Cartões: quem faz mais falta não leva mais cartão
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Data Drop 2026-04-06 4 min de leitura

Cartões: quem faz mais falta não leva mais cartão

Pedro Nakamura
Jornalista Esportivo

84 cartões amarelos em 9 rodadas. A média do Brasileirão 2026 é de 9,3 cartões por rodada, 12% acima da média das últimas três edições (8,3 por rodada). Mas o dado que os números revelam vai na direção contrária da intuição: o time com mais faltas cometidas não é o mesmo que lidera o ranking de cartões.

Mais punições com menos faltas

Até a rodada 10, o Sport Recife lidera em faltas cometidas com 147 ao longo das 9 primeiras rodadas, uma média de 16,3 por jogo. No entanto, o Sport acumula apenas 11 cartões amarelos, ocupando o 11o lugar nessa classificação.

Quem lidera os cartões é o Atlético-GO com 19 amarelos, mesmo cometendo 121 faltas, 26 a menos que o Sport. A correlação entre falta e cartão, no Brasileirão 2026, está mais baixa do que em qualquer edição recente.

Para medir isso com precisão, o índice mais útil é a razão falta por cartão: quantas infrações um time precisa cometer para receber uma punição. Quanto menor o número, mais "caro" é cada falta para aquele time.

TimeFaltas cometidasCartões amarelosRazão falta/cartão
Sport Recife1471113,4
Bahia1391310,7
Bragantino1341211,2
Atlético-GO121196,4
Fluminense118176,9
Vasco116167,3

O Sport precisa de 13,4 faltas por cartão. O Atlético-GO leva cartão a cada 6,4 faltas, duas vezes mais punitivo para o mesmo volume de jogo duro. Isso não é coincidência. É padrão.

O que explica essa diferença

Três variáveis moldam esse índice. A primeira é o posicionamento em campo na hora da falta: faltas em zonas de pressão alta, próximas ao campo ofensivo adversário, recebem cartão em 34% dos casos no Brasileirão 2026. Faltas no campo defensivo, longe do gol, apenas 14%.

O Sport joga em bloco baixo e comete a maioria das faltas no próprio campo. O Atlético-GO pressiona mais alto e falta com frequência no meio-campo adversário, zona que o árbitro avalia como mais perigosa para o jogo e pune com mais rigor.

A segunda variável é o histórico do jogador com o árbitro dentro da mesma partida. Jogadores que já foram advertidos uma vez recebem o segundo cartão com uma falta que, isolada, não seria punida. Esse efeito acumulativo responde por 22% dos amarelos da competição, acima dos 18% registrados em 2024.

A terceira, e menos óbvia, é o perfil de transição do time. Times que transitam mais rápido para o ataque geram mais situações de contra-ataque interrompido por falta, que são punidas com muito mais frequência do que faltas em posse organizada. O Atlético-GO registra a quarta maior taxa de transições rápidas do campeonato, com 14,2 por jogo.

Os jogadores mais advertidos

Individualmente, o volante Willian Maranhão (Atlético-GO) lidera com 5 cartões amarelos em 9 jogos, uma média de 0,56 por partida. Se mantiver esse ritmo por uma temporada completa de 38 rodadas, chegará a 21 amarelos. Isso é 40% acima do nível histórico que jogadores de mais alto risco costumam atingir nos campeonatos europeus de referência.

JogadorTimeJogosCartõesMédia por jogo
Willian MaranhãoAtlético-GO950,56
Lucas BeraldoSão Paulo840,50
PatrickSport840,50
Rodrigo CaioVasco940,44
Caio AlexandreBahia940,44

Lucas Beraldo, aos 22 anos, aparece na segunda posição com média de 0,50 cartões por jogo. Para um zagueiro que atua em um clube que pressiona alto e precisa sair jogando, esse índice é preocupante. Cada suspensão automática por acumulação no Brasileirão custa 1 jogo, e um zagueiro suspenso em sequência pode afetar toda a construção defensiva do time.

O Brasileirão 2026 é mais violento ou os árbitros estão mais rigorosos?

Os 9,3 cartões por rodada ficam 12% acima da média recente. Mas o número de faltas por rodada (161,4) está apenas 3% acima da média histórica (156,8). O dado é claro: a taxa de punição subiu mais do que a taxa de infração.

Uma hipótese é o impacto do VAR no comportamento dos árbitros de campo. Com a revisão de lances disponível, árbitros passaram a punir com mais frequência faltas que antes eram absorvidas como "norma do jogo". O índice de cartões revisados por VAR em 2026 é de 7%, o mais alto da história da competição.

Outra hipótese é o calendário comprimido. Com datas FIFA concentradas, times jogaram 9 rodadas em 62 dias, uma média de 6,9 dias entre jogos. Quanto menor o intervalo, maior a fadiga muscular e maior a tendência de falhas de controle que resultam em infração mais brusca. Fadiga também reduz a capacidade do jogador de calcular o risco da falta antes de cometê-la.

As duas hipóteses se somam e explicam o aumento. Não são excludentes. O Brasileirão 2026 está num ponto em que calendário, VAR e perfil de jogo dos times se combinam para produzir mais cartões sem necessariamente mais faltas.

O que os números dizem

A correlação entre falta e cartão no Brasileirão 2026 está no menor patamar recente. O Sport falta 26 vezes mais que o Atlético-GO e leva quase metade dos cartões. Zona da falta, histórico na partida e perfil de transição explicam a diferença. Árbitros punindo mais por falta, calendário encurtando intervalos e VAR alterando o padrão de decisão no campo. O jogo mudou, os dados mostram isso antes de qualquer análise verbal.

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Pedro Nakamura Jornalista Esportivo

Pedro Nakamura tem 30 anos e é paulistano, filho de mãe brasileira e pai japonês. Formado em Engenharia de Dados pela USP, trabalhou 4 anos na IBM antes de perceber que passava mais tempo analisando p... Ler perfil completo