O zagueiro que saí jogando: o Brasileirão ainda não absorveu
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Prancheta 2026-04-06 5 min de leitura

O zagueiro que saí jogando: o Brasileirão ainda não absorveu

Rafael Teixeira
Jornalista Esportivo

O líbero sumiu do futebol nas décadas de 1990 e 2000, quando o esquema com dois zagueiros e marcação por zona substituiu o sistema com três defensores e um marcador livre. Mas suas funções não desapareceram. Migraram para o perfil do zagueiro moderno: aquele que sai jogando, conduz a bola até o meio-campo, lança em profundidade e participa da construção como um quinto jogador de meio. No Brasileirão 2026, essa transição está em andamento, mas de forma desigual. Alguns times já absorveram o modelo. Outros ainda pedem ao zagueiro apenas que marque e afaste.

O que o futebol moderno pede dos zagueiros

A consolidação do pressing alto como estratégia dominante no futebol europeu obrigou os defensores a se tornarem iniciadores de jogada. Quando o adversário pressiona na saída de bola, o goleiro não pode receber e distribuir livremente. O zagueiro precisa ser a primeira opção de passe em segurança, mas também a capacidade de conduzir e progredir para desorganizar a linha de pressing adversária. Um zagueiro que não consegue sair jogando sob pressão força o time a bater a bola longa, perdendo a posse e permitindo que o adversário recupere organização defensiva.

No Brasileirão 2026, o Palmeiras de Abel Ferreira é o time que mais usa os zagueiros na construção. Gustavo Gómez, capitão e referência do setor, acumula em média 67 passes por jogo, o maior número entre os zagueiros da Série A. Mais do que o volume, a qualidade: 83% de acerto nos passes progressivos, aqueles que avançam mais de dez metros em direção ao gol adversário. Gómez não é apenas um zagueiro que passa bem. É um articulador de jogo que ocupa posição defensiva.

Fabrício Bruno: de Flamengo ao Cruzeiro e o papel no build-up

Fabrício Bruno transferiu-se do Flamengo para o Cruzeiro em 2025 trazendo consigo um dos melhores indicadores de saída de bola entre os zagueiros brasileiros. Com nota 7,27 no SofaScore no Brasileirão 2025, segundo entre os defensores, o jogador se destaca por três atributos: posicionamento para receber o passe sob pressão, velocidade na decisão de passe, e qualidade no lançamento longo. No Cruzeiro de Artur Jorge, que tenta implementar construção desde o goleiro, Fabrício Bruno é peça central do mecanismo que o time ainda tenta afinar.

O dado que ilustra o papel dele no Cruzeiro: em sete dos dez jogos do Brasileirão 2026, a primeira jogada de ataque que resultou em finalização passou pelos pés de Fabrício Bruno. O zagueiro não finaliza e raramente aparece nas estatísticas de ataque. Mas é a engrenagem que inicia o movimento. Times que não têm esse perfil de zagueiro construtor dependem do volante ou do goleiro para iniciar, o que cria padrões mais previsíveis e fáceis de marcar.

O modelo que o Brasileirão ainda não absorveu completamente

Apesar dos exemplos positivos, a maioria dos times da Série A ainda usa os zagueiros de forma conservadora. A análise das posições médias dos defensores centrais nas dez primeiras rodadas mostra que 14 dos 20 times posicionam seus zagueiros abaixo da linha de meio-campo em mais de 80% do tempo. Isso indica que esses zagueiros raramente progridem com a bola, preferindo distribuir para o volante ou o lateral.

O problema dessa abordagem conservadora fica visível quando os times enfrentam pressing alto. Equipes como Bahia, Fluminense e o próprio Palmeiras pressionam na saída de bola adversária. Quando o zagueiro não consegue conduzir ou lançar com precisão sob pressão, o time é forçado ao chutão sem destinatário, que resulta em reposição de bola para o adversário em desvantagem numérica. Cinco dos dez times com pior aproveitamento no Brasileirão 2026 têm zagueiros com menos de 55% de acerto em passes progressivos. A correlação entre qualidade de saída de bola dos defensores e posição na tabela não é coincidência.

Murillo e a nova geração de zagueiro brasileiro

Entre os jovens defensores que chegam ao Brasileirão 2026 com perfil moderno, Murillo é referência. Canhoto, forte fisicamente e com qualidade técnica acima da média para a posição no Brasil, ele representa o tipo de zagueiro que clubes como Grêmio e Internacional buscam no mercado: defensores que participam da construção e não apenas marcam. O perfil é cada vez mais valorizado porque times que jogam com posse de bola precisam de zagueiros que possam ser o terceiro elemento da saída junto com os dois volantes.

A tendência europeia já chegou ao Brasil, mas de forma gradual. Clubes com investimento em análise de dados e recrutamento moderno, como Palmeiras e Bragantino, já priorizam esse perfil de zagueiro nas contratações. Clubes com menos estrutura de análise ainda contratam defensores pelo critério clássico: marcação física, liderança e duelos aéreos. Esses atributos continuam importantes, mas sem a habilidade de construção, o zagueiro moderno está incompleto.

O que muda quando o zagueiro saí jogando

O impacto tático de um zagueiro construtor vai além da saída de bola. Quando o defensor central pode progredir com a bola até o meio-campo, ele força o adversário a tomar uma decisão: o atacante avança para marcar o zagueiro, criando espaço nas costas dele para o time construir, ou recua para fechar o espaço, permitindo que o zagueiro avance livremente. Nos dois casos, a linha de pressing adversária é perturbada. É o mesmo princípio do goleiro que sai do gol para jogar, só que com mais risco e mais impacto.

O Brasileirão 2026 está em transição nesse aspecto. Os times no topo da tabela, Palmeiras, Bahia, São Paulo, já usam zagueiros com função de construção. Os times na parte de baixo, em sua maioria, ainda dependem de defensores que apenas marcam. A coincidência entre perfil de zagueiro e posição na tabela não prova causalidade, mas é dado suficiente para que os clubes comecem a reformular o critério de recrutamento para a posição.

O líbero clássico não vai voltar. Mas o zagueiro que saí jogando já chegou. Quem contratar bem nessa posição nos próximos anos vai ter vantagem estrutural que vai além de uma temporada.

Para entender como o sistema tático do Palmeiras usa os zagueiros na construção, vale consultar a análise sobre o modelo de Abel Ferreira. A análise de passes progressivos no Brasileirão 2026 traz os dados completos sobre progressão por time.

Rafael Teixeira Jornalista Esportivo

Rafael Teixeira tem 34 anos e nasceu em Goiânia. Formado em Educação Física pela UFG, trabalhou como analista de performance no Goiás EC entre 2018 e 2022, onde participou do acesso à Série A em 2018.... Ler perfil completo