Havia uma crianca no setor norte que segurava uma placa feita com papelao e canetao azul. Não tinha mais de dez anos, talvez menos. A placa dizia apenas: Volte sempre. E ela ficou ali, de pe, os bracos levantados, durante todo o segundo tempo, esperando que ele olhasse. Ele não olhou. Mas ela ficou mesmo assim.
Isso e Buenos Aires numa noite de despedida.
Quando Lionel Messi entrou em campo pela ultima vez diante do seu povo, no Estadio Monumental que parecia prestes a transbordar de algo que não tem nome preciso, o que mais chamou atenção não foi o rugido das noventa mil gargantas. Foi o silêncio que veio depois. Um silêncio de dois, tres segundos, logo que o locutor terminou de anunciar o número dez. Como se aquela multidao precisasse de um instante para acreditar que ele era real. Que estava ali. Que aquilo, tudo aquilo, estava chegando ao fim.
O peso de ser lenda dentro do proprio peito
Messi caminhou até o centro do gramado com aquela passada miuda que nunca combinou com a grandeza do que ele carregava. Os filhos vieram com ele. Thiago, o mais velho, tentava manter a seriedade de quem ja entende o que esta acontecendo. Mateo e Ciro, menores, olhavam para as arquibancadas com a boca aberta, como quem ve um incendio pela primeira vez. Antonella, nas cadeiras cativas, segurava o rosto com as maos.
Quando o hino começou, Messi abaixou a cabeca.
Nao foi um gesto ensaiado. Não foi para a camera. Foi aquele movimento de quem precisa de um lugar secreto no proprio corpo para guardar algo grande demais para caber no rosto. O queixo tocou o peito. Os olhos fecharam. Alguns metros a sua frente, noventa mil pessoas cantavam o hino que ele tinha cantado pelo menos duzentas vezes, mas aquela cantavam por ele e para ele, e essa diferenca pesa de um jeito diferente.
Ele chorou. Discretamente, como quem tem vergonha de ser humano em publico.
O que a torcida sabe que o jogador ainda não quer admitir
Ha uma sabedoria particular nas arquibancadas. O torcedor que vai ao estadio ha trinta anos aprende a ler o corpo dos jogadores como se lessem uma lingua que ninguém ensina. E aquela noite, ainda no aquecimento, antes mesmo de uma bola ser chutada, a torcida argentina ja sabia. Sabia pelo jeito como ele olhou para o gramado ao entrar. Sabia pelo segundo a mais que ele ficou parado na beirada do campo, antes de iniciar o trote. Sabia que ele estava se despedindo de um jeito que ele proprio ainda não tinha coragem de dizer em voz alta.
Os mosaicos se abriram nas arquibancadas. Cento e noventa e quatro jogos. Cento e doze gols. Seis titulos. Números que não cabem num cartaz de papelao, mas que aquela multidao conhecia de memória, como quem conhece o nome dos filhos.
Ele marcou duas vezes naquela noite. O primeiro gol, uma cavadinha com a leveza de quem ja não precisa provar nada. O segundo, com o canto externo do pe esquerdo, quase sem olhar para o gol, como se o gol fosse apenas uma formalidade entre ele e o futebol. A torcida explodia. Ele comemorava com aquela quietude caracteristica, o olhar um pouco distante, como se uma parte de si ja estivesse em outro lugar.
Antes do apito final
Nos últimos minutos, com o resultado resolvido e o estadio ja em festa antecipada, algo estranho aconteceu. Um silêncio diferente do primeiro. Não o silêncio da incredulidade, mas o silêncio de quem esta tentando guardar um som na memória. As pessoas pararam de gritar para ouvir. Ouvir os proprios passos dele no gramado. Ouvir o couro da bola no pe esquerdo. Ouvir aquilo que em breve não existiria mais da mesma forma.
A menina com a placa de papelao ainda estava de pe.
Quando o arbitro apitou o fim, Messi ficou parado por um momento no mesmo lugar onde estava quando a bola morreu. Os companheiros vieram abraca-lo, um por um. Otamendi, o mais velho do grupo, segurou o rosto dele com as duas maos e disse alguma coisa que as cameras não captaram. Messi fechou os olhos de novo. Aquela expressão de quem recebe algo que não sabe como devolver.
O que fica quando o craque vai embora
A placa da menina dizia Volte sempre. Mas você não volta sempre a uma despedida. Uma despedida e exatamente aquele momento em que o sempre para. E e isso que torna o futebol tao extraordinariamente humano: ele acontece no tempo, e o tempo não espera por ninguém, nem pelos maiores.
Messi vai para a Copa do Mundo. Provavelmente a ultima. Depois, ha um silêncio que ninguém sabe exatamente como sera. O número dez continua existindo como número, como camisa, como história impressa em livros e estatísticas. Mas aquele jeito especifico de correr com a cabeca um pouco inclinada, aquele primeiro passo curto antes da explosao, aquele olhar que calcula sem que ninguém perceba o calculo -- isso não se repete. Nunca se repete.
Nas arquibancadas da Bombonera, mais tarde, numa noite de amistoso em que a Argentina goleou sem esforco, um senhor de casaco azul ficou sentado depois que todos foram embora. Olhava para o gramado vazio como quem olha para uma fotografia antiga. Talvez estivesse tentando fixar na memória o contorno exato daquilo que estava prestes a não existir mais da mesma maneira.
Talvez seja isso o que uma despedida faz com a gente: nos ensina que estivemos presentes. Que vimos. Que aquilo foi real.
E que a menina com a placa de papelao tinha razao, mesmo que não da forma que ela esperava.
Sempre e o nome que a gente da ao que não quer perder.