Técnico jovem no Brasil: o mercado que não existe
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Fora da Caixa 2026-04-07 3 min de leitura

Técnico jovem no Brasil: o mercado que não existe

Marina Costa
Jornalista Esportiva

Filipe Luis assumiu o Flamengo com 38 anos. Nunca tinha treinado um clube profissional. Chegou como aposta de diretoria, jogador que entendia o clube, que tinha jogado no nivel mais alto, que podia conectar vestiario e comissao tecnica.

Funcionou por um periodo. Depois veio a instabilidade. E o debate sobre tecnico jovem no futebol brasileiro voltou.

O que o futebol brasileiro perde por não apostar em tecnicos jovens

Os melhores tecnicos europeus da atualidade passaram por um periodo em que foram considerados apostas, Guardiola era jovem quando assumiu o Barcelona. Klopp era jovem quando assumiu o Borussia Dortmund. Arteta tinha 38 anos quando assumiu o Arsenal, sem experiencia previa como tecnico principal.

Esses clubes apostaram. Deram tempo. E colheram os resultados.

O futebol brasileiro tem dificuldade com essa aposta. A pressao por resultado imediato e maior. A margem de erro para tecnico jovem e menor. O primeiro resultado ruim ja gera pressao para demissao, e tecnico jovem sem historico de titulos não tem credito acumulado para sobreviver a essa pressao.

O que o modelo brasileiro favorece

Tecnicos com curriculo. Nomes reconhecidos. Historico de Brasileirão, de Copa, de Libertadores. Tite tem curriculo, mas ja passou pelo Brasil. Renato Gaucho tem curriculo, mas as ultimas temporadas foram abaixo do que se esperava. Luxemburgo tem curriculo, e setenta anos de tecnico.

O Brasil recicla os mesmos nomes porque esses nomes oferecem o menor risco de reputacao para o dirigente que contrata. Se der errado com tecnico conhecido, o clube contratou bem e o tecnico foi mal. Se der errado com tecnico jovem, o dirigente vai ser criticado por ter apostado em nome sem experiencia.

O incentivo para o dirigente e sempre contratar o curriculo, mesmo quando o curriculo esta esgotado.

O que Filipe Luis mostrou e o que não mostrou

Filipe Luis mostrou que ex-jogador de elite consegue comunicar com vestiario de forma que tecnicos sem essa experiencia não conseguem. O jogador que ganhou Champions, que jogou com Messi e Ronaldo, tem autoridade de experiencia que o tecnico puramente de prancheta não tem.

O que não mostrou: capacidade de adaptar o sistema taticamente ao longo da temporada. As dificuldades do Flamengo em 2025-26 vieram em parte de rigidez taticamente, o time não tinha resposta para adversarios que bloquearam o sistema preferido do clube.

Isso e ensinavel. Tecnico jovem aprende. Mas o aprendizado custa tempo, e o futebol brasileiro não tem paciencia para o custo de aprendizado.

O que o Brasil precisa fazer para ter proxima geracao de tecnicos

Aceitar que a geracao de Guardiola, Klopp e Arteta vai chegar ao Brasil algum dia, mas so se o futebol brasileiro criar ambiente para isso. Clube que não da chance para tecnico jovem não vai ter tecnicos jovens de referencia daqui a 10 anos.

Investir em formacao de tecnicos. O curso de licenca de tecnico da CBF existe mas não tem o nivel de rigor e profundidade dos cursos europeus equivalentes. Tecnico brasileiro vai para Europa buscar formacao que não encontra em casa, e muitas vezes fica por la.

A proxima geracao de grandes tecnicos brasileiros esta sendo formada agora. Ou o Brasil cria o ambiente para que eles aparecem aqui, ou eles aparecem em Portugal, na Espanha, na Alemanha.

E o Brasil vai ficar reciclando os mesmos nomes conhecidos.

Marina Costa Jornalista Esportiva

Marina Costa tem 38 anos e é carioca do Méier. Formada em Jornalismo pela UERJ, começou cobrindo esporte em 2010 no Lance!, onde ficou por 5 anos na editoria de futebol nacional. Passou pela ESPN Bras... Ler perfil completo