Cuca no Santos: quarto mandato, crise real, ajuste possível
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Leitura Tatica 2026-04-06 4 min de leitura

Cuca no Santos: quarto mandato, crise real, ajuste possível

Rafael Teixeira
Jornalista Esportivo

Em 19 de março de 2026, o Santos demitiu Juan Pablo Vojvoda e anunciou Cuca horas depois. O clube estava na 16ª posição com seis pontos em sete rodadas, um ponto acima da zona de rebaixamento. Era a sétima troca de técnico no Brasileirão naquele momento.

Cuca assumia pela quarta vez na carreira, após passagens em 2008, 2018 e 2020/21. A velocidade da contratação, menos de 24 horas entre as duas decisões, sinalizava urgência. O diagnóstico da diretoria era claro: o modelo de Vojvoda não se adaptou ao elenco disponível.

O que falhou com Vojvoda

Vojvoda chegou ao Santos com o mesmo modelo que havia construído no Fortaleza, um dos trabalhos mais consistentes do futebol brasileiro dos últimos anos. No Leão, o sistema de pressão intensa em campo alto e as linhas adiantadas funcionaram porque o elenco tinha atletas com perfil físico específico para sustentar aquele volume de corrida.

No Santos, o elenco tem características diferentes. Neymar, quando disponível, opera melhor em sistemas mais verticais e com espaços para receber em posições adiantadas. A pressão alta organizada de Vojvoda exige que os atacantes trabalhem muito sem bola, papel que o camisa 10 não executa com a mesma eficiência que outros perfis.

O resultado foi um time que tentava pressionar alto mas cedia transições porque os atacantes não cobriam os corredores de saída do adversário. Seis gols sofridos em sete rodadas, média de 0,86 por jogo, não é catastrófico, mas combinado com apenas seis gols marcados revelava um modelo que não gerava superioridade ofensiva suficiente.

O modelo de Cuca: organização sem complicação

Cuca é reconhecido por montar times organizados, pragmáticos e eficientes em situações de pressão. Não é um treinador que propõe futebol de posse elaborado nem pressing de alta intensidade. O modelo dele é um 4-2-3-1 ou 4-4-2 de bloco médio que defende compacto e explora transições diretas para os pontas.

Esse perfil se encaixa melhor com o elenco do Santos do que o modelo de Vojvoda. Os dois volantes no bloco médio cobrem os corredores centrais sem exigir que os atacantes trabalhem tanto sem bola. Neymar recebe numa posição mais adiantada, onde pode fazer a diferença com um ou dois toques.

Gabriel Brazão, goleiro do Santos, explicou a adaptação: novos comportamentos dentro de campo, novos movimentos. A diferença não é apenas de formação. É de princípios de jogo, de onde o time pressiona, de como posiciona as linhas. A adaptação toma rodadas.

Os primeiros resultados sob Cuca

Reestreia na oitava rodada: empate em 0 a 0 com o Cruzeiro no Mineirão. Resultado defensivamente correto, sem risco, mas sem criação. O time saiu da zona de rebaixamento para a 15ª posição com sete pontos.

Rodada seguinte: vitória por 2 a 0 sobre o Remo na Vila Belmiro. Cuca avaliou a atuação com ressalvas: o início foi marcado por nervosismo e falta de confiança, mas o gol no primeiro tempo organizou o time. No segundo tempo, o Santos controlou com mais segurança. É o padrão de um time que ainda está aprendendo os movimentos do novo modelo.

Neymar estava ausente nas duas partidas. O dado é relevante porque o modelo de Cuca foi montado com o jogador como peça central do sistema ofensivo. Sem ele, o Santos tem menos profundidade individual para resolver jogos difíceis.

O problema que não muda com a troca de treinador

Cuca chega com experiência e pragmatismo. Mas a troca de treinador não resolve o problema estrutural do Santos em 2026: o elenco tem qualidade individual em alguns setores, mas não tem equilíbrio em termos de perfil.

Times que saem de crises de rebaixamento geralmente fazem isso com dois elementos: um sistema tático claro que todo o elenco entende e executa, e um ou dois jogadores que fazem a diferença individualmente nos momentos decisivos. O Santos tem o potencial do segundo elemento com Neymar quando disponível. O primeiro elemento está sendo construído por Cuca.

O Brasileirão 2026 já demitiu dez treinadores em dez rodadas, e o padrão mostra que a troca por si só não resolve: o que resolve é encontrar o modelo adequado ao elenco. Vojvoda não encontrou. Cuca tem histórico de encontrar essa adequação rapidamente, mas o calendário não espera. Com 28 rodadas pela frente e o clube saindo da zona por margem de um ponto, o processo precisa ser acelerado.

O que Cuca precisa confirmar nas próximas rodadas

Há três pontos específicos que vão definir se o Santos consegue se estabilizar acima da zona de rebaixamento. O primeiro é a regularidade defensiva. Zero gols sofridos em dois jogos com Cuca é dado positivo, mas os adversários foram Cruzeiro e Remo. Os testes mais exigentes virão nas próximas semanas.

O segundo é a integração de Neymar ao modelo. Quando o camisa 10 retornar, Cuca precisará posicioná-lo de forma que ele contribua sem desorganizar o bloco defensivo do time.

O terceiro é a consistência fora de casa. A vitória sobre o Remo foi na Vila Belmiro. O empate com o Cruzeiro foi no Mineirão, resultado aceitável mas insuficiente para um time que precisa pontuar em todas as frentes. O Vasco de Renato Gaúcho mostrou que invencibilidade com defesa exposta tem prazo de validade. O Santos precisa de solidez, não apenas de resultados.

Rafael Teixeira Jornalista Esportivo

Rafael Teixeira tem 34 anos e nasceu em Goiânia. Formado em Educação Física pela UFG, trabalhou como analista de performance no Goiás EC entre 2018 e 2022, onde participou do acesso à Série A em 2018.... Ler perfil completo