O Brasileirão 2026 tem dez rodadas e dez técnicos demitidos. Isso não é sinal de crise. É o futebol brasileiro funcionando exatamente como foi programado para funcionar.
Não existe nada de errado no sistema. Esse é o sistema.
Por que ninguém fala do modelo que produz isso?
A cada demissão, a narrativa é sempre a mesma: o treinador perdeu o grupo, os resultados não vieram, o clube precisava de uma mudança de ares. Dorival Júnior caiu no Corinthians depois de nove jogos sem vencer. Filipe Luís foi embora do Flamengo após a goleada sobre o Madureira por 8 a 0. Sim, você leu certo: uma goleada de 8 a 0 e o técnico foi demitido semanas depois por falta de resultados. Tite no Cruzeiro. Sampaoli no Atlético-MG. Diniz no Vasco. Dez nomes, dez episódios.
Mas ninguém faz a pergunta que realmente importa: o que esse ciclo constante de demissões resolve?
A resposta é simples: nada. Mas move dinheiro, cria narrativa e dá ao torcedor a sensação de que algo está sendo feito. É gestão de ilusão, não de futebol.
Os dados não sustentam a troca de técnico como solução
O futebol europeu tem estudos consistentes sobre isso. Um levantamento realizado pela Universidade de Amsterdam com dados de ligas profissionais ao longo de 15 anos mostrou que, em média, clubes que trocam de técnico em crise apresentam melhora de desempenho de apenas dois jogos. Depois, voltam ao nível anterior. O chamado efeito novo treinador é real e dura pouco.
No Brasil, não temos nem essa pesquisa. Contratamos na raiva, demitimos na raiva, e chamamos isso de gestão esportiva.
O Corinthians terminou a temporada 2024 com resultados medíocres. Contratou Dorival, que vinha de um título pela Seleção Brasileira na Copa América. Deu a ele nove meses, tolerou seis meses de inconsistência, e demitiu depois de uma sequência ruim em plena fase inicial do campeonato. O problema real, o elenco desequilibrado e a dívida bilionária que compromete as contratações, continua exatamente onde estava.
Os clubes preferem o sacrifício simbólico ao diagnóstico real
Demitir o técnico é um gesto de gestão de imagem, não de futebol. O diretor esportivo que montou o elenco errado fica. O CEO que aprovou o orçamento inviável fica. O conselho que vendeu jogadores-chave no meio da temporada fica. O treinador vai embora.
Sampaoli foi demitido do Atlético-MG em fevereiro. Antes dele, o clube havia vendido peças importantes e reduzido drasticamente o elenco por pressão financeira. Vojvoda caiu no Santos depois que o clube, recém-promovido, contratou Memphis Depay com salário incompatível com o resto do plantel e criou um desequilíbrio interno que nenhum treinador do mundo resolveria em três meses.
O técnico não é a variável principal. Mas é a mais fácil de controlar. É o bode expiatório perfeito: tem rosto, tem nome, tem salário alto o suficiente para justificar a indignação.
Essa prática está destruindo a identidade dos clubes
Existe algo que os maiores clubes europeus têm em comum: tempo. O Liverpool de Klopp levou quatro anos para ganhar a Premier League. O Manchester City de Guardiola demorou dois anos para mostrar todo o seu potencial. O Bayer Leverkusen de Xabi Alonso levou uma temporada e meia construindo um modelo de jogo antes de ganhar o Campeonato Alemão invicto.
No Brasil, a média de permanência de um técnico na Série A é inferior a seis meses. Seis meses. Nesse período, um treinador mal consegue ensinar o posicionamento defensivo básico ao elenco, quanto mais criar uma identidade de jogo reconhecível.
O resultado é o que assistimos toda semana: times sem ideia clara, jogadores sem referência, partidas decididas mais pelo erro do adversário do que por algum projeto coletivo. O futebol brasileiro está se tornando o campeonato do improviso institucionalizado.
E sabe quem perde com isso? O torcedor. Que paga ingresso, paga streaming, paga camisa, e assiste a uma competição onde os protagonistas mudam toda semana por decisão de dirigentes que, esses sim, nunca saem.
A conclusão que o futebol brasileiro não quer ouvir
Dez técnicos em dez rodadas não é uma anomalia. É o espelho de um modelo de gestão que nunca foi responsabilizado.
Enquanto os clubes continuarem tratando o técnico como fusível, a conta vai ser paga sempre pelos mesmos: os treinadores que aceitam esse ambiente porque precisam trabalhar, os jogadores que não conseguem se desenvolver porque o método muda a cada dois meses, e o torcedor que financia tudo isso e recebe em troca uma competição sem identidade, sem continuidade e sem vergonha de si mesma.
O Brasileirão 2026 vai acabar com algum campeão. Mas nenhum clube vai aprender nada. No ano que vem, teremos a mesma contagem: rodada um, demissão um. Rodada dois, demissão dois.
A não ser que alguém comece a cobrar os dirigentes com a mesma ferocidade com que cobram os técnicos. Mas isso, no futebol brasileiro, ainda parece utopia.
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