O VAR existe ha sete anos no Brasil. Os erros continuam. E agora a tecnologia tem que dividir a culpa com o julgamento humano.
Quando o VAR foi introduzido, a promessa era clara: erros grosseiros seriam eliminados. Impedimentos duvidosos teriam resposta definitiva. Pênaltis não marcados por sobrecarga de jogo teriam revisao. O futebol seria mais justo.
Sete anos depois, o debate sobre arbitragem no Brasil continua igual ao que era antes do VAR. Com um agravante: agora temos controversia sobre o uso da tecnologia em si. Quando aplicar. Que angulo usar. O que conta como fato objetivo e o que conta como interpretacao subjetiva. A tecnologia não resolveu a arbitragem brasileira -- adicionou uma camada de debate ao que ja era complicado.
O que o VAR faz bem e o que não faz
O VAR funciona bem para o que e objetivo: impedimento por centimetros, entrada violenta fora do angulo de visao do arbitro, confusao de identidade de jogador punido. Sao situacoes onde a tecnologia adiciona informacao que o olho humano não captura em tempo real.
Onde o VAR falha e no que nunca deveria ter sido prometido: interpretar o que e pênalti. Interpretar o que e falta. Interpretar se o jogador estava em posicao ou não de influenciar o jogo. Essas decisoes continuam sendo subjetivas, e a subjetividade com revisao de video produz debates diferentes, não debates menores.
O Fluminense foi a CBF reclamar de uma decisao de arbitragem e o episodio virou noticia. A reclamacao pode ser legitima. O mecanismo de recorrer a entidade reguladora não resolve o problema e todos sabem -- a propria CBF admite implicitamente quando não muda nada depois. E como a cultura de reclamacao de arbitragem continua viva mesmo com tecnologia disponivel.
O problema e de formacao, não de ferramenta
A questao central que ninguem quer enderecar: o Brasil profissionalizou a ferramenta sem profissionalizar quem a opera.
O VAR no Brasil e operado por arbitros que sao os mesmos arbitros que julgam pelo campo. Com a mesma formacao. Com os mesmos vis cognitivos. Com as mesmas preferencias institucionais. Colocar um arbitro com viés em frente a um monitor não remove o vies -- da a ele mais tempo para justificar a decisao que ja havia tomado.
Paises com arbitragem mais consistente não tem tecnologia melhor. Tem formacao mais rigorosa, criterios mais claros e, o mais importante, cultura de responsabilizacao. Arbitro que erra sistematicamente perde espaco. No Brasil, arbitro que erra sistematicamente aparece nos grandes jogos da temporada seguinte. Esse incentivo perverso não foi resolvido pelo VAR.
A CBF profissionalizou salarios de arbitros. E um passo. Mas salario fixo sem criterio de performance e sem mecanismo de responsabilizacao e custo adicional sem garantia de melhora de qualidade.
O que precisaria mudar de verdade
Criterios claros e publicos para uso do VAR. Nao interpretacao ampla e discricionaria -- regras objetivas sobre quando revisar e quando não revisar. Isso reduziria a sensacao de arbitrariedade sem eliminar a subjetividade inevitavel em algumas decisoes.
Responsabilizacao de arbitros por erros graves. Com mecanismo publico de avaliacao. Nao critica na imprensa -- avaliacao institucional com consequencias para quem erra fora dos limites aceitaveis.
E a mais dificil: mudanca cultural nos clubes e torcedores. Enquanto o resultado de reclamar for politicamente vantajoso para presidentes de clube -- mesmo quando não resolve nada --, a presao por reclamacao vai continuar. E enquanto a reclamacao continuar, a percepção de injustiça vai persistir independente de qualquer tecnologia que for implementada.
Sete anos de VAR. O futebol brasileiro não ficou menos controverso. Ficou mais complexo para ser controverso. Isso não e progresso -- e mudanca de forma sem mudanca de substancia. E o futebol brasileiro merece mais do que isso.