Em setembro de 2025, o Fluminense contratou Luis Zubeldía. O técnico argentino chegava de uma passagem pelo São Paulo onde construiu um modelo reconhecível baseado em pressão organizada e transições verticais. No Fluminense, teve seis meses para adaptar esse modelo a um elenco diferente.
Em dez rodadas do Brasileirão 2026, o resultado é um time vice-líder com 19 pontos, a dois do Palmeiras. John Kennedy é o artilheiro da equipe com seis gols. A bola parada entrou como diferencial tático consistente. O Fluminense goleou o Corinthians por 3 a 1 na nona rodada e assumiu a vice-liderança. Zubeldía chegou ao marco de pontuação equivalente ao dos dois últimos títulos do clube neste ponto da temporada.
O modelo de Zubeldía: compactação e bola parada
A identidade tática do Fluminense de Zubeldía é construída sobre dois pilares que se complementam. O primeiro é a compactação defensiva: o time opera em bloco organizado, com pouca distância entre as linhas, o que dificulta a progressão do adversário pelo centro e força a circulação pelos flancos.
O segundo pilar, menos óbvio mas igualmente relevante, é a bola parada. Zubeldía é considerado um dos técnicos que mais trabalha jogadas ensaiadas de falta e escanteio no futebol sul-americano. O Fluminense em 2026 marcou gols relevantes em situações de bola parada com regularidade. Esse repertório é produto de trabalho de bastidor intenso, não de improviso.
A combinação dos dois pilares cria um time difícil de ser derrotado. A compactação defensiva reduz o número de chances claras cedidas. A bola parada garante eficiência ofensiva mesmo em jogos onde a circulação não flui. Um time que defende bem e converte bola parada com consistência tem margem para jogos menos brilhantes sem perder pontos.
John Kennedy e o papel do centroavante
Seis gols em dez rodadas coloca John Kennedy entre os principais artilheiros do Brasileirão 2026. O centroavante é a referência do modelo ofensivo de Zubeldía no Fluminense, mas não opera como um pivô clássico.
Kennedy busca profundidade, explora as costas da linha defensiva adversária e é eficiente na finalização dentro da área. Esse perfil se encaixa no modelo de Zubeldía porque o técnico constrói transições verticais rápidas que precisam de um atacante capaz de correr atrás da bola, não de um que espera o jogo chegar até ele.
Kevin Serna e Agustín Canobbio pelos flancos completam o sistema. Ambos têm velocidade para explorar os espaços que a compactação defensiva do Fluminense cria quando o time recupera a bola e transita rapidamente.
A goleada sobre o Corinthians como radiografia do modelo
A vitória por 3 a 1 sobre o Corinthians na nona rodada é a partida que melhor ilustra o modelo de Zubeldía em funcionamento. O Fluminense manteve bloco organizado no primeiro tempo, sem arriscar. Quando o Corinthians abriu espaços tentando criar, o time tricolor vertalizou em poucos passes e criou situações de finalização com eficiência.
Os três gols vieram de situações distintas: transição rápida, bola parada e pressão alta depois de recuperação. Os três pilares do modelo em uma única partida. É o tipo de jogo que confirma a solidez de uma equipe, não apenas a capacidade de uma boa atuação isolada.
A comparação com o São Paulo que Zubeldía deixou
Zubeldía chegou ao São Paulo em 2024 e construiu um modelo que incluía uma das melhores defesas do Brasileirão naquele período. Saiu deixando o time com estrutura sólida, que Roger Machado herdou e adaptou para o 4-3-3 que produziu a goleada sobre o Cruzeiro nesta temporada.
No Fluminense, o trabalho tem características semelhantes, mas adaptado a um elenco com diferentes perfis. O São Paulo tinha laterais mais defensivos. O Fluminense tem pontas com mais velocidade. Zubeldía ajustou o modelo sem alterar os princípios. Compactação, transição vertical e bola parada funcionam com elencos diferentes quando a estrutura de trabalho é consistente.
O que o Fluminense ainda precisa resolver
A vice-liderança com 19 pontos não esconde uma fragilidade específica: o Fluminense ainda cede gols em transições quando os pontas perdem o posicionamento defensivo. Em três das dez rodadas, o time levou gols em situações onde a linha defensiva foi exposta pela subida simultânea dos alas.
Zubeldía está ciente do problema. As seis mudanças na escalação contra o Coritiba na rodada seguinte sugerem um processo de ajuste contínuo, onde o técnico testa combinações para encontrar o equilíbrio ideal entre a largura ofensiva e a cobertura defensiva dos flancos.
Com 28 rodadas pela frente, o Fluminense de Zubeldía está construído sobre uma base sólida. Num Brasileirão 2026 que demitiu dez treinadores em dez rodadas, o técnico que chegou em setembro e está na vice-liderança em abril representa justamente o oposto do que o campeonato tem punido: continuidade, processo e modelo ajustado ao elenco disponível.
A distância de dois pontos para o Palmeiras é real. O calendário apertado com maratona de jogos vai testar a profundidade do elenco. O Palmeiras de Abel Ferreira demonstrou que a capacidade de ajuste em tempo real é o diferencial nos jogos decisivos. Zubeldía tem mostrado a mesma capacidade. Os dois melhores times do campeonato são, não por acidente, os dois com treinadores que entendem o elenco que têm.