A Confederação Brasileira de Futebol levou seis dias para perceber que havia colocado uma gíria de adolescente do TikTok no uniforme de uma seleção que já ganhou cinco Copas do Mundo. Seis dias. E só percebeu porque 75% das menções nas redes sociais eram negativas.
Isso não é gestão de marca. É rinha de gato com pesquisa de mercado.
Por que ninguém fala do problema real
Todo mundo está discutindo se "Brasa" é uma gíria bonita ou feia. Se faz sentido chamar o Brasil de Brasa. Se a Nike errou ou a CBF aprovou sem ler. O presidente Samir Xaud disse que foi "pego de surpresa" e mandou tirar o termo. Caso encerrado, aparentemente.
Mas o problema não é a palavra. O problema é que a CBF assinou um uniforme que ela mesma não entendeu. E quando a torcida reclamou, ela correu para o lado contrário num prazo que constrangeria até um estagiário de comunicação.
Isso é o retrato de uma confederação que não tem identidade, não tem posição, não tem coragem. A Nike veio com uma proposta criativa, mesmo que discutível, e a CBF não soube defender nem atacar. Esperou a internet decidir por ela.
A Nike tinha uma ideia. A CBF não tinha nenhuma
Vamos dar o crédito que é justo: a Nike tinha uma estratégia. "Brasa" como apelido informal, voltado ao público jovem, com linguagem de redes sociais, aproximando a seleção de uma geração que não tem a reverência emocional dos que viram o Pelé ou o Ronaldo. É discutível, mas é uma ideia com começo, meio e fim.
A CBF não tinha a menor ideia. A evidência é simples: 75% de rejeição e o presidente dizendo que foi "pego de surpresa". Em qual mundo uma confederação é surpreendida pelo próprio uniforme olímpico? Em qual processo de aprovação uma gíria chega na costura interna da gola sem que alguém pergunte se é uma boa ideia?
A resposta está na estrutura da CBF: ela é eficiente em arrecadar, em assinar contratos, em montar burocracia. Ela é péssima em pensar a longo prazo. E a identidade de uma seleção é exatamente isso: longo prazo.
O fantasma da camisa vermelha
Não é a primeira vez. Em 2023, a CBF tentou lançar uma camisa vermelha para a seleção masculina. A reação foi semelhante: torcedores em peso, associação com adversários históricos, o sinal de que a federação não escuta nem a si mesma.
Em ambos os casos, o padrão se repete: proposta de ruptura sem explicação narrativa, resistência popular imediata, recuo igualmente imediato. Nenhuma tentativa de construir argumento. Nenhuma posição sustentada. Nenhum projeto de identidade que explique por que o Brasil deveria se chamar Brasa, usar vermelho, ou qualquer outra coisa que destoa do imaginário coletivo.
Uma seleção com história não pode mudar de identidade por impulso de marketing. Seleções que fazem isso de forma bem-sucedida, como os Estados Unidos no rugby ou a Alemanha no futebol pós-2014, passam anos construindo narrativa antes de apresentar o visual. A CBF apresenta o visual e espera que a narrativa apareça sozinha.
E a Copa está chegando
Faltam dois meses para a Copa do Mundo de 2026. A seleção terminou as Eliminatórias em quinto lugar na tabela sul-americana, com o pior desempenho do ciclo, três derrotas consecutivas incluídas. O debate sobre identidade de jogo ainda está em aberto. O debate sobre o camisa 10 titular ainda está em aberto. O debate sobre esquema tático ainda está em aberto.
E a CBF estava gastando energia discutindo se a palavra "Brasa" ficaria na gola ou não.
A questão não é se a gíria é bonita. É que a seleção chegou à Copa do Mundo com um problema de identidade que vai muito além do uniforme. O Brasil tem cinco títulos mundiais e nenhuma identidade de jogo consolidada no século XXI. Não sabe se quer jogar direto ou construído. Não sabe se quer velocidade ou posse. Não sabe se o projeto é Dorival ou já é hora de pensar no pós-Copa.
A camisa é o sintoma. A crise é mais funda.
O que acontece quando você não tem projeto
Outros países resolveram essa questão há tempos. A Espanha tem a tiki-taka, mesmo que já tenha evoluído. A Alemanha tem o gegenpressing como DNA. A França tem a diversidade como narrativa, para o bem ou para o mal. Até o Marrocos, que foi semifinalista em 2022, tem uma identidade reconhecível: intensidade defensiva, transições rápidas, orgulho continental.
O Brasil tem o amarelo e o verde. Tem as estrelas. Tem a história. Mas projeto de jogo? Projeto de seleção para os próximos dez anos? Ninguém consegue descrever.
Quando você não tem projeto, você discute gíria. Quando você não tem identidade de jogo, você discute camisa. Quando você não tem liderança técnica, você discute se o presidente foi ou não pego de surpresa pelo próprio uniforme.
A CBF tirou o "Brasa" da gola. Mas deixou o vazio onde deveria estar o planejamento.
E esse vazio não tem Nike que resolva.