athletico voltar a apresentar o desempenho de 29 de março com o grupo completo, a competitividade no G-4 é real. Se a inconsistência persistir mesmo com os titulares, o diagnóstico é mais estrutural: o modelo tem limitações que vão além das ausências pontuais.
O cenário à frente
O calendário do Athletico nas próximas cinco rodadas inclui confrontos com times da parte de baixo da tabela e ao menos dois jogos contra adversários do G-6. É uma janela para o time de Hellmann definir sua identidade. Sequência de quatro ou cinco pontos consolida a candidatura ao G-4. Se a alternância persistir, o clube perde posições para equipes com campanhas mais estáveis.
A análise da tabela mostra que o Athletico tem o terceiro melhor aproveitamento em casa no campeonato, com três vitórias em quatro jogos na Arena da Baixada. Como visitante, o rendimento cai: dois pontos em quatro partidas fora. O próximo ciclo tem três jogos como mandante, o que favorece o cenário mais otimista.
O Athletico-PR de 2026 joga bem quando o modelo encaixa. O problema é que o modelo não encaixa sempre. Hellmann tem o diagnóstico na mesa. As próximas semanas vão mostrar se ele tem a solução.
Para entender como outras equipes lidam com problemas estruturais similares, vale consultar a análise sobre Artur Jorge no Cruzeiro e o estudo sobre intensidade de pressing no Brasileirão 2026.