Houve um erro de arbitragem no clássico Vasco x Botafogo, sábado passado, em São Januário. Isso ninguém nega. O zagueiro Saldivia derrubou Matheus Martins em situação clara de gol, a poucas dezenas de metros do gol, com o atacante em velocidade e livre de marcação. O árbitro de campo viu, avaliou e decidiu: cartão amarelo. O VAR viu as imagens, avaliou e decidiu: nada a fazer.
O Botafogo ganhou o jogo de qualquer forma, por dois a um, com gol de Matheus Martins no segundo tempo. Então por que isso importa?
Importa porque o problema não é o resultado. O problema é o que esse episódio revela sobre o estado da arbitragem brasileira, é sobre o lugar que o VAR realmente ocupa no nosso futebol.
A polêmica do VAR no Brasileirão não é de hoje
Desde que o Video Assistant Referee foi implantado no Brasil, em 2018, a promessa era clara: acabar com os erros grosseiros. Não com todos os erros, mas com aqueles impossíveis de justificar. Uma falta de expulsão vista por dezenas de câmeras, com replay imédiato disponível, com imagem em alta definição e ângulo privilegiado, seria exatamente o tipo de situação que o VAR deveria capturar.
A análise de PC Oliveira, um dos mais respeitados comentaristas de arbitragem do país, foi direta: o árbitro de campo errou ao não expulsar Saldivia, e o VAR errou ao não chamar para revisão. Renata Ruel, da ESPN, disse o mesmo. A CBF divulgou, como de costume, sua análise técnica oficial. E, como de costume, a análise técnica oficial não conclui nada de útil.
Esse padrão já está tão estabelecido que virou rotina. O clube prejudicado reclama. Os comentaristas concordam que foi erro. A CBF emite uma nota técnica em linguagem hermética que não pune ninguém. O árbitro escala no próximo jogo. A vida segue.
O VAR protege árbitros, não o jogo
Existe uma leitura confortável sobre o funcionamento do VAR no Brasil que diz o seguinte: a tecnologia é boa, mas os árbitros ainda precisam de tempo para se adaptar. É uma leitura generosa. E também errada.
O VAR no Brasil não está falhando por imaturidade técnica. Ele está funcionando exatamente como foi desenhado para funcionar dentro de uma estrutura que não tem interesse real em accountability. O protocolo do VAR diz que o vídeo assistente só deve intervir em erros claros e óbvios. Mas quem define o que é claro e óbvio? O próprio sistema. Que não é auditado por ninguém externo. Que não tem penalidades reais para operadores que decidem não intervir.
O Botafogo anunciou que vai enviar ofício a Comissão de Arbitragem da CBF. É uma ação legítima e, ao mesmo tempo, completamente inútil. Não existe um único caso no histórico recente do futebol brasileiro em que uma reclamação formal de clube resultou em mudança de protocolo, punição de árbitro ou revisão de decisão.
O ofício vai para uma gaveta. Ou para uma análise interna. Ou para um comunicado que reconhece a reclamação e informa que o caso será estudado. Nenhuma dessas opções muda qualquer coisa.
Por que ninguém fala na reforma estrutural da arbitragem
O debate que o Brasil precisa ter sobre arbitragem não é sobre um cartão amarelo que deveria ter sido vermelho em São Januário. É sobre a ausência de independência real do corpo de árbitros em relação à CBF. É sobre a falta de um órgão externo com poder de punição. É sobre o modelo de seleção e progressão de carreira dos árbitros, que incentiva a invisibilidade e pune a coragem.
Em ligas como a Premier League e a Bundesliga, os árbitros são contratados profissionalmente por entidades que, embora ligadas às federações, tem estruturas de governança independentes. No Brasil, o árbitro que mais agrada ao ambiente institucional tende a ter mais jogos de destaque na escala. Esse incentivo silêncioso produz exatamente o tipo de omissão que vimos no sábado.
O VAR, nesse contexto, não é uma ferramenta de correção. É uma ferramenta de legitimação. Ele existe para que, quando um erro enorme acontece, possamos dizer que havia tecnologia disponível e que, portanto, a decisão tomada foi intencional ou tecnicamente justificada. O erro vira protocolo. O protocolo vira desculpa.
Nos últimos três anos, o Brasileirão viveu pelo menos quatro episódios com grau similar de evidência de erro e ausência de intervenção do VAR. Em todos os quatro, o debate durou uma semana e foi substituído pelo próximo episódio. Nenhum gerou mudança de regra, de estrutura ou de responsabilização.
O que o clássico de São Januário revelou de verdade
O Botafogo venceu. Matheus Martins marcou o segundo gol. O clássico foi bom de assistir. E o sistema continua idêntico ao que era antes do apito inicial.
A polêmica da não expulsão de Saldivia não é apenas um erro de arbitragem isolado. É a confirmação de que o futebol brasileiro aprendeu a conviver com erros sistemáticos porque não existe pressão real para que eles sejam eliminados. Os clubes reclamam e enviam ofícios. Os comentaristas analisam e chegam a conclusões corretas. A CBF emite notas e arquiva. Os torcedores se indignam por alguns dias.
E o VAR, que deveria ser a linha final de defesa contra o erro grosseiro, continua sendo operado por pessoas que não tem incentivo algum para usar o poder que tem. Porque usar esse poder, na estrutura atual, significa confrontar uma decisão de campo, expor um colega de profissão e criar um precedente que exige consistência futura.
A arbitragem brasileira não é incompetente. Ela é racional dentro de um sistema que recompensa a omissão. Até que o sistema mude, o VAR vai continuar funcionando perfeitamente para os clubes que precisam de uma reclamação a registrar. E continuará não funcionando para o jogo que deveria proteger.
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