Copa 2026 2026-04-06 4 min de leitura

A Seleção não tem capitão de verdade há 4 anos. Em Copa, isso pesa

Marina Costa
Jornalista Esportiva

Neymar foi capitão da Seleção Brasileira por uma década. Independente do que você pensa sobre ele como pessoa ou como jogador, havia clareza: aquele era o cara. O braço com a faixa, a voz que falava em nome do grupo.

Neymar se foi. E desde então o Brasil está, há quatro anos, sem um capitão de verdade.

Não estou falando de quem usa a faixa. Casemiro usa. Antes dele, Thiago Silva usou até se aposentar da Seleção. Estou falando de liderança real, reconhecida pelo elenco, respeitada pelos adversários, evidente para qualquer torcedor que assiste.

Essa liderança não existe na Seleção Brasileira atual. E isso vai custar caro na Copa de 2026.

O que significa ser capitão de Seleção

Capitão de Seleção não é função cerimonial. Em eliminatórias, em quartas de final, em pênaltis, em momentos onde o jogo desmorona e o técnico está na beira do campo sem poder fazer nada, é o capitão que fala. Que organiza. Que decide se o grupo vai ou vai.

Pelé era a liderança da Seleção de 1970, mas Carlos Alberto foi o capitão que operacionalizou essa liderança dentro de campo. Romário liderou em 1994 com uma presença que dispensava faixa. Ronaldo em 2002 era a âncora emocional do grupo mesmo quando Cafu tinha a braçadeira.

O Brasil de 2026 não tem esse jogador. Tem Vinicius Jr., que é o melhor em campo mas ainda não demonstrou capacidade de liderança vocal e organizativa em situação de crise. Tem Rodrygo, talentoso e discreto. Tem Casemiro, que declina fisicamente e cuja autoridade vem da experiência, não da presença atual.

O problema da geração sem hierarquia clara

Gerações de jogadores têm hierarquias naturais. Em 2002, todo mundo sabia que Ronaldo, Ronaldinho e Roberto Carlos eram o núcleo. Em 1994, Taffarel, Mazinho e Mauro Silva formavam o bloco defensivo com autoridade. Havia ordem.

A Seleção jovem que vai para a Copa de 2026 tem jogadores de altíssimo nível mas sem hierarquia consolidada. Vinicius e Rodrygo são de mesma geração, jogam no mesmo clube. Endrick tem 19 anos. Os veteranos que deveriam criar a estrutura, Casemiro, Marquinhos, estão em fase de transição de carreira.

Quando um grupo não tem hierarquia clara, a pressão de eliminatória cria dinâmicas imprevisíveis. Quem fala no vestiário? Quem acalma quando o pânico começa? Quem cobra quando alguém desiste de correr?

Essas perguntas têm resposta no papel: Casemiro tem a faixa. Na prática, a resposta é menos óbvia.

O que Dorival precisaria resolver e não consegue por decreto

Dorival Júnior não pode fabricar liderança. Pode criar ambiente onde ela emerge, pode dar responsabilidade a jogadores para que desenvolvam essa dimensão, pode escolher quem usa a faixa com critério que vai além de quem é mais velho.

O que não pode fazer é resolver em meses algo que normalmente se constrói em anos de convivência e de situações de pressão compartilhadas.

O treinador que cai quando o resultado é ruim não criou esse vácuo de liderança. O vácuo começou quando Neymar entrou em declínio acelerado por lesões e quando a geração de transição, Firmino, Gabriel Jesus, Coutinho, nunca se afirmou com autoridade suficiente para preencher o espaço.

Vinicius Jr. e o peso que ele ainda não carregou

Vinicius Jr. vai para a Copa de 2026 como o melhor jogador brasileiro em atividade. Não há debate sério sobre isso. Com 25 anos, está no auge físico, no auge técnico, jogando pelo clube mais rico do mundo em nível de exigência máxima.

Mas ser o melhor e ser o líder são coisas diferentes. Messi levou anos para transformar sua genialidade em liderança de vestiário. Chegou em Copas como o melhor e saiu sem levantar a taça até 2021, quando finalmente a Argentina construiu ao redor dele a estrutura de liderança coletiva que faltava.

Vinicius tem a habilidade. Tem o momento. Falta saber se tem a maturidade emocional para carregar o peso de ser a referência do grupo quando o jogo está perdido no segundo tempo de uma semifinal.

Essa resposta só vem em campo. E 2026 será o teste.

O que a Copa pode revelar

Copas revelam lideranças que ninguém esperava. Zagueiros que viram capitães morais. Reservas que discursam e mudam o jogo. Momentos que criam ídolos de uma geração.

A Seleção de 2026 pode sair da Copa com uma liderança clara que hoje não é óbvia. Pode ser Vinicius em sua versão mais madura. Pode ser um jogador que ainda não chamou atenção para essa dimensão. Pode ser uma liderança coletiva difusa que funciona melhor do que qualquer figura individual.

Ou pode ser que a ausência de liderança real se manifeste exatamente no momento em que mais importa, com o Brasil na situação que já perdeu tantas Copas: vencendo bem até as quartas de final, parando quando o adversário é mais sólido mentalmente do que tecnicamente.

O futebol não é só talento. Nunca foi. E 2026 vai lembrar isso ao Brasil, de uma forma ou de outra.

Marina Costa Jornalista Esportiva

Marina Costa tem 38 anos e é carioca do Méier. Formada em Jornalismo pela UERJ, começou cobrindo esporte em 2010 no Lance!, onde ficou por 5 anos na editoria de futebol nacional. Passou pela ESPN Bras... Ler perfil completo

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