Raphinha saiu de campo no intervalo do amistoso entre Brasil e França com lesão no bíceps femoral. Cinco semanas fora. Jogos decisivos do Barcelona comprometidos. O presidente Joan Laporta chamou a situação de vergonha e cobrou a FIFA por um calendário que respeite os atletas.
A reação foi de indignação generalizada. Por dois dias.
Depois, todo mundo voltou a vender os direitos do próximo torneio.
A pergunta que ninguém faz depois da indignação
Toda vez que um jogador importante se machuca numa Data FIFA, o ciclo é o mesmo. Dirigente de clube reclama. Técnico lamenta. Imprensa publica nota de repúdio. FIFA responde com um comunicado sobre diálogo e compromisso. E o calendário do ano seguinte sai com mais jogos do que o anterior.
O problema não é que ninguém percebe o absurdo. É que todo mundo percebe e ninguém para nada, porque todos ganham com o volume. FIFA ganha com mais janelas comerciais. Clubes ganham com mais jogos em casa. Federações ganham com cotas de transmissão. Patrocinadores ganham com mais exposição.
O único que não ganha é o jogador. Que corre, que machuca, que passa cinco semanas fazendo fisioterapia enquanto os outros contabilizam receita.
Os dados do calendário brasileiro mostram o mesmo padrão
O problema não é só europeu. O Campeonato Brasileiro de 2026 teve início antecipado para 28 de janeiro, pela primeira vez em décadas, e só termina em 2 de dezembro. São quase 11 meses de competição, sobrepostos aos estaduais, Copa do Brasil, Libertadores e Datas FIFA.
O resultado é previsível. O Corinthians registrou em apenas três meses de 2026 cerca de 46% do total de lesões musculares de temporadas inteiras anteriores. O Botafogo liderou o ranking de baixas médicas da Série A em 2025, com 55 lesões, aumento de mais de 50% em relação ao ano anterior. O próprio elenco do Corinthians, citado como justificativa para a demissão de Dorival Júnior, sofreu mais de dez desfalques por contusão durante a temporada.
Ninguém conectou esses pontos publicamente. A narrativa foi: o técnico não conseguiu extrair o potencial dos jogadores. A realidade foi: os jogadores não tinham corpo para dar o que se esperava deles.
O mercado inventou um problema e vendeu a solução
Vamos combinar uma coisa: o futebol não ficou mais intenso por acidente. Ficou porque foi desenhado para ser assim.
A FIFA criou o novo Mundial de Clubes com 32 equipes, que acontece em 2025 e segue no calendário. A UEFA expandiu a Champions League para mais rodadas na fase de liga. A CBF antecipou o início do Brasileirão. As federações estaduais não abriram mão dos estaduais. Cada instituição protegeu seu território e somou jogos ao calendário como se o corpo humano não tivesse limite.
Os clubes europeus reclamam das Datas FIFA porque perdem jogadores para as seleções. As seleções reclamam dos clubes porque os atletas chegam cansados ou machucados. Os jogadores ficam no meio, sem poder recusar uma convocação e sem poder ignorar um jogo do campeonato nacional.
O problema real é que nenhum dos lados quer abrir mão de nada. Laporta gritou contra a FIFA, mas o Barcelona não dispensou nenhuma janela comercial em 2026. A CBF falou em proteger os atletas, mas não reduziu uma rodada sequer do Brasileirão.
O jogador como produto descartável
Existe uma lógica no futebol profissional que raramente é dita em voz alta: jogador lesionado é custo, não receita. O clube paga o salário, paga a fisioterapia, perde a performance em campo e vê o valor de mercado do atleta cair. Para o jogador, uma lesão muscular recorrente pode encurtar a carreira em anos.
No Brasil, a situação é agravada pela qualidade dos gramados. Enquanto as grandes ligas europeias investem em tecnologia de manutenção de campo, o futebol brasileiro ainda convive com estádios que oferecem superfícies irregulares, especialmente nas primeiras rodadas do ano, quando o solo está encharcado pelos estaduais.
Ninguém fala sobre isso nas reuniões de calendário. Fala-se em datas, em janelas, em cotas. O gramado é detalhe técnico. A lesão do jogador é fatalidade do esporte.
A solução existe e é simples. É só impopular
Reduzir o número de jogos. É simples assim.
Isso significa que alguma competição precisa encolher ou desaparecer. No Brasil, os campeonatos estaduais são candidatos óbvios. Com exceção de Paulista, Carioca, Gaúcho e Mineiro, os demais têm audiência e relevância decrescentes, e ainda assim consomem semanas do calendário de fevereiro e março. Os clubes grandes entram com times alternativos porque sabem que o campeonato estadual não paga o custo que representa.
Mas as federações estaduais não abrirão mão das cotas de transmissão. Os clubes menores não abrirão mão dos jogos contra os grandes, que encheram seus cofres. E os canais de TV não abrirão mão do conteúdo barato.
Então o calendário permanece. As lesões aumentam. Os técnicos são demitidos por não conseguirem resultados com elencos desmontados pela fisioterapia. E todo mundo lamenta mais um jogador saindo de campo amparado pelos companheiros.
A pergunta que Laporta não fez
Laporta chamou a lesão de Raphinha de vergonha. É uma palavra forte e correta. Mas a vergonha não está só na FIFA.
Está nos clubes que cobram por cada jogo do pré-temporada. Nos patrocinadores que exigem presença dos atletas em ações de marketing entre rodadas. Nas federações que incluem mais uma taça no calendário a cada dois anos. No sistema inteiro que trata o jogador como gerador de conteúdo, não como trabalhador com limite físico.
Raphinha vai se recuperar. Vai voltar a jogar. E na próxima Data FIFA, estará de volta à Seleção, porque é profissional e porque ama jogar pelo Brasil. O calendário estará lá esperando, com mais jogos do que o ano anterior.
Ninguém vai cancelar nada. Mas ao menos poderíamos parar de fingir surpresa quando o próximo jogador sair carregado do campo.
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