Barcelona x Atlético: como Flick tenta quebrar Simeone
Foto: UEFA/Getty Images
Prancheta 2026-04-06 5 min de leitura

Barcelona x Atlético: como Flick tenta quebrar Simeone

Rafael Teixeira
Jornalista Esportivo

O Barcelona chega ao primeiro jogo das quartas com 19 gols marcados nos últimos quatro jogos em casa pela Champions League. O Atlético de Madrid concede 0.8 gols por partida na temporada. O confronto desta quarta-feira, no Spotify Camp Nou, coloca o ataque mais produtivo da competição contra uma das defesas mais organizadas da Europa.

Primeiro jogo: 8 de abril, Camp Nou, 21h CET. Segundo jogo: 14 de abril, Metropolitano. O Atlético chega à eliminatória sem Jan Oblak, Pablo Barrios e Rodrigo Mendoza, todos lesionados. O Barcelona perde Raphinha, com problema muscular.

Os sistemas

Hansi Flick mantém o 4-2-3-1, mas com uma característica que o diferencia da maioria dos times europeus: os dois pivôs, Eric García e Pedri, têm funções de construção, não de destruição. O sistema exige que os laterais, Koundé e Cancelo, subam em diagonal para ampliar o campo e criar superioridade numérica nas meias-luas. A média de 69.2% de posse e 666 passes por jogo é consequência direta dessa estrutura.

O Atlético de Simeone passou por uma mudança no início da temporada. O bloco baixo com transições rápidas ainda está presente, mas a equipe aceita ter mais posse, chegando a 55% em algumas partidas. O 4-4-2 compacto em fase defensiva coexiste agora com um 4-3-3 em fase ofensiva, com Griezmann saindo da segunda linha para aparecer nas costas dos zagueiros adversários.

O ponto de tensão: Yamal contra Llorente

Lamine Yamal marcou gol nos três últimos jogos do Barcelona pela Champions. O extremo de 18 anos opera principalmente pelo lado direito do ataque catalão, onde enfrenta o lateral esquerdo do Atlético. Marcos Llorente, que cumpre essa função, é mais volante do que lateral. Tem chegada, mas perde em duelos individuais de velocidade.

O Barcelona explorou esse corredor nos dois confrontos de La Liga nesta temporada. Na vitória por 2 a 1 no último sábado, Yamal gerou 1.4 xG de situações criadas pelo lado direito, a maioria vinda de recepções entre as linhas e arrancadas em velocidade. Llorente cobriu o espaço, mas chegou tarde nas duas vezes que Yamal arrancou.

Do outro lado, Lookman, pelo corredor direito do Atlético, é a resposta ofensiva ao problema defensivo. O nigeriano tem oito gols na Champions nesta temporada, o segundo melhor índice da competição. A questão é que o Barcelona com Koundé no lado esquerdo cobre esse corredor com mais solidez do que o Atlético cobre o seu.

Como o Atlético tenta quebrar a posse do Barcelona

O Atlético não vai pressionar alto. Simeone vai posicionar o bloco entre as linhas 5-5 e 6-4 do campo defensivo e esperar o Barcelona construir. A partir daí, o plano é capturar as linhas de passe dos pivôs, especialmente de Pedri, que é quem distribui a bola no terço médio.

Nos dois últimos jogos do Atlético contra times de alta posse, a média de passes por sequência antes da perda de bola adversária foi de 4.2. O Atlético força o jogo para as laterais e bloqueia os corredores centrais. Quando o Barcelona tenta jogar pelo meio, os dois meias laterais do 4-4-2, Koke e De Paul, fecham o espaço rapidamente.

O problema dessa abordagem é que deixa espaço entre as linhas para a chegada de Dani López, o segundo atacante do Barcelona. López desceu 14 vezes nas últimas três partidas para receber entre o meio-campo e a defesa adversária. Com o Atlético fechado no centro, esse corredor de chegada fica ainda mais disponível.

O papel de Griezmann

Griezmann não é um centroavante. Opera como segundo atacante que parte da linha do meio-campo para aparecer nas costas dos zagueiros em transições rápidas. É o jogador responsável por transformar a recuperação de bola do Atlético em chance de gol.

O barcelonês Araujo vai marcar Julián Álvarez na linha. A responsabilidade de cobrir as movimentações de Griezmann cai sobre Cubarsi, o zagueiro de 17 anos que é titular absoluto no sistema de Flick. Cubarsi tem excelente posicionamento, mas ainda carece de leitura nas chegadas diagonais de jogadores experientes em zonas de segundo poste.

Nos quatro jogos do Atlético que antecederam esta eliminatória, Griezmann participou de dois gols vindo de movimentações de segunda linha. É o padrão. O Barcelona vai precisar cobrir essa função sem perder o equilíbrio defensivo.

Bolas paradas

O Barcelona é o segundo time da Champions em gols de bola parada nesta temporada, com sete em 12 jogos. O Atlético é o terceiro melhor time em defesa de bolas paradas, com apenas dois gols sofridos nessa situação.

Pedri cobra as faltas laterais e os escanteios do Barcelona. Lewandowski e Araujo são os alvos preferenciais. O Atlético coloca Hermoso e Le Normand nas marcações individuais e posiciona um jogador na primeira trave para cortar bolas rasteiras. O duelo aéreo vai ser um ponto de pressão constante ao longo dos 90 minutos.

Projeção tática

O Camp Nou impõe um ritmo que o Atlético vai tentar desacelerar. Simeone vai instruir os jogadores a gastar tempo nas reposições e a não pressionar a saída de bola barcelonista, aceitando deixar a bola circular para atrasar o jogo.

O Barcelona vai dominar a posse e criar mais chances. A questão é converter. Nos três últimos jogos em que o Barça teve mais de 65% de posse, venceu dois e empatou um. O Atlético, nesses mesmos três jogos adversários, marcou em transição em dois deles.

O padrão histórico aponta para um jogo fechado. Nas duas últimas eliminatórias entre os dois clubes na Champions, o Atlético avançou nas duas. Em 2013/14 e 2015/16, a equipe de Simeone eliminou o Barcelona nas quartas com placar agregado de 2 a 1 e 3 a 2. O Camp Nou nunca foi a casa do Barça nesse confronto específico.

Leia também: a análise tática da outra chave das quartas, PSG x Liverpool. E, pelo Brasileirão, como um time cede mais de 60% de posse e ainda vence por três gols: São Paulo 4x1 Cruzeiro.

Rafael Teixeira Jornalista Esportivo

Rafael Teixeira tem 34 anos e nasceu em Goiânia. Formado em Educação Física pela UFG, trabalhou como analista de performance no Goiás EC entre 2018 e 2022, onde participou do acesso à Série A em 2018.... Ler perfil completo