Data Drop 2026-04-06 5 min de leitura

O Brasileirão 2026 comete menos faltas. Mas 34% delas são perto do gol.

Pedro Nakamura
Jornalista Esportivo

O Brasileirão 2026 registra 1 falta a cada 3,1 minutos de jogo, uma por cada 186 segundos, em média. São 29,2 faltas por partida nas primeiras 10 rodadas, o menor índice desde 2015 (28,7). O futebol brasileiro está cometendo menos faltas. E, ao mesmo tempo, os dados mostram que as faltas estão sendo cometidas em regiões mais perigosas do campo: 34% das faltas acontecem no terço ofensivo, contra 28% em 2022 e 26% em 2019.

Menos faltas no total, mais faltas perto do gol. Esse é o perfil do Brasileirão 2026, e ele tem consequências diretas na distribuição de cobranças de falta e no xG gerado por bola parada.

O dado de entrada é simples: o time mais faltoso do campeonato em 2026 não é o pior colocado, e o menos faltoso não é o líder. A relação entre volume de faltas e desempenho é mais sutil do que parece.

Os times mais e menos faltosos, e onde erram

Time Faltas/jogo % no terço ofensivo Faltas perigosas (30m)
Athletico-PR 34,1 31% 11
Vasco 33,4 29% 10
Fortaleza 31,2 38% 12
Atlético-MG 30,8 41% 13
Flamengo 27,4 36% 10
Palmeiras 26,9 39% 11
Fluminense 23,1 22% 5

O dado mais revelador da tabela não é o volume, mas a localização. O Atlético-MG comete menos faltas do que Athletico-PR e Vasco, mas 41% das suas faltas são no terço ofensivo, o maior índice do campeonato. Isso significa que o Atlético perde a bola alto no campo adversário e faz falta para recuperar, o que é característico de pressing alto. Essas faltas perto da área adversária geram cobranças de falta diretas ou indiretas perigosas para o adversário receber, mas de pouco risco para o próprio Atlético.

O Fluminense, por outro lado, é o time com menos faltas totais (23,1 por jogo) e com a menor proporção no terço ofensivo (22%). O time comete pouquíssimas faltas, mas quando comete, é perto da própria área. Resultado: 5 cobranças de falta em posição perigosa cedidas em 10 rodadas, o menor número do campeonato.

Faltas e bola parada: a ligação direta com gols

O artigo sobre bola parada publicado anteriormente no Portal Armador mostrou que ela responde por uma parcela relevante dos gols do Brasileirão. As faltas são o insumo principal desse sistema: 61% dos gols de bola parada no Brasileirão 2026 saíram de cobranças de falta direta ou indireta, o restante dividido entre escanteios e pênaltis.

Com 34% das faltas acontecendo no terço ofensivo em 2026, e esse índice crescendo ano a ano (26% em 2019, 28% em 2022, 31% em 2024), o campeonato está gerando cada vez mais situações de bola parada em posição ofensiva. Times com bons cobradores de falta têm, portanto, vantagem crescente no Brasileirão, uma vantagem que não aparecia com tanta clareza quando as faltas eram mais distribuídas pelo campo.

Quem mais converte faltas em gols

Dos 10 gols de falta direta nas primeiras 10 rodadas, 4 foram do Atlético-MG, todos cobrados por Scarpa ou Arrascaeta em dias que o craque rubro-negro estava em campo adversário. O Flamengo soma 2 gols de falta direta, o Palmeiras 2, e os demais 2 gols estão distribuídos entre outros times.

A concentração é notável: Atlético-MG e Flamengo somam 6 dos 10 gols de falta direta do campeonato, com apenas 2 dos 20 times. Isso reflete tanto a presença de cobradores de elite (Scarpa, Arrascaeta, De la Cruz) quanto o volume de faltas recebidas em posição favorável, ambos os times lideram em faltas sofridas no terço ofensivo adversário, exatamente a região de onde saem cobranças diretas perigosas.

A falta estratégica: quando cometer é tática

O dado que mais cresceu nos últimos anos é o de faltas táticas, infrações cometidas intencionalmente para interromper transições adversárias. Em 2026, 38% das faltas do campeonato são classificadas como táticas pelos analistas de dados (definidas como faltas cometidas nos 6 segundos após perda de bola, a menos de 30 metros do gol próprio). Em 2019, esse índice era de 29%.

O crescimento das faltas táticas é consequência direta do aumento de times que jogam com bloco compacto e transição rápida. Quando um time perde a bola e o adversário parte para o contra-ataque, a falta tática se tornou o mecanismo padrão de reset defensivo no futebol brasileiro moderno. O custo, cartão amarelo, é considerado menor do que o risco de um contra-ataque concluído.

O que os números dizem

O Brasileirão 2026 comete menos faltas por jogo do que em qualquer temporada desde 2015, mas 34% delas acontecem no terço ofensivo, o maior índice histórico. Athletico-PR e Vasco lideram em volume total; Atlético-MG e Fortaleza lideram em concentração ofensiva. O Fluminense comete o menor número de faltas perigosas do campeonato, 5 em 10 rodadas, mas está na zona de rebaixamento. O dado confirma que o volume de faltas por si só não explica desempenho. A localização das faltas, e quem as cobra, é o número que importa.

Referências: CBF Estatísticas, Sofascore faltas Brasileirão 2026, FBref histórico 2015-2026. Veja também: Cartões: quem faz mais falta não leva mais cartão e Gols nos acréscimos: 1 em cada 5 jogos decidido no fim.

Pedro Nakamura Jornalista Esportivo

Pedro Nakamura tem 30 anos e é paulistano, filho de mãe brasileira e pai japonês. Formado em Engenharia de Dados pela USP, trabalhou 4 anos na IBM antes de perceber que passava mais tempo analisando p... Ler perfil completo