O Botafogo foi campeão da Libertadores e do Brasileirão em 2024. É o fato mais recente e mais relevante da história moderna do clube. Em abril de 2026, o mesmo clube estava na 17ª posição com seis pontos em oito rodadas, dentro da zona de rebaixamento, e havia demitido o segundo treinador do ano.
O intervalo entre o título e a crise foi de quatro meses. Martín Anselmi chegou para a temporada, acumulou nove derrotas em 18 jogos e saiu. Franclim Carvalho, que integrou a comissão técnica campeã como auxiliar de Artur Jorge em 2024, é o nome escolhido para reconstruir.
O que aconteceu com o modelo campeão
Artur Jorge deixou o Botafogo para assumir o Al Ahli após o bicampeonato. Com ele, saiu a comissão técnica que havia construído a identidade de pressing alto, transições verticais e compactação defensiva que funcionou ao longo de 2024.
Anselmi chegou com proposta diferente. O argentino, ex-Porto, prefere um modelo mais posicional, com posse elaborada e organização no campo próprio. A transição de um estilo para outro em um elenco acostumado a um modelo específico é sempre de risco. No Botafogo, o risco se materializou.
O elenco que venceu a Libertadores e o Brasileirão foi treinado para pressionar alto, recuperar rápido e transitar com velocidade. Anselmi pediu para o mesmo grupo circular a bola com paciência e construir pelo campo próprio. Os jogadores entraram em campo sem a convicção que o modelo anterior havia criado. A indefinição tática gerou resultados inconsistentes.
Os números que revelam o colapso
Seis pontos em oito rodadas. Três vitórias, zero empates, cinco derrotas. Pior defesa do campeonato nas rodadas com Anselmi. O Botafogo cedia em média mais de um gol e meio por partida, número incompatível com qualquer aspiração de saída da zona de rebaixamento.
A questão não era talento individual. O elenco do Botafogo tem jogadores que foram campeões continentais há pouco mais de um ano. A questão era o modelo. Um time que não sabe o que fazer sem a bola e não tem certeza do que fazer com ela é um time vulnerável independente da qualidade individual dos jogadores.
Franclim Carvalho: continuidade ou ruptura?
Franclim Carvalho tem 38 anos e construiu a trajetória como auxiliar. Trabalhou com Artur Jorge no Braga, no Al Rayyan e no Botafogo campeão de 2024. Conhece 11 dos jogadores do elenco atual, os mesmos com quem trabalhou como auxiliar no bicampeonato.
Essa familiaridade é um ativo. Não precisará de rodadas de adaptação para entender o perfil dos jogadores. A questão é se vai propor um retorno ao modelo de pressão alta que o elenco conhece, ou se vai construir uma identidade própria diferente tanto do modelo de Artur Jorge quanto do de Anselmi.
A vitória do interino Bellão sobre o Vasco por 2 a 1, antes da chegada oficial de Franclim, foi construída com características do modelo antigo: pressing em campo adversário e transição rápida após recuperação. O placar foi justo, e o Botafogo saiu da zona de rebaixamento provisoriamente com nove pontos.
O paradoxo do campeão rebaixável
O Botafogo não é o primeiro time a viver essa contradição. No futebol brasileiro, o campeão do ano anterior raramente defende o título com a mesma estrutura. A saída de treinadores, a partida de jogadores chave para ligas estrangeiras e a queda de intensidade após conquistas históricas são padrões conhecidos.
O que torna o caso do Botafogo específico é a velocidade do colapso. Quatro meses entre o título continental e a zona de rebaixamento. Essa velocidade só é explicada por uma troca de modelo mal gerida, não por deterioração natural de elenco.
O Brasileirão 2026 já documentou que o modelo sem adequação ao elenco é o principal fator de demissão. O Botafogo é o caso mais extremo: um elenco campeão aplicando um modelo para o qual não foi treinado.
O que Franclim precisa fazer nos primeiros jogos
A primeira tarefa de Franclim não é tática. É de restauração de identidade. O elenco precisa saber o que o clube espera coletivamente quando tem a bola e quando não tem. Essa clareza foi o que Artur Jorge construiu ao longo de 2024 e o que Anselmi não conseguiu estabelecer.
Franclim estreia pelo Botafogo na Libertadores, contra o Caracas, antes de voltar ao Brasileirão. É um teste com pressão menor que os jogos do campeonato nacional, mas que vai revelar rapidamente se o elenco responde ao novo comando com a intensidade que o modelo antigo exigia.
Artur Jorge, que treinou o Botafogo campeão e agora trabalha no Cruzeiro, tem o Glória de saber que o modelo que construiu no Nilton Santos era sólido o suficiente para sobreviver um ano sem ele. A questão agora é se Franclim, seu ex-auxiliar, consegue reacendê-lo com o mesmo elenco.