Eduardo Domínguez escalou seis formações diferentes nos primeiros seis jogos à frente do Atlético-MG. No sétimo, contra o Athletico-PR na Arena MRV, o sistema parou de mudar. O 4-2-3-1 funcionou, o corredor esquerdo foi dominante do início ao fim e o time venceu por 2 a 1. Dois pontos a mais na tabela. E uma referência de como o técnico argentino quer jogar.
O jogo aconteceu no domingo, dia 5 de abril, pela décima rodada do Brasileirão. Victor Hugo e Gustavo Scarpa marcaram para o Galo. Julimar descontou para o Athletico no segundo tempo. O resultado levou o Atlético-MG a 14 pontos, saindo da zona intermediária em direção ao pelotão do meio da tabela.
O corredor esquerdo como arma principal
A primeira reportagem tática relevante do jogo não está nos gols. Está no posicionamento de Renan Lodi e Tomás Cuello no lado esquerdo do Atlético-MG. O lateral-esquerdo brasileiro e o extremo argentino operaram em combinação constante durante os 90 minutos: Cuello partindo pelo corredor interno enquanto Lodi avançava pela linha, criando dois caminhos diferentes para a mesma zona de ataque.
O Athletico-PR usa um 3-4-2-1 de Odair Hellmann com dois alas que têm função mista, ofensiva e defensiva. Quando o ala direito subia para apoiar, o espaço nas costas ficava descoberto por dois a três segundos antes de o zagueiro cobrir. Foi nesse intervalo que Cuello e Lodi construíram as principais situações de perigo do Atlético.
O primeiro gol saiu exatamente desse padrão. Lodi recebeu com espaço, cruzou rasteiro para a segunda trave, e Victor Hugo completou. O Athletico tinha o ala na posição errada para cortar o cruzamento.
O sistema de Domínguez
Domínguez trabalha com dois volantes que não se expõem: um quebra, o outro organiza. Contra o Athletico-PR, a dupla Otávio e Alan Franco operou com esse princípio de forma clara. Franco ficou posicionado como âncora quando o Atlético construía no terço defensivo, e Otávio avançou para cobrir o espaço entre as linhas quando a bola estava no terço médio adversário.
A organização defensiva, uma das marcas dos times de Domínguez nos clubes argentinos, começa a aparecer nos dados do Atlético em 2026. Nas seis rodadas sob o comando do argentino antes deste jogo, o time havia reduzido a média de gols sofridos por partida de 2.1 para 1.1 em relação ao período de Sampaoli. O padrão defensivo mudou.
O foco de Domínguez na compactação entre linhas impede que o adversário jogue pelo corredor central. O Athletico-PR tentou encontrar Canobbio entre as linhas no primeiro tempo em sete ocasiões. Em seis, a linha do meio-campo atleticana fechou o espaço antes da recepção.
O que o Athletico-PR tentou fazer
O sistema de Odair Hellmann é construído na transição rápida e na amplitude dos alas. Com três zagueiros, o time ganha solidez no bloco defensivo mas depende dos alas para criar largura no ataque. Pela direita, Léo Godoy subiu 11 vezes no primeiro tempo. O cruzamento funcionou em duas delas.
O problema do Athletico-PR no jogo foi a perda de bola no terço médio. Em 14 situações de construção que o Atlético-MG recuperou nessa zona, oito se converteram em transições ofensivas imediatas. O 3-4-2-1 deixa o corredor central vulnerável quando os dois meias-atacantes, Di Yorio e Canobbio, estão adiantados na fase ofensiva.
Julimar, o centroavante, ficou isolado na maior parte do jogo. O atacante recebeu apenas quatro passes no terço ofensivo durante os primeiros 70 minutos. Quando o Athletico buscou o jogo, no segundo tempo, Odair tirou Léo Dérik e colocou mais um volante para equilibrar o meio-campo. A decisão atrasou a reação e deixou o time sem profundidade no ataque.
Scarpa como segundo construtor
Gustavo Scarpa operou como meia ofensivo no 4-2-3-1 de Domínguez, mas com liberdade para sair da posição e buscar a bola mais recuada. Em três situações no segundo tempo, Scarpa desceu até o círculo central para receber, deu um toque e acelerou em direção à área enquanto a defesa adversária ainda reposicionava.
O segundo gol do Atlético saiu de um desses movimentos. Scarpa recebeu entre as linhas, girou sobre o marcador e finalizou no canto. A jogada não passa pelo corredor esquerdo, mas é consequência direta do espaço que o Athletico-PR abriu para cobrir Lodi e Cuello: a zona central ficou mais exposta.
Scarpa tem quatro participações diretas em gols no Brasileirão 2026, com 112 minutos de média por participação. Nos times de Domínguez, o meia abaixado que conecta a construção ao último terço é peça central do sistema. O argentino encontrou no jogador o perfil que procurava.
O que Domínguez ainda precisa ajustar
O Atlético-MG foi dominante nos primeiros 65 minutos. Depois, recuou em demasia. O Athletico-PR marcou com Julimar após cobrança de escanteio, situação que o Atlético poderia ter evitado com uma linha defensiva mais alta.
Nos últimos cinco jogos do Atlético, três dos quatro gols sofridos vieram de bola parada. O problema defensivo em escanteios e faltas laterais não foi resolvido pela troca de treinador. Domínguez precisa ajustar a marcação individual ou por zona nas bolas paradas antes que isso comprometa resultados em jogos mais equilibrados.
O segundo problema é a dependência do corredor esquerdo. Em sete dos dez jogos do Atlético no Brasileirão, mais de 60% das ações ofensivas passaram pelo lado de Lodi e Cuello. A previsibilidade pode ser explorada por adversários que posicionem o ala direito defensivo em posição mais conservadora.
O diagnóstico
O Atlético-MG de Domínguez está em construção, mas o jogo contra o Athletico-PR mostrou o esboço do sistema: bloco compacto, dois volantes sem exposição, corredor esquerdo como eixo ofensivo e Scarpa conectando os setores. Falta consistência nas bolas paradas e diversificação nas saídas ofensivas. Com esses dois ajustes, o time tem estrutura para brigar pela parte de cima da tabela.
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