Vinicius merece a Bola de Ouro. O Brasil não merece Vinicius.
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Fora da Caixa 2026-04-07 3 min de leitura

Vinicius merece a Bola de Ouro. O Brasil não merece Vinicius.

Marina Costa
Jornalista Esportiva

Vinicius Junior e o melhor jogador do mundo agora. Nao um dos melhores. O melhor. E o Brasil ainda não sabe como tratar isso.

Em campo, o debate não existe mais. Vinicius carrega o Real Madrid em noites em que nenhum outro jogador do elenco consegue resolver. Dribla por fora quando o adversario fecha o centro. Quando fecham por fora, acha o corredor interior. Quando fecham os dois, cria espaco do nada. Esse nivel de execucao sob pressao maxima e o que define o melhor do mundo. E Vinicius faz isso consistentemente.

Fora de campo, o Brasil continua sem saber o que fazer com ele.

O racismo que o Brasil minimiza

Vinicius foi alvo de ataques racistas na Espanha com frequencia que não caberia em nenhum outro contexto sem resposta institucional severa. A La Liga respondeu devagar. O Brasil acompanhou o debate de fora, como se fosse assunto espanhol.

Nao e. E assunto brasileiro. Vinicius e brasileiro. As condicoes que tornaram possivel que ele enfrentasse aquele nível de hostilidade sem protecao adequada -- a indiferenca das ligas, o silencio de instituicoes, a normalizacao de ataques como parte do jogo -- fazem parte de um problema que o Brasil tambem produz internamente. Racismo em estadio brasileiro existe. Muita gente que criticou a La Liga não critica com a mesma intensidade quando acontece aqui.

A posicao de Vinicius nesse debate e corajosa. Ele falou quando outros em sua posicao ficariam em silencio. Arriscou conforto e exposicao para tornar o problema visivel. Isso não e ativismo de luxo -- e coragem real de quem paga o preco pessoalmente.

A Bola de Ouro que pode vir

Em 2026, Vinicius esta na corrida pela Bola de Ouro com Copa do Mundo no meio do caminho. Se o Brasil for bem na Copa e Vinicius for decisivo -- e todas as indicacoes apontam que sera -- o trofeu pode vir. Seria o reconhecimento mais alto do futebol mundial para o melhor jogador que o Brasil tem agora.

E o Brasil vai celebrar. Vai usar a Bola de Ouro de Vinicius como simbolo nacional. Vai colocar ele em banner de campanha politica, em publicidade institucional, em discurso de orgulho nacional. O mesmo Brasil que não protegeu ele do racismo, que murmura critica toda vez que ele reclama publicamente, que o coloca em sistemas de seleção que limitam o que ele faz no Real Madrid.

Isso e hipocrisia. E o Brasil tem pratica nessa hipocrisia especifica: celebrar em retrospectos o que não soube valorizar no presente.

O que o Brasil faz de errado com seus melhores

Vinicius no Real Madrid joga em sistema construido ao redor do que ele faz melhor. Corre pela esquerda com liberdade, recebe bola em espaco aberto, decide na velocidade. Na seleção de temporadas anteriores, era frequentemente preso em posicao estreita, sem o companheiro que entendia seu movimento, dentro de sistema que não explorava o que ele faz com naturalidade.

O Brasil tem o melhor extremo esquerdo do mundo e ainda debate se ele deveria jogar diferente. Isso diz algo sobre como o pais pensa o proprio futebol: os jogadores precisam se encaixar no sistema, não o sistema precisa ser pensado a partir dos jogadores que fazem diferenca.

Ancelotti entende isso. O Real Madrid foi construido ao redor de Vinicius. A seleção de Ancelotti tambem parece ir nessa direcao. Se isso se confirmar, o Brasil pode ter o melhor jogador do mundo funcionando no melhor sistema possivel para ele. Essa combinacao em Copa e o que produz hexa.

Mas o Brasil precisa aprender antes: valorizar o que tem enquanto tem. Nao depois. Nao com Bola de Ouro em mao e discurso de orgulho nacional. Agora, enquanto o processo acontece, enquanto as dificuldades sao reais e não romanticas, enquanto a protecao e necessaria e não so o elogio.

Vinicius merece a Bola de Ouro. Resta saber se o Brasil merece celebrar ele -- ou se vai continuar sendo o pais que colheu o que não plantou.

Marina Costa Jornalista Esportiva

Marina Costa tem 38 anos e é carioca do Méier. Formada em Jornalismo pela UERJ, começou cobrindo esporte em 2010 no Lance!, onde ficou por 5 anos na editoria de futebol nacional. Passou pela ESPN Bras... Ler perfil completo