Dez rodadas disputadas. Zero derrotas. O Bahia é o único time do Brasileirão 2026 ainda invicto. Com 17 pontos, o Esquadrão ocupa a terceira posição e divide o bloco de cima com Palmeiras e São Paulo.
Os números ofensivos revelam o principal diferencial do esquema de Rogério Ceni: a artilharia é distribuída por nove posições diferentes. Volantes marcam. Laterais marcam. Pontas marcam. Meias marcam. Não há dependência de um único nome. Há um sistema.
O dado que define o modelo
Em dez rodadas, o Bahia marcou gols com jogadores de pelo menos seis posições distintas, incluindo volantes e lateral. Erick, volante, contribuiu com quatro gols e duas assistências. Jean Lucas, outro volante, fez dois gols em partidas decisivas. Luciano Juba, pelo flanco, aparece como artilheiro da equipe com seis participações diretas em gols.
Esse padrão não é acidente. É produto de uma construção tática que obriga os adversários a cobrir mais linhas de marcação do que costumam preparar. Quando um time marca pela maioria de suas posições, o adversário não consegue fechar os espaços apenas protegendo o centroavante e os pontas.
Para comparação, o Bahia também é o único time do Brasileirão 2026 sem cartão vermelho, o que sugere disciplina tática consistente em toda a equipe, não apenas nos setores ofensivos.
O esquema base: 4-3-3 com volantes que chegam
Rogério Ceni utiliza o 4-3-3 como formação base, mas o que define o modelo é o comportamento dos volantes no momento de posse. Jean Lucas e Erick não ficam apenas cobrindo os corredores centrais. Ambos têm instrução para chegar na área em determinadas situações, especialmente quando o time ataca pelo lado oposto e cria superioridade no segundo poste.
O mecanismo funciona assim: o ponta abre pelo lado, o lateral sobe na sobreposição, o centroavante faz a movimentação de apoio, e um dos volantes projeta para a área chegando pelo lado cego da marcação. É o movimento que gerou dois dos gols de Erick na competição.
A condição para esse mecanismo funcionar é que o outro volante, aquele que não sobe, cubra o espaço central. Quando um sai, o outro segura. O equilíbrio entre os dois é o que permite a liberdade ofensiva sem expor a defesa nas transições.
Luciano Juba: o lateral-artilheiro
Juba é o dado mais visível do modelo. Um lateral-direito com seis participações diretas em gols em dez rodadas é um número de atacante, não de defensor. Em termos de posicionamento ofensivo, Juba opera mais como um ala do que como um lateral clássico.
O risco dessa aposta é conhecido: lateral muito avançado expõe o corredor nas costas. Ceni gerencia esse risco de duas formas. Primeiro, o ponta-esquerda tem responsabilidade de cobrir o corredor direito quando Juba sobe, atuando como ala com função defensiva no momento sem bola. Segundo, o volante do lado de Juba tem instrução de fechar o corredor central e evitar que o time fique exposto em transição pelo centro.
Em dez rodadas, o sistema não foi punido de forma consistente por esse risco. O Bahia sofreu 11 gols, uma média de 1,1 por jogo. Não é a melhor defesa do campeonato, São Paulo e Flamengo têm números melhores, mas é compatível com o nível de risco que o esquema assume.
A estratégia de blocos de Rogério Ceni
Em entrevista à CNN Brasil, Ceni revelou o método: dividir o campeonato em blocos menores de rodadas, com metas específicas para cada bloco. A abordagem reduz a pressão psicológica de encarar 38 rodadas de uma vez e mantém o foco operacional da equipe em objetivos de curto prazo.
O impacto tático dessa abordagem é menos óbvio, mas real. Times que pensam em blocos tendem a ajustar o modelo com mais frequência, porque cada bloco é encarado como um ciclo de testes e correções. O Bahia fez ajustes perceptíveis entre o bloco inicial das rodadas 1 a 5 e o bloco atual. A participação ofensiva dos volantes aumentou. O pressing passou a ser mais seletivo, concentrado nos primeiros 25 e nos últimos 20 minutos.
Esses ajustes são a marca de um processo em andamento, não de um modelo travado. Times que não evoluem no decorrer do campeonato tendem a ser decifrados. O Bahia ainda não foi.
O único time sem cartão vermelho e sem derrota
A combinação de invicto e sem expulsão em dez rodadas não é trivial. Sugere que a disciplina coletiva permeia todos os setores. Um time que marca com volantes e laterais, mas que também mantém organização para não cometer erros individuais graves, tem uma coerência de modelo que vai além do talento dos jogadores.
O Brasileirão 2026 já mostrou que o empate zero a zero foi eliminado como resultado recorrente, com a liga registrando recorde histórico na ausência desse placar. Num campeonato com mais gols e menos resultados defensivos, manter a invencibilidade por dez rodadas tem peso maior do que em edições anteriores.
O teste que vem pela frente
A rodada 11 coloca o Bahia diante do Palmeiras, atual líder com 22 pontos. É o confronto direto que vai testar se o modelo de Ceni sustenta a invencibilidade contra o time de maior posse e mais organizado no pressing do campeonato.
O Palmeiras tende a compactar o meio e fechar os corredores internos. Isso reduz justamente o espaço que os volantes do Bahia precisam para chegar à área. Se Ceni não encontrar solução para esse problema específico, o modelo pode sofrer a primeira derrota.
A resposta de Rogério Ceni a esse teste é o próximo capítulo do maior modelo tático do Brasileirão 2026 até aqui. Dez rodadas, zero derrotas, artilharia de nove posições. O sistema funciona. A pergunta é por quanto tempo o restante do campeonato vai demorar para encontrar a resposta.