Bastidores 2026-04-05 5 min de leitura

Bastidores de Poder nos Clubes Brasileiros

Julia Ferreira
Jornalista Esportiva

O futebol brasileiro joga dois campeonatos ao mesmo tempo. Um acontece dentro de campo, com chutes, gols e tabelas de classificacao. O outro se disputa em salas fechadas, em reunioes de conselho, em corredores de estadio e em despachos de promotores. E, segundo apurou o Armador, esse segundo campeonato e frequentemente mais decisivo do que qualquer resultado de sabado.

Em 2026, ao menos dois dos maiores clubes do pais viveram ou vivem crises institucionais de proporcoes raramente vistas. Os casos do São Paulo e do Corinthians, embora distintos em sua origem, apontam para o mesmo problema estrutural: a governanca dos clubes brasileiros ainda opera em um modelo politico ultrapassado, onde o conselho deliberativo e o instrumento de poder de grupos de interesse, não de controle institucional.

O impeachment que abalou o Morumbi

Na noite de 16 de janeiro de 2026, o Conselho Deliberativo do São Paulo aprovou o afastamento do presidente Julio Casares por 188 votos a 45, em uma assembleia que reuniu 223 delegados. A votacao foi expressiva demais para ser ignorada como simples articulacao politica, e insuficiente para ser tratada como consenso.

O estopim foi um esquema de comercializacao irregular de camarotes no Morumbi em dias de shows, revelado publicamente em dezembro de 2025. Mas fontes ouvidas pelo Armador indicam que a crise vinha sendo cultivada nos bastidores muito antes disso. Casares tinha adversários politicos consolidados dentro do conselho, e o escandalo dos camarotes serviu de pretexto formal para uma disputa que ja estava latente.

A investigacao ganhou contornos mais graves quando vieram a tona relatos de depositos em especie de R$ 1,5 milhao na conta corrente de Casares entre janeiro de 2023 e maio de 2025. A partir dai, o processo deixou de ser apenas politico e adquiriu dimensao juridica.

Cinco dias apos o afastamento, Casares renunciou. O vice Harry Massis Junior, de 80 anos, assumiu a presidencia interinamente. O São Paulo entrava em 2026 sem um presidente eleito, com um processo de governanca de emergencia e com a diretoria fraturada.

O que ficou nos bastidores, segundo apurou o Armador, e que parte do conselho que votou pelo impeachment ja articula nomes para a proxima eleicao presidencial do clube. A crise de Casares não foi apenas uma resposta a irregularidades: foi também a abertura de um novo ciclo de disputa interna.

O Corinthians e o fantasma da intervencao judicial

No Parque Sao Jorge, a crise segue curso diferente, mas igualmente revelador. O Ministerio Publico de São Paulo abriu um inquerito em dezembro de 2025 para analisar a possibilidade de intervencao judicial no clube. O documento listava 25 motivos que, na avaliacao do promotor responsável, justificariam a medida.

Em marco de 2026, conselheiros ligados ao coletivo Voz Corinthiana levaram ao MP um novo pedido formal de intervencao, alegando ruptura institucional interna e desordem administrativa. O grupo afirma que o clube não consegue mais funcionar dentro de suas proprias normas estatutarias.

O ponto mais agudo da crise e a relacao entre o presidente executivo Romeu Tuma Junior e o Conselho Deliberativo. Fontes indicam que o Conselho votou pelo afastamento provisorio de Tuma, que por sua vez contesta a decisão e segue atuando. A disputa criou uma paralisia decisoria que preocupa dirigentes e parceiros comerciais do clube.

Um promotor chegou a tratar publicamente o presidente do Conselho Deliberativo como omisso em documento oficial, o que e, por si so, um indicador do nivel de tensao institucional. O inquerito esta suspenso enquanto se aguarda julgamento de recurso do clube no Conselho Superior do MP.

Segundo apurou o Armador, ha pelo menos dois grupos distintos articulando caminhos diferentes para o Corinthians: um defende a intervencao como unica saida para reorganizar o clube; o outro aposta em eleicao antecipada como forma de restabelecer legitimidade sem a presenca do Poder Judiciario na gestão.

Bastidores de poder e o modelo que resiste

Os casos de São Paulo e Corinthians não sao anomalias. Sao sintomas de um modelo de gestão que o futebol brasileiro ainda não conseguiu superar. Os conselhos deliberativos, pensados como instancias de controle, funcionam frequentemente como arenas de disputa politica, onde alianças, favores e grupos de interesse pesam mais do que estatutos.

A transição para Sociedades Anonimas do Futebol (SAFs) foi, em parte, uma tentativa de modernizar esse modelo. O Vasco, por exemplo, avancou em 2026 para um pre-acordo de R$ 2 bilhoes com o empresario Marcos Lamacchia para a venda da SAF, sinalizando que o mercado segue apostando na profissionalizacao da gestão. O modelo associativo tradicional, contudo, resiste.

Na CBF, o cenario não e diferente. Ednaldo Rodrigues, cujo mandato se estende formalmente ate 2026, viu a entidade alterar seu estatuto para permitir um terceiro mandato presidencial, movimento que fontes ligadas aos clubes descrevem como concentracao de poder, não como modernizacao. A disputa pelo comando da federacao ja movimenta bastidores, com ao menos um nome ligado ao Supremo Tribunal Federal sendo apontado como alternativa.

A questao, como aponta um dirigente ouvido reservadamente pelo Armador, não e de moralidade. E de incentivos. Enquanto o controle de um clube grande for o principal ativo politico e social que um grupo pode ter em uma cidade, a briga por esse controle vai continuar acontecendo dentro das salas de reuniao, independente do que acontece nos gramados.

O Brasileirão 2026 pode estar batendo recordes históricos dentro de campo. Mas o campeonato que importa para o poder dos clubes segue sendo disputado em outro lugar, longe das cameras, nas salas de reuniao que o torcedor raramente ve.

Julia Ferreira Jornalista Esportiva

Julia Ferreira tem 35 anos e nasceu em Porto Alegre. Formada em Jornalismo pela UFRGS, começou cobrindo o Inter e o Grêmio em 2014 para o jornal Zero Hora. Em 2017, migrou para o bastidor do mercado d... Ler perfil completo

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