Vitor Roque: o Tigrinho que voltou para provar
Foto: Armador/Reprodução
Crônicas 2026-04-06 6 min de leitura

Vitor Roque: o Tigrinho que voltou para provar

Lucas Andrade
Jornalista Esportivo

O treino tinha acabado faz tempo. Os outros jogadores ja tinham ido embora, os holofotes do CT blaugrana estavam se apagando um a um, e Vitor Roque ficou ali, no centro do gramado, chorando. Raphinha foi o unico que chegou perto. Nao disse muita coisa. So ficou ao lado. Aquele menino de dezoito anos, que o Barcelona havia buscado com pompa e fanfarra por mais de trinta milhões de euros, estava sozinho em uma cidade que não entendia o seu idioma, em um clube que não entendia o seu futebol.

Era 2024. E o Tigrinho estava perdido.

O nome que veio do pai

Timoteo e uma cidade de interior de Minas Gerais, daquelas que o mapa encontra antes que a fama chegue. E la, nos campos de varzea e nas peladas de fim de semana, que um homem chamado Juvenal Ferreira corria como volante e era conhecido por todos como Tigrao. Nao chegou a jogar profissionalmente. Mas o apelido ficou, como ficam as coisas que a gente ganha sem querer e carrega para sempre.

O filho nasceu em 28 de fevereiro de 2005. E não demorou muito para que o Tigrao olhasse para o menino e visse algo familiar ali. Nao a postura de um atacante. O pai era volante, e foi como volante que Vitor Roque começou a jogar, aos seis anos, em uma escolinha do Cruzeiro que funcionava na propria Timoteo. O apelido chegou por conta propria: Tigrinho. Diminutivo natural, heranca de sangue.

A familia era de classe média, solida. Hercilia, a mae, trabalhava. Juvenal também. Os dois eram cristaos, criaram os filhos com oracao e disciplina. Vitor e a irma Vitoria cresceram em um ambiente onde o futebol era paixão, mas a fe vinha antes. Esse detalhe não e pequeno. Ele aparece em entrevistas, em postagens, na forma como o jogador fala sobre si mesmo. Ha uma serenidade subjacente que surpreende em alguem tao jovem submetido a tanta pressão.

Revelado como volante, inventado como atacante

Quando Sandro Duarte, ex-jogador e campeonissimo do Cruzeiro em 2003, foi observar o garoto de dez anos no America Mineiro, não viu um centroavante. Viu um meio-campista forte, de boa saida de bola, com os dois pes técnicos. "Ele jogava mais recuado, como meia", Duarte contaria anos depois. "O America teve um papel importante em posiciona-lo como atacante."

Em 2019, o Cruzeiro assinou um contrato de formacao com ele. O America protestou na Justica do Trabalho. Houve acordo. O futebol brasileiro, com toda a sua burocracia e disputa por garotos que mal entram na adolescencia, ja havia colocado Vitor Roque em processo judicial antes que ele estreasse como profissional.

Ele estreou em outubro de 2021, com dezesseis anos, em um empate por 0 a 0 do Cruzeiro contra o Botafogo pela Série B. Dezoito minutos em campo. O suficiente para quem sabe olhar.

Em 2022, quando o contrato precisava ser renovado, as negociacoes travaram. O Cruzeiro queria aumentar a multa rescisoria. Vitor Roque e seus representantes preferiram rescindir unilateralmente. O Athletico Paranaense pagou vinte e quatro milhões de reais para levou-lo para Curitiba. Era a maior contratacao da história do clube.

Tinha dezessete anos.

O silêncio da Europa

O que aconteceu entre 2022 e 2023 no Athletico foi o tipo de coisa que os números capturam mal. Vitor Roque ganhou o titulo paranaense. Virou artilheiro. Chamou atencao de olheiros de clubes que o Brasil costuma mandar jogadores apenas em livros de história. O Barcelona apareceu. E em janeiro de 2024, com dezoito anos, ele desembarcou em Barcelona com o peso de uma expectativa que não e para crianca.

Dezesseis jogos. Quatro gols. Numeros que o futebol europeu chama de insuficientes.

A lingua era um obstaculo. O estilo de jogo era outro. O Barcelona daquela temporada precisava de um tipo diferente de atacante, e o Tigrinho, acostumado a receber a bola em movimento, a criar no caos, se via engessado em um sistema que ele ainda não conseguia ler. Raphinha, companheiro de seleção, viu o garoto chorar no treino e ficou ao lado. Aquele detalhe diz mais sobre o momento do que qualquer relatorio tecnico.

Veio um emprestimo ao Real Betis. Mais alguns meses de adaptacao que não se completou. A Europa havia recebido o Tigrinho, mas não havia se importado muito com o que ele tinha a dizer.

A volta que não e derrota

Em fevereiro de 2025, o Palmeiras pagou vinte e cinco milhões e meio de euros para traz-lo de volta. Em um continente onde dinheiro flui em sentido contrario, a movimentacao chamou atencao. Alguns viram como fracasso. O jogador de vinte anos que a Europa devolveu.

O que aconteceu depois desmentiu essa leitura.

Vitor Roque terminou 2025 com vinte gols pelo Palmeiras. Dezesseis so no Brasileirão. Participou da conquista do titulo paulista de 2026. Acumula seis gols em 2026, mesmo atuando com restricao fisica apos uma lesao que o clube monitora com cuidado maximo. Entrou na lista de convocados da seleção brasileira. Tem dois jogos pela Canarinho e a Copa do Mundo no horizonte, em casa, pelo menos em parte do territorio nacional.

Ha algo no modo como ele joga que lembra o pai. Nao a posição, o Tigrinho virou centroavante faz tempo. Mas a intensidade, a disposição de entrar em disputa, o corpo que parece sempre pronto para o choque. Juvenal, o Tigrao de Timoteo, deve reconhecer algo quando assiste ao filho na televisao.

Vinte anos e o mundo pela frente

E facil romantizar trajetorias jovens. O futebol, especialmente o brasileiro, tem uma longa lista de garotos que brilharam cedo e desapareceram depois, consumidos por pressão, dinheiro, escolhas erradas, lesoes, a simples cruelidade do esporte. Vitor Roque tem vinte anos. Ainda e cedo para qualquer veredicto definitivo.

Mas ha sinais que merecem atencao além dos gols. A forma como ele lidou com o fracasso europeu sem se perder publicamente. A volta sem drama, sem declaracoes de revanche, apenas jogando. A maturidade de quem foi criado com oracao e trabalho em uma cidade de interior de Minas, filho de um volante que nunca chegou a ser profissional mas passou ao filho algo que os europeus não conseguiram apagar.

O apelido Tigrinho nasceu do pai e sobreviveu ao Barcelona. Isso ja diz alguma coisa.

Agora, com o Brasileirão 2026 comecando a ganhar forma e a Copa do Mundo chegando em junho, o Tigrinho esta onde sempre deveria estar: com a bola nos pes, dentro de campo, provando que a volta não foi derrota. Foi, talvez, o caminho mais direto para o que ele sempre foi.

Veja também: como o Armador de Jogadas acompanha a temporada do futebol brasileiro em 2026.

Lucas Andrade Jornalista Esportivo

Lucas Andrade tem 41 anos e nasceu em Belo Horizonte. É escritor antes de jornalista — publicou dois livros: Crônicas de Arquibancada (2019, pela Editora Leitura) e O Gol que Ninguém Viu (2022, indepe... Ler perfil completo

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