Três dos quatro times rebaixados para a Série B em 2025 tinham orçamento acima da média dos times que foram rebaixados nas últimas cinco temporadas da Série A. A queda não foi financeira. Foi tática. Os dados das campanhas dos rebaixados revelam os erros que os colocaram na segunda divisão e o que cada time precisa corrigir para voltar.
Os quatro rebaixados de 2025 para a Série B 2026 são Athletico-PR, Cuiabá, América-MG e Fluminense. O Fluminense venceu a Libertadores em 2023. O Athletico-PR foi vice-campeão da Copa do Brasil em 2024. A queda dos dois grandes é o dado mais revelador da temporada 2025.
Athletico-PR: o pressing que virou fraqueza
O Athletico-PR chegou a 2025 como referência de pressing no futebol brasileiro. O Furacão de Odair Hellmann aplicava pressing alto sistemático. O dado de PPDA, passes permitidos por ação defensiva, estava entre os três mais baixos do Brasileirão em 2023 e 2024. Baixo PPDA significa pressing intenso.
Em 2025, o PPDA do Athletico subiu de 8,2 para 12,4. O pressing que era identidade virou memória. A razão foi a saída de jogadores-chave do sistema: Canobbio, Vitor Roque e Fernandinho. Os três eram peças essenciais no pressing de Odair. Sem eles, o Athletico tentou manter o pressing com jogadores de perfil diferente. Não funcionou.
O dado mais revelador: o Athletico de 2025 tinha o 18º maior percentual de recuperações de bola no campo adversário entre os 20 times da Série A. Em 2023, estava em segundo lugar. A queda de segundo para décimo oitavo em recuperações ofensivas em dois anos é o retrato da perda de identidade do sistema.
Fluminense: o custo da Libertadores
O Fluminense que venceu a Libertadores em 2023 tinha identidade definida pelo sistema de Fernando Diniz: posse posicional com flutuação de funções. Germán Cano era o centroavante que caía no meio. Ganso era o organizador entre as linhas. André era o volante motor.
Em 2024, André saiu para o Fulham. Em 2025, Cano perdeu rendimento. Diniz saiu em 2024. Os três pilares do sistema que ganhou a Libertadores não estavam mais no clube. Os técnicos que vieram depois não conseguiram criar identidade nova com o elenco disponível.
O dado que resume o Fluminense de 2025: o time teve quatro técnicos em 38 rodadas. Os sistemas usados foram 4-3-3, 4-4-2, 3-5-2 e 4-2-3-1. Nenhum dos quatro foi mantido por mais de oito rodadas. Um time sem sistema não tem automatismos. Sem automatismos, os jogadores tomam decisões individuais sob pressão. O resultado foi 18ª posição e rebaixamento.
América-MG e Cuiabá: os dados estruturais
América-MG e Cuiabá repetiram o padrão de times que dependem de eficiência na finalização para compensar desvantagem em criação de chances. O América-MG tinha xG concedido de 1,8 por jogo em 2025, o quinto maior do campeonato. Para competir com esse dado, precisava converter eficientemente. Não converteu: a taxa de finalização do clube foi de 10,8%, a mais baixa da Série A.
O Cuiabá tinha o problema do volume: apenas 8,2 finalizações por jogo, a segunda menor da Série A em 2025. O time não chegava o suficiente para criar oportunidades. Com pouco volume e baixa qualidade de criação, o xG do Cuiabá foi de 0,9 por jogo, o segundo menor da competição.
O que a Série B 2026 vai exigir
A Série B é uma competição diferente da Série A em termos táticos. O nível técnico é mais baixo, o que significa que sistemas de pressing alto têm mais retorno. Times que dominam o pressing na Série B conseguem recuperações ofensivas com mais frequência do que na Série A, onde os times têm mais qualidade para escapar da pressão.
O Athletico-PR tem o perfil certo para a Série B: se conseguir reconstruir o pressing com o elenco disponível, tem vantagem competitiva clara. O histórico do clube na Série B é de dominância: o Athletico não ficou mais de um ano na segunda divisão em nenhuma das ocasiões anteriores que esteve lá.
O Fluminense tem o desafio de definir identidade. A Série B exige consistência, não variação. Um time que muda de sistema a cada mês não consegue os automatismos necessários para vencer 38 rodadas de campeonato contra adversários organizados.
Diagnóstico
O rebaixamento de Athletico-PR e Fluminense em 2025 foi tático antes de ser financeiro. Os dois tinham recursos. Não tinham sistema. O dado de 2026 na Série B vai mostrar quais dos rebaixados corrigiram o problema estrutural e quais vão brigar pela permanência no segundo nível.
Para mais contexto, leia a análise do ciclo do Atlético pós-Libertadores e o dado sobre identidade tática no Corinthians.