A Copa do Mundo de 2026 acontece nos Estados Unidos, Canadá e México. O Brasil vai jogar a seis horas de voo de São Paulo. O fuso horário é favorável para o torcedor brasileiro assistir em horário nobre. O continente é o mesmo. A janela é única.
E o futebol brasileiro chegou a menos de três meses do torneio sem um plano estruturado para aproveitar nada disso.
O que significa sediar uma Copa perto
Quando a Copa foi no Brasil, em 2014, o impacto econômico e cultural foi imenso mesmo com todos os problemas de infraestrutura e gestão. Turistas estrangeiros encheram hotéis, restaurantes, bares. A Seleção mobilizou o país de uma forma que nenhum outro evento consegue. As cidades-sede viveram semanas de economia aquecida.
Em 2026, o Brasil não é sede. Mas tem algo que poucos países têm: a principal Seleção candidata ao título, jogando a distância viável de viagem, com milhões de torcedores com renda para embarcar caso o time avance.
A Copa na América do Norte é a maior oportunidade de mobilização de torcedores brasileiros desde 2014. Quem está planejando isso do lado do futebol organizado?
A CBF que não tem estratégia de torcedor
A CBF lançou pacotes oficiais de viagem para a Copa. Bem. Mas o pacote oficial de uma confederação que opera como entidade burocrática tem o charme de uma licitação pública: caro, engessado e voltado para quem precisa de nota fiscal corporativa, não para o torcedor de classe média que quer ir ver o Brasil jogar.
Não há programa de mobilização popular. Não há parceria com companhias aéreas para tarifas especiais para torcedores. Não há iniciativa coordenada com os clubes para criar experiências coletivas de viagem. Não há plano B para o torcedor que não pode ir mas quer viver a Copa de uma forma que vai além do sofá.
A CBF tratou a Copa de 2026 como logística. Não como oportunidade cultural.
O que os Estados Unidos vão vender para o Brasil
A FIFA, a MLS e as cidades-sede americanas têm planos detalhados para capturar o torcedor brasileiro. Miami, com sua comunidade brasileira e sua proximidade geográfica, já se posicionou como base brasileira não oficial para a Copa. Hotéis com pacotes em reais. Bares com transmissão ao vivo de todos os jogos do Brasil. Experiências de imersão cultural construídas especificamente para o público brasileiro.
Os americanos entenderam que o Brasil vai levar dinheiro para Miami de qualquer jeito. Construíram produto para capturar esse dinheiro.
Do lado brasileiro, a resposta organizada é quase inexistente. O torcedor que for para a Copa vai gastar em infraestrutura americana, comer em restaurante americano, dormir em hotel americano. O dinheiro da Copa vai circular na economia americana. O Brasil vai aparecer nas bandeiras e na torcida, mas não no retorno econômico.
O Brasileirão em paralelo com a Copa
Enquanto a Copa acontece, o Brasileirão vai estar em pausa por convocações e depois vai precisar recuperar o ritmo. É o problema de sempre da Data FIFA elevado à máxima potência.
A Seleção jovem que vai para a Copa vai ficar fora do Brasileirão por seis a oito semanas se o Brasil avançar às semifinais. Isso significa que os clubs que têm muitos convocados perdem competitividade justamente no período mais decisivo da temporada nacional.
Não existe solução perfeita para isso. Existe planejamento que minimiza o dano. Esse planejamento precisaria ter começado há um ano. Não começou.
A Copa que poderia mudar o comportamento do torcedor
Há uma oportunidade específica que está sendo desperdiçada: usar a Copa de 2026 para reconectar o torcedor brasileiro com o futebol presencial.
O brasileiro que assistir a um jogo da Copa nos Estados Unidos e viver a experiência de um estádio bem organizado, com wi-fi funcionando, replay imediato no telão e sanitários limpos vai voltar para o Brasil com um parâmetro de comparação muito claro. E vai olhar para o estádio brasileiro como praça de alimentação que é com olhos diferentes.
Isso poderia ser o catalisador para a mudança que os clubes não encontraram motivação para fazer por conta própria. A pressão do torcedor que experimentou algo melhor é diferente da pressão do torcedor que só conhece o que tem.
Mas isso pressupõe que o torcedor vá ao estádio americano. E para isso, precisaria de organização que não existe.
O que ainda dá para fazer
Três meses não é muito tempo. Mas é o suficiente para algumas coisas.
Primeiro: CBF e clubes podem organizar Fan Fests em cidades brasileiras com experiência pensada, não apenas telão em praça pública. Segundo: companhias aéreas podem ser acionadas para pacotes específicos para os jogos do Brasil, ainda dá tempo. Terceiro: os clubes podem usar a Copa como momento de criar conteúdo que conecte a Seleção com seus próprios times, convertendo audiência da Copa em torcedor de clube.
São iniciativas pequenas. São o que sobra quando o planejamento grande não foi feito.
A Copa de 2026 vai acontecer de qualquer forma. O Brasil vai jogar. A torcida vai torcer. O que não vai acontecer por falta de planejamento é o aproveitamento de uma oportunidade que não se repete tão cedo.
Daqui a quatro anos, a Copa volta para a América do Sul. Mas próxima da escala desta vez, com esta combinação de fatores, provavelmente nunca mais.