Em dezembro de 2025, o Mirassol encerrava uma das campanhas mais surpreendentes da história recente do Brasileirão. Quarto lugar, 67 pontos, vaga na Libertadores. Um clube do interior paulista sem tradição na elite chegou mais longe do que qualquer projeção havia indicado no início do ano.
Em abril de 2026, o mesmo Mirassol está na lanterna do Brasileirão com seis pontos em dez rodadas e dez jogos consecutivos sem vencer. A queda é a mais abrupta do campeonato neste início de temporada. Entender o que mudou é entender o que havia sustentado a campanha histórica.
O que construiu o quarto lugar de 2025
O Mirassol de 2025 foi construído sobre dois pilares que se reforçavam mutuamente. O primeiro era a coesão coletiva: um grupo com tempo de trabalho longo junto, que entendia o modelo de Rafael Guanaes de forma automática. Os posicionamentos, as coberturas, os momentos de pressing, tudo funcionava por repetição e entendimento mútuo.
O segundo pilar era a forma individual de grandes partes do grupo. Jogadores que renderam acima da média em 2025, em sintonia com o coletivo, produziram uma temporada que foi maior do que a soma das partes.
O modelo tático de Guanaes é organizado e pragmático. Bloco médio-baixo sem bola, transições rápidas após recuperação, amplitude pelos flancos e verticalização direta para os atacantes. Não é um futebol elaborado de posse. É um futebol de eficiência, que funciona quando o grupo executa com convicção.
Os 14 jogadores que saíram
Após a temporada histórica, o Mirassol perdeu 14 jogadores. Isso não é rotatividade normal. É desmanche de elenco. Os jogadores que mais contribuíram para o quarto lugar foram exatamente os que o mercado buscou após a campanha excepcional.
A lógica é conhecida: clube pequeno tem campanha boa, jogadores ficam expostos, chegam propostas, clube não tem poder de segurar todos. O que havia sido construído em meses de trabalho coletivo se dissolve em semanas de janela de transferências.
As reposições foram feitas com jogadores de nível razoável para a Série A, mas sem o tempo de convívio e sem o entendimento do modelo que os titulares de 2025 tinham. O resultado é um time que sabe teoricamente o que fazer, mas não executa com a automaticidade que o modelo de Guanaes exige.
O que os números revelam
Seis pontos em dez rodadas, média de 0,6 por jogo. O Mirassol venceu dois jogos e perdeu sete. A defesa cedeu mais de 1,5 gols por partida, o que contrasta diretamente com o modelo de bloco compacto que havia sustentado a campanha de 2025.
O time sem bola está desorganizado. Os espaços entre as linhas que o bloco médio-baixo deveria fechar estão abertos. Os adversários encontram progressão pelo centro com facilidade porque os jogadores novos ainda não têm as referências de posicionamento que os titulares de 2025 tinham automaticamente.
Dez jogos sem vencer é o dado mais revelador. Não são apenas resultados ruins. É uma sequência que indica que o time não está próximo de reverter o quadro com os recursos atuais.
Rafael Guanaes e o limite do modelo sem elenco
Guanaes é um dos treinadores mais reconhecidos do futebol brasileiro no trabalho com equipes de menor orçamento. A campanha de 2025 foi seu melhor trabalho e evidenciou a capacidade de extrair o máximo de um grupo coeso.
O problema de 2026 não é o modelo nem o treinador. É que o modelo de Guanaes, como qualquer modelo tático dependente de coesão, precisa de tempo de trabalho conjunto para funcionar. Com 14 jogadores novos, esse tempo não existiu antes do início do campeonato.
A Libertadores adicionou complexidade. Com jogos internacionais simultâneos ao Brasileirão, o Mirassol entrou na temporada com calendário mais denso do que estava habituado, o que reduziu ainda mais o tempo de treinamento com o grupo reformado.
O paralelo com outros colapsos do campeonato
O Mirassol de 2026 é o espelho invertido do Botafogo: times que dependiam de coesão coletiva e identidade tática, que perderam essa identidade por razões diferentes, e que pagam o mesmo preço nos resultados. O Botafogo perdeu a identidade quando trocou de modelo com o mesmo elenco. O Mirassol perdeu a identidade quando trocou o elenco sem tempo de reconstruir o modelo.
A diferença é que o Botafogo tem orçamento para contratar treinador que conhece os jogadores e tentar reacender o que foi apagado. O Mirassol não tem esse luxo. Com 28 rodadas pela frente e precisando de uma recuperação consistente para sair da zona de rebaixamento, o prazo para o modelo de Guanaes se fixar nos novos jogadores é curto.
O Brasileirão 2026 já mostrou que os times promovidos enfrentam dificuldade de adaptação à elite. O Mirassol não é promovido, mas enfrenta um problema estruturalmente similar: um elenco que não conhece o modelo o suficiente para executá-lo com automaticidade. O campeonato pune essa lacuna sem distinção de história recente.